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28.6.16

Escritos



Será que nada fazia, de facto, prever o resultado do referendo no RU?
Quando Cameron, numa atitude de irresponsabilidade total, prometeu o referendo para ganhar as eleições para primeiro-ministro, estava, de facto, convencido que não ganharia as eleições por maioria absoluta (como aconteceu) e que, eventualmente coligado com os LibDem, fosse "forçado" a deixar cair o referendo tendo em conta a velha inclinação europeísta desse partido.
Mas isso não passa de fogo fátuo, porque o que está na base do voto britânico é muito mais complexo, conforme têm dito tantos e tantos entendidos, e passa por um enorme descontentamento social que vem grassando ao longo de décadas durante as quais parte do RU sempre se considerou afastada da UE, talvez vindo ao de cima algumas características dos ilhéus, e começou a não tolerar a chegada massiva da imigração que, conjuntamente com a deterioração das condições de vida das classes médias (que pouco ou nada tem que ver com a vaga imigrante), foi contribuindo para um sentimento crescente de descontentamento.
O que a mim me preocupa é a fissura que foi criada no RU, opondo de um lado os remainers e do outro os exiters. Dir-se-á que seria sempre assim tendo em conta o próprio objecto do referendo, mas neste caso foi muito pior e as consequências são potencialmente mais devastadoras, tendo em consideração a distribuição dos votos. Sucede que as populações mais jovens votaram massivamente no remain, ao passo que as mais velhas preferiram a saída e essa circunstância de per se está a criar um desentendimento geracional grave, inclusive entre membros da mesma família, que pode levar a fracturas irreparáveis, porque afectam irremediavelmente a coesão nacional que, entre outras coisas, contribui decisivamente para a identidade de um povo. Veja-se, a título de exemplo, este artigo do Guardian: http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2016/jun/27/brexit-family-rifts-parents-referendum-conflict-betrayal
Ora, a mim espanta-me que um primeiro-ministro não tenha sabido ou conseguido antecipar este efeito - para não falar de todos os outros, designadamente económicos - e, levianamente, tenha brandido o tema da saída da EU como um tema comum, de política diária, quase comezinha. É que não é, de facto, assim. O que Cameron fez revelou uma tremenda falta de conhecimento do povo britânico e dos (des)equilíbrios em que o mesmo assentou durante dezenas de anos. Ele demonstrou que não sabia que, com excepção da Escócia, Irlanda do Norte e Londres, o resto do país estava maioritariamente descontente. Sim, descontente, porque eu estou firmemente convencido que, em muitos casos, este foi um voto de protesto. Protesto pela falta de emprego, pela deterioração das condições de vida, pela falta de oportunidades, pela exclusão que sentem milhões de pessoas face aos destinos do seu próprio país. Pois esta foi a oportunidade que tiveram de mudar alguma coisa, mesmo que para pior. O futuro o dirá.
O desconhecimento de tudo isto é absolutamente inconcebível para alguém que lidera um povo. Que a raínha não saiba ao certo o que se passa nas Midlands ainda vá que não vá, mas que o primeiro ministro siga a mesma ignorância, é inaceitável.
Mas, dito isto, a verdade é que esta versão é, apesar de tudo, a menos má. Porque a pior é a que Cameron tinha plena consciência do que estava a fazer e, ainda assim, fê-lo sem qualquer pejo. É que, nesse caso, deixamos de estar no terreno da negligência grosseira e entramos no do dolo. Há, de facto, quem defenda que tudo isto se deve a uma guerra intestina entre ele e Boris Johnson, vinda dos tempos de Eton, em que ambos tinham determinado como meta de vida chegarem a primeiro ministro. Pelo que, se porventura, mais ou menos reconditamente, a potencial desagregação do RU tem a sua raiz no puro ego, então pouco ou nada haverá a dizer porque isso ultrapassa, pura e simplesmente, toda e qualquer capacidade de análise (que não a psicanalítica, bem entendido).

24.6.16

O mundo ao contrário ou a miopia de quem vê o que não quer



A imagem está longe de ser bonita e aprazível, mas traduz muito bem o meu estado de espírito presente: o mundo ao contrário ou, melhor, as coisas do mundo ao contrário do que deviam estar.
Parece-me que são coisas a mais e, com mais este acontecimento de hoje, tenho a certeza de que vivemos tempos históricos, para o bem ou para o mal, não sabemos, que vão mudar definitivamente o mundo tal como o conhecemos, pelo menos para quem, como eu, nasceu em época de paz e democracia.
Senão veja-se: eleições americanas com os Republicanos reféns de um mentecapto milionário, maior crise recente no Brasil, crise sem precedentes na Venezuela (liderada por outro mentecapto que devia estar preso há muito), guerra na Síria e em toda aquela região, recrudescimento dos nacionalismos um pouco por todos os países europeus (RU, França, Holanda, Finlândia, Dinamarca, Polónia, Áustria, Hungria, balcãs) e pelos países na fronteira europeia (Rússia, Bielorússia, Turquia), crise dos refugiados na Europa, atentados do ISIL, tensão terrorista permanente, Hollande e Vals sem qualquer músculo no braço-de-ferro com os sindicatos (que vão ganhar a prazo), Le Pen a subir (o FN tomará o poder através do chefe de Estado mais depressa do que se julga), crise do Governo em Espanha que só muito dificilmente terminará este fds e, como se já tudo isto não bastasse, saída do RU da UE.
É, pura e simplesmente, mau de mais. Nem referi a crise da banca, dos défices e das mudanças nos paradigmas da vida em sociedade (família, trabalho) como a conhecemos até hoje.

Quanto ao Brexit, Cameron foi um irresponsável a toda a prova ao ter prometido referendar uma matéria demasiado sensível para ser referendada, sobretudo no actual momento da história do mundo. Ele é o principal obreiro da saída do RU da UE, mesmo que se tenha empenhado em evitar a derrora, o que aconteceu tarde de mais conforme se viu. Para além dele, outro responsável (embora menos) é Corbyn para quem parece que tudo isto passou literalmente ao lado e que dava hoje uma entrevista à Sky News às 7 da manhã como se o que tivesse sucedido fosse coisa pouca e de nenhuma importância.

Enfim, não foi apenas o RU que votou sair da UE, foi o RU que votou desintegrar-se como Estado. É que virá mais cedo do que tarde um novo referendo na Escócia (no qual a saída do RU ganhará confortavelmente), depois disso mais um em Gales e, por fim, na Irlanda do Norte, que será a última e terá um grande embalo depois dos outros dois, perdendo o governo inglês qualquer capacidade para travar esse passo. Externamente, a Holanda referendará a permanência na UE, assim como a Dinamarca. Isto, num primeiro passo porque a seguir provavelmente outros virão.

E assim se precipita uma crise cataclísmica. Claro que há quem ache que tudo isto não passa de uma tempestade sem grande consequências, mas não é, infelizmente, essa a minha opinião. Pelo contrário, acho que vêm aí tempos (anos) ainda mais tempestuosos. Venham os botes salva-vidas para quem neles conseguir entrar.

Oxalá me engane.

12.2.16

Escritos


Sinto-me no lodo neste momento delicado (mais um) da nossa vida política. Pergunto-me por que motivo António Costa entrou a pés juntos e desfez a única coisa intangível - e, por sinal, a mais importante de todas - na relação com os mercados: a confiança. Porque é que teve de ser anunciado que iriam ser repostas as 35h quando estão a ser feitos estudos sobre o impacto de tal medida, dando assim a ideia de que a mesma poderá nem avançar? Porque é que se teve de reverter o processo de privatização da TAP se o Governo não terá qualquer intervenção na gestão diária da empresa (e sim, apenas, em decisões estruturais)? Porque é que o salário mínimo teve de ser aumentado à pressa e com a promessa de o fazer subir até aos € 600,00 em 2019? Porque é que foram eliminados os exames das escolas? Eu sei que esta não é uma conversa bem quista, que não é popular, que todas estas medidas, assim como outras tantas, fazem parte de um pacote para repor direitos e regalias a que os portugueses têm, alegadamente, direito e sem os quais se sentem espoliados. Eu sei que até Pacheco Pereira afirma que querer o regresso de tudo isto não é querer demais, mas sim exigir o mínimo básico a que todos temos direito como povo que somos de uma verdadeira sociedade democrática. E também sei que o caminho que António Costa está a trilhar é visto por alguns - penso que por cada vez menos - como a vitória do primado da política sobre a finança, vergando esta a opções políticas que dimanam do voto democrático.
Só que... em primeiro lugar, acho discutível que se defenda que este OE é a tradução prática possível do que estava inscrito no programa do governo, uma vez que, simplesmente, tal programa... não era de governo, mas sim do PS que, relembremos, não ganhou as eleições e teve de transigir numa série de medidas a contento do BE e do PCP. Em segundo lugar, lamento dizer, e defender, que este caminho não é, de facto, legítimo. E não é porque Portugal, por muito que custe, deve - repito, deve - milhões e milhões de euros aos seus credores, sem que exista uma expectativa de os vir a pagar conforme se obrigou, se se mantiver numa trajectória de défice excessivo e com um crescimento simplesmente apático como se tem verificado. Eu também percebo que este é um argumento estafado e que há muita, muita gente que não gosta de ouvi-lo porque entende que o TINA não é bem TINA, mas um TINA à portuguesa, i.e., ok, é TINA mas dá-se um jeito porque ora se paga mais tarde, ora se vai pagando, ora se não paga. Afinal, não foi Sócrates que disse que a dívida não é para pagar, mas para ir gerindo?
Mas, meus senhores, não é bem assim. Do outro lado da mesa, os nossos credores não alinham bem neste nosso desenrasca do "parece TINA mas não é bem TINA". Do outro lado estão Estados soberanos, fundos de investimento, particulares e instituições bancárias para os quais o pagamento deve ocorrer a tempo e horas, porque não se trata aqui de nenhuma brincadeira e não há lugar a perdões ou adiamentos, a não ser, claro, que ganhem com isso. Assim sendo, moratórias e incumprimentos apenas agravarão o fosso e jamais aliviarão o esforço necessário.
Adoraria concordar com Pacheco Pereira e com todos aqueles que defendem que "há sempre alternativa" porque a democracia tem, em si mesma, esta beleza de permitir a escolha pela maioria do caminho que quer percorrer. Mas... e se não houver mesmo alternativa? Se o caminho percorrido até aqui pelo nosso país tiver estreitado de tal maneira as opções que impossibilita qualquer outra via que não a do cumprimento mais ou menos cego dos critérios do défice e do pagamento a tempo e horas das nossas obrigações creditícias?
"É a realidade, estúpido!", como dizia o outro, mas dizia-o bem, desgraçadamente bem, porque desconfio que há vezes em que, por mais que queiramos, não existem alternativas à realidade. Quando temos uma bateria de credores externos, todos alinhados e atentos ao nosso comportamento, e começamos a demonstrar querer arriscar. mesmo que legitimamente (e dou de barato que António Costa não tenha ganho as eleições), temos de aceitar que os mesmos não estejam dispostos a pagar o risco. E tudo se agrava quando o cenário macro-económico é cinzento em tons de negro e não augura nada de bom, porque aí é que os credores se tornam ainda mais intransigentes, sobretudo com os pequenos como nós.
É por tudo isto que me sinto mesmo revoltado, indignado e enganado. Enganado, sim, porque este governo prometeu-nos a todos acabar com a austeridade ("virar a página da austeridade", lembram-se? Como se isso fosse possível...) e, mesmo sabendo que tal era virtualmente impossível e correspondia a uma mentira, sinto-me enganado ao ver o ministro das Finanças afirmar com a maior desfaçatez que este orçamento não sobrecarrega as famílias, nem representa a continuidade de mais medidas austeritárias. É tudo mentira. Assim como é mentira que este orçamento não seja uma manta de retalhos talhado, à vez, pelo PS, pelo BE, pelo PCP e, finalmente, por Bruxelas.
E, sim, sinto-me enganado quando oiço dizer que "viemos repor" isto ou aquilo, "viemos restituir" isto ou aquilo, como se fossem os arautos da legitimidade democrática. Mas vieram repor e restituir o quê? As famigeradas 35 horas? Mas existe algum direito divino a que os funcionários públicos trabalhem 35 horas?!Não foi legítimo tomar a opção de os equiparar a todos os outros trabalhadores deste país? Repor o quê? A indisfarçável falta de motivo para reavivar uma desigualdade? Só se for.
Meus Caros, este lodo em que nos encontramos é bem pior do que o pântano de Guterres. Este lodo vai-nos sujar e aos nossos filhos e comprometer irremediavelmente o nosso futuro como povo independente, autónomo e democrático. Porque, a bem dizer, a democracia é liberdade. E a liberdade é, entre outras coisas, o compromisso. Ora, se este não for honrado, tudo o resto se desfaz. Desgraçadamente. É assim que estamos.

5.2.16

Deamblogações nocturnas



Não sei bem o que diga, mas realmente a desesperança por uma mudança de cultura política é enorme. Basta ver as reacções do Governo e da oposição ao projecto de OE para se perceber que muda o discurso consoante muda a posição em que se está. Parece um discurso simplista e tornou-se um lugar comum, mas, francamente, qual é a diferença entre o PS estar no governo e o PSD e CDS na oposição? Seria diferente se fosse ao contrário? A resposta é evidente: não! É rigorosamente igual, sempre a mesma lenga-lenga. Quem está no governo defende a sua dama e recusa aceitar que são sempre os mesmos - sempre os mesmos! (a classe média) - que suportam as permanentes derrapagens orçamentais, enquanto que quem está na oposição acusa quem está no governo de castigar sempre os mesmos. Esquizofrénico? Sim, claro. E muito.
Já nem falo dos delirantes-delinquentes PCP e BE que também mantêm o discurso sejam quais forem as circunstâncias.
Quando o cansaço aperta - e neste momento aperta - a desesperança instala-se e corrói. Dou por mim a pensar bilingue de forma obssessiva: TINA. NHA. TINA. NHA. TINA. NHA. TINA. NHA. TINA. NHA. TINA. NHA. TINA. NHA. TINA. NHA. There is no alternative. Não há alternativa. Neste momento, sinto-me derrotado por este sistema que comprime os direitos e premeia os mentirosos,
Desespero por uma mudança política que traga pessoas que falam verdade, que não tentam enganar os eleitores, que respeitam valores democráticos. Francamente, não tentem convencer-me que Costa tentou uma ruptura. Se calhar quis tentar, mas não conseguiu. Soçobrou como todos os outros.
Há muitos anos (já), falou-se no pântano. Pois este pântano é fundo e viscoso. Mal lá entrámos, deixámos de andar, ficámos com os pés presos ao fundo. Tudo fede, tudo custa e não se vê a outra margem.

13.7.15

A vergonha portuguesa (e europeia)






O sentimento que paira na Europa, pelo menos na Europa do Euro, não é de consenso (ao contrário do que alguns querem fazer crer-nos), nem de vitória de uns (os países da chamada linha dura, nos quais desgraçadamente se inclui Portugal) e derrota de outros (mais moderados e evidentemente com a Grécia à cabeça). O sentimento que paira na Europa é de vergonha e humilhação. De vergonha pela humilhação a que foi e está sendo sujeito um povo que teve o descaramento de desafiar a toda-poderosa Alemanha e o seu séquito de acólitos bem-comportados (nos quais desgraçadamente Portugal se inclui).
Vejo o que vejo e penso sinceramente como fazem falta homens de Estado, com uma visão verdadeiramente europeísta do mundo, deste nosso mundo que é a Europa. Nós que, desgraçadamente fazemos parte da linha dura, dos que punem os incumpridores e preguiçosos, somos os primeiros a atirar pedras, qual menino bufo pseudo bem-comportado que, depois de levar uma reprimenda do professor, é o primeiro a denunciar os outros, para ficar bem visto na fotografia e todos acharem que mudou para melhor. Mas nós não mudámos nada para melhor, o que mudou foi as circunstâncias externas e o resto é, mais ou menos, show-off. O Passos Coelho que disse hoje que, por acaso - cheio de soberba mal disfarçada - tinha sido ele a encontrar uma solução é o mesmo que, desgraçadamente, orienta este país para um abismo que não se vê mas pressente-se. O abismo da falta de solidariedade pelos que sofrem, de falta de humanismo, do interesse e da mesquinhez. É, uma vez mais, o aluno fraco que se cola aos fortes para parecer forte. Mas ele não é forte, é só fachada. Um dia vem um teste mais difícil e os bons deixam-no sozinho a penar. E é nesse momento que ele vai receber a dobrar o mal que um dia fez.
Uma absoluta vergonha.

2.7.15

Yρεεcε? Γρεxητ? ευροxητ?

Vale mesmo a pena ouvir Varoufakis AQUI.

1.7.15

A tragédia é já aqui


Concordo com a realização do referendo na Grécia, porque me parece evidente que uma decisão deste calibre deve ser posta à consideração do povo. Só assim se respeita a democracia. Mesmo tendo o Syriza dito ao que vinha, o caminho que as coisas tomaram levam, necessariamente, a que o povo grego deva expressar a sua vontade. Isso para mim é óbvio e se assim não fosse - e ainda pode não ser porque à hora que escrevo existem notícias de que um acordo que passa pela desistência do referendo e o prolongamento do resgate acompanhado da restruturação da dívida pode estar na forja - mais um sinal muito errado passaria para a opinião pública. O sinal de que a negociação de gabinete sem a intervenção dos destinatários últimos das medidas de política que são tomadas são ouvidos e tidos em conta.
Se o Syriza fosse o que não é, não tomaria partido no referendo, nem pelo sim nem pelo não. Colocaria à consideração dos gregos o que se está a passar e executaria o mandato. Porque, na verdade, se as negociações chegaram verdadeiramente a um impasse, o governo grego sabe bem o que quer e é por isso mesmo que não deve fazer campanha pelo não. Ao fazê-lo está a ter duas caras: uma externa perante os parceiros europeus, com os quais negoceia, e outra interna para os seus eleitores, a quem diz votem não porque não devemos aceitar o que eles nos querem impor.

18.6.15

Cavaco e Silva


Quando apareceu na vida política portuguesa (há quantos decénios?...), para fazer a rodagem ao Citroën que acabou por lhe dar a liderança do PSD, Cavaco Silva - Cavaco e Silva, numa designação que na altura era popular - representou as noções de honestidade, rigor, distanciamento face à política (mais à própria politiquice) e aos políticos e, nessa medida, inspirou muita confiança. Era, de facto, confiança que inspirava Cavaco em muitos de nós. Foi assim em 85, em 87 e em 91.
Depois, "profundamente desencantado" com o que se tornara o PSD (que ele próprio alimentara) e a vida político-partidária, decidiu, completamente a destempo, candidatar-se a Belém contra Sampaio, tendo perdido rotundamente. Demorou 10 anos a voltar a desempenhar um cargo, desta feita como mais alto magistrado da Nação, como tantas e tantas vezes gostam de chamar ao cargo de PR.
No interim de 10 anos em que "andou por aí" - numa prognose do que Santana haveria de dizer em 2004 -, publicava cirurgicamente artigos de opinião cheios de intenção. Dois deles surgem logo no espírito: "O Monstro" e a "Má Moeda Expulsa a Boa Moeda", sendo que, neste último, convém dizer que se referia a um correlegionário seu de partido, a saber, o próprio Santana.
Não tenho tempo, nem particular interesse, em dissecar o que foi o percurso de Cavaco desde que é PR, mas o que me apetece dizer é que, como já aqui referi, me foi desencantando, desencantando, desencantando, até começar a duvidar das suas boas intenções. Imagino que, por esta altura, haja muito boa gente a rir e a pensar: "mas este pateta achou mesmo que o Cavaco teve algum dia boas intenções?!", ao que eu respondo que sim, achei. E assumo isso. Mas, como dizia, comecei lenta mas firmemente a notar que o homem, para além de uma agenda muito própria, demonstrava uma frieza, um cinismo e um calculismo pouco de acordo com a forma de estar que eu preconizo, seja na vida pública, seja na privada. Tomadas de posição, escritos (os tão famosos Roteiros), mensagens presidenciais, entrevistas em que deixava cair uma farpa aqui, outra acolá. E, como tal, fui mudando, lenta mas firmemente, a minha opinião sobre aquela que hoje em dia considero uma sinistra personagem. E é sinistra porque, entre outras coisas, não demonstra qualquer compaixão, qualquer ligação, qualquer proximidade, qualquer emoção, quando, claro está, isso não vai ao encontro dos seus interesses mais imediatos. Porque se for, a coisa fia mais fino. E tudo isso eu acho verdadeiramente sinistro.
A última é esta tomada de posição contra a Grécia feita durante a visita de Estado à Bulgária, em que, para lá do despropósito da ocasião, foi de uma dureza e rispidez inéditas, dizendo que não poderia haver lugar a excepções (!). Mas como é que não pode haver lugar a excepções se vivemos tempos de excepção? Como é que não pode haver lugar a excepções se estamos a sofrer as consequências de decisões erradas tomadas há 20 ou 30 anos, quando se idealizou uma ideia de convergência e de moeda única muito pouco compatíveis com as diferenças estruturais existentes entre os países que a compunham? Como é que, pura e simplesmente, não há lugar a excepções?... Como se pode afirmar isto assim, desta forma, com aquele ar duro e impedernido, cego e insensível?
Cavaco está-se, pois, nas tintas para os efeitos que a inexistência de excepções - essa verdade que eleva à categoria de sacro-santa - pode ter num país, aliás, em muitos países e nos seus povos. Porque, convenhamos, toda a gente sabe que o Grexit é o escancarar de portas para o Portexit, Espanhexit e outros exits que se seguirão. Só mesmo a dupla Pa-Po e Maria Luís é que preferem ignorar tal facto e continuar a dizer que Portugal está preparado para o cenário de saída da Grécia. É para rir. Preparado para a saída da Grécia... Já agora, também está preparado para uma eventual bancarrota da Alemanha, uma invasão da Europa pelo EI ou uma catástrofe nuclear. Portugal é aliás, sabe-se bem, imune a tudo o que vem de fora, independentemente da envergadura. É mesmo para rir, não fora o facto de estarmos a lidar com vidas humanas que são destruídas, que vêem os seus sonhos atirados para o ar como um balão tão cheio de hélio que desaparece da vista para nunca mais voltar, que se vêem confrontadas com situações das quais pensavam estar livres para o resto das suas existências. Em nome de quê? Em nome da não admissibilidade de excepções. Clap, clap, batamos palmas meus senhores.
Cavaco, munido da sua fisga, lança mais, não propriamente uma pedra, mas um pedregulho daqueles valentes, do tipo dos que os trolls do Senhor dos Anéis lançavam sobre Minas Tirith. Na verdade, ele está-se nas tintas, como sempre esteve. A questão é que, no caso, não se trata de um filme. É a mais pura realidade. Mas não a dele.

9.3.14

Deamblogações matinais

"Com 30 anos no 25 de Abril, não me esqueci depressa do que era a vida nessa altura. (...) não me importo falar da classe média (de resto privilegiada) em que nasci: e posso dizer que a pobreza contaminava tudo. O que se vestia, o que se comia, o que se fazia, o que se pensava. Mais do que na gente que mandava no Estado e no cidadão comum, a tirania estava, como dizia o outro, na necessidade de poupar, na privação perpétua da frivolidade e do prazer, no mundo imóvel e sem saída, que pouco a pouco se tornava numa prisão a céu aberto."

Vasco Pulido Valente, in Público de hoje

3.1.14

Deamblogações matinais

Há muito tempo que me pergunto como é que, estando o país em crise profunda, existem tantas pessoas nos concertos, festivais de música (com bilhetes tão caros), no futebol e nas mais diversas manifestações públicas que não são gratuitas. Para além, claro está, das férias na neve, das idas aos spas (esse conceito ganhador que proliferou como um vírus) espalhados por esse país e das saídas para o estrangeiro.
Hoje, ao ler a crónica semanal de Francisco Teixeira da Mota no Público, vi citada uma referência de uma jornalista do Wall Street Journal, Patricia Kowsmann, que terá publicado no dia 25 de Dezembro passado no seu jornal uma notícia sobre Portugal dizendo que 8% dos lares lusitanos tinham uma Bimby, tendo sido comprados 35.000 aparelhos destes em 2013 contra apenas 22.000 iPads.
E por falar em iPads e entrando no mundo dos gadgets, também me custa perceber como é que toda a gente (e isto não é apenas uma força de expressão), ou, para ser mais rigoroso, quase toda a gente tem um iPhone e um iPad ou, numa versão menos sofisticada e claramente em contra-corrente, um smartphone (porque isso de não ter um smartphone já nem tem sentido).
De igual modo, não percebo como é que os centros comerciais continuam cheios (sendo que muita daquela gente está mesmo a comprar) e as lojas de electrodomésticos de massas continuam a proliferar.
Sempre considerei tudo isto contraditório com a circunstância - para mim factual e indubitável - de o país estar em profunda crise e não haver dinheiro.
Parêntesis: muitos dirão que tudo isto não é representativo do país, mas apenas de uma certa elite económica, baseada em Lisboa e, quando muito, também no Porto. Eu, porém, tenho muito dificuldade em aceitar esta explicação, porque não é elite nenhuma que eu vejo nos festivais (embora ela também lá esteja), nos concertos, e com iPhones e outros gadgets na mão. Não é claramente essa elite que eu vi numa recente reportagem de iPad na mão a filmar o museu do Cristiano Ronaldo na Madeira...
Mas, e se o pressuposto estiver errado? E se, afinal de contas, o país não estiver a atravessar a crise que se julga e existir muito maior capacidade financeira do que aquilo que é dito?
Pensava eu sobre esta possibilidade quando, também no Público de hoje, me deparei com o artigo de José Manuel Fernandes, o qual vai exactamente nesta direcção. Com o título "O mundo não está assim tão mal, e Portugal também não", o jornalista vem dizer precisamente isso: que, no fim de contas, a "verdade indesmentível" de que isto está à beira do fim não é tão verdadeira quanto isso. E, para tal, cita o estudo comparativo do cientista político e especialista em sondagens Pedro Magalhães, aqui, e que eu quero ler com atenção, no âmbito do qual o mesmo terá ficado espantado ao verificar, ele próprio, que a realidade (pelo menos até 2012, último ano em que há dados estatísticos consolidados) não é tão má quanto se pinta.
Caso esse cenário se confirme, ajuda a explicar muitas coisas. Desde logo que a opinião pública, na qual me incluo completamente, se tem deixado contaminar por uma lenga lenga dita e repetida vezes sem conta. E, como todos sabemos, uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdadeira. Não é que a crise seja uma mentira, mas, talvez, os efeitos da crise o sejam, pelo menos, com a dimensão que é referida por quase todos de forma indiscutível. Será mesmo assim?
A continuar.

26.12.13

Deamblogações vespertinas

O que é normal pedir a cada fim de ano é que o próximo seja fértil em saúde (sempre a saúde em primeiro lugar) e, também, em algum conforto quer material quer afectivo. Isto não é dito assim, mas é pensado. Ninguém o verbaliza, mas toda a gente o deseja.
Pois bem, para haver conforto têm de existir condições para tal. Condições internas, ligadas à própria pessoa e às suas circunstâncias, e condições externas, relacionadas com o meio ambiente social, cultural e económico. Ora, é precisamente aqui que a questão do conforto tropeça. Como é possível haver conforto quando a crise está instalada e não parece querer ir embora? É que se tornou voz corrente dizer que "a retoma está aí", mas, tirando alguma gente que sente alguma diferença para melhor, as restantes pessoas continuam a sentir a crise tal como ela existia há seis meses atrás. Sem tirar nem pôr e se tiver de ser, é a tirar, porque estão actualmente pior do que há seis meses atrás.
O politicamente correcto tem destas coisas: o que começa a ouvir-se por todo o lado torna-se rapidamente verdadeiro, mesmo que essa verdade não cole com a realidade. Se a "retoma está aí" porque é que a fila da sopa dos pobres continua a engrossar? Porque é que continua a haver menos carros? Porque é que os hábitos adquiridos com a crise como, por exemplo, substituir carne vermelha por frango e perú, se mantêm inalterados?
Não é verdade que, de forma generalizada, "a retoma esteja aí". É verdade para alguns, mas não é verdade para muitos, para a maior parte. E isso significa o que alguns que sabem do que falam andam a dizer há muito tempo: que esta crise, muito "alavancada" (como o primeiro ministro gosta) pelas medidas de austeridade do Governo, veio alargar o fosso existente entre ricos e pobres, engrossando exponencialmente o número destes.
Assim sendo, o que eu peço para 2014 é o regresso da esperança. Porque sem ela nem sequer há condições para haver saúde.
Que voltem, pois, a existir condições para o regresso da esperança. É isso que eu peço.

18.12.13

Deamblogações matinais

Embora oriundo do Goldman Sachs - o que em si não pode ser estigma algum, mas, pelas piores razões, não pode também deixar de ser notado, tendo em conta os acontecimentos dos últimos 5/6 anos - o presidente do BCE tinha parecido até segunda-feira passada uma pessoa com noção da importância da função que desempenha. O que não é de somenos, atenta a absoluta falta de consciência que têm demonstrado quase todos os governantes europeus e internacionais (no mesmo saco, presidente da Comissão Europeia, do FMI, respectivos porta-vozes, diversos comissários, etc.).
Pois, como no melhor pano (?) cai a nódoa, Draghi falou de mais. Talvez tenha sido a sua costela italiana a dar-lhe gás numa matéria em que devia, evidentemente, ter-se mantido reservado.  Não manteve e, por causa disso, criou os maiores problemas a Portugal e ao Governo português. Não é que toda a gente não tivesse já percebido que a seguir à troika teríamos (teremos) um programa cautelar. Mas, em todo o caso, uma coisa é o Governo, como se impunha, andar no silêncio dos gabinetes a negociar esse programa (ainda julgo, na minha inocência, que isto é governado por pessoas capazes e com sentido de dever...), outra, bem diferente, é trazer-se para a praça pública as dúvidas, hesitações e inconsistências de todos quantos decidem o nosso futuro.
Obrigado, pois, Mario.

17.10.13

Deamblogações matinais

"(...) Têm por isso razão aqueles que alertam para as consequências dissolventes da aplicação de políticas de austeridade radicais e geradoras de significativas frustrações no plano social. Uma sociedade democrática tem sempre por horizonte o princípio da igualdade, e tende por isso mesmo a fenecer quando este é violentamente ofendido, como é o caso presente. Na verdade, a sacralização dos mecanismos de mercado, operada hoje a um nível mundial, não poderá deixar de ter como consequência a destruição de tudo o que remotamente possa ser entendido como comunidade, sociedade ou mero grupo. (...)"

Francisco Assis, in Público

16.10.13

Deamblogações vespertinas

Absolutamente ES-MA-GA-DO por impostos e contribuições. É assim que me sinto no dia seguinte ao da entrega do OE/2014. Vale a pena trabalhar para pagar impostos?...

Para além disso, sinto-me enganado e esbulhado ao confirmar que o que era transitório adoptou a forma de definitivo (et pour cause!). Tudo - repito, tudo, absolutamente tudo - o que eram normas transitórias criadas por causa da crise são agora definitivas e irrevogáveis e sê-lo-ão para todo o sempre. Neste particular, a irrevogabilidade tem o sentido que o dicionário lhe dá e não aquele que o segundo-primeiro-ministro lhe arranjou. Mal de nós...

14.10.13

Algumas perguntas sem resposta...

- Qual o verdadeiro motivo para se manter vivo o caso "Maddie", quando são por ano raptadas milhares e milhares de crianças?

- Porque é que Maria Luís Albuquerque aparece constantemente ao lado de Paulo Portas, sempre calada e com ar de conformada, no que parece ser um suplício de Tântalo?

- Como é que Paulo Portas conseguiu ter mais tempo de antena e parecer (ser?...) mais importante no Governo do que o próprio primeiro-ministro?

- Quais as medidas alternativas de austeridade para ir buscar o que se "perdeu" com a opção de tributar as pensões de sobrevivência apenas superiores a 2 mil euros, no que é clarissimamente uma inflexão face ao que estava inicialmente previsto?

- Porque é que um concerto com milhares de pessoas como o de Seu Jorge ontem, Domingo, no atlântico, começa às 22h45 e acaba quase às 2 da manhã?

9.10.13

Deamblogações vespertinas

Segundo o Público on-line:

"O primeiro-ministro afirmou esta quarta-feira que a proposta de Orçamento do Estado para 2014 não poderá ter outro objectivo senão levar mais longe a preocupação de reduzir o défice das contas públicas.

“É o que está combinado com os credores” e é o que “precisamos para recuperar a confiança dos investidores”, disse Pedro Passos Coelho, que falava na abertura de uma convenção empresarial organizada pela AIP com o tema “Sobreviver e Crescer”."

Passo a passo (e não, não é um trocadilho com o nome do pm), Passos vai levando a água ao seu moínho, com desonestidade equivalente à teimosia que lhe é por todos reconhecida. Por estas declarações estrategicamente pensadas, vamos ficando a saber a conta-gotas que o ano orçamental de 2014 vai ser ainda mais duro do que têm sido os últimos três e que o primeiro-ministro, numa tentativa de desresponsabilização perante a opinião pública, invoca a troika ("os credores") para legitimar os esforços absolutamente desmedidos pedidos ao povo português. E depois remata, num perfeito exemplo de double talk, que precisamos desta austeridade toda "para recuperar a confiança dos investidores".

É de uma desonestidade e desfaçatez que utrapassam todos os limites do suportável.  A indignação que sinto ao ler isto (porque recuso-me militantemente a ouvir a voz desta gente) é de um tamanho que não consigo descrever. Sinto-me atentado na inteligência que julgo ter, sinto-me enganado e vilipendiado como português. Eu saberia muito bem descrever como me sinto por palavras que não são nada bonitas. A pergunta que me faço várias vezes por dia é se não há meio de correr com esta corja de malfeitores que, em nome de algo que está por explicar (ideologia não é, interesses materiais próprios não sei...), cavam um buraco que, já toda a gente viu muito bem, é demasiado fundo para de lá sair. Dito por outras palavras, a reestruturação do défice é inevitável e esta gente continua a impor-nos medidas como se não fosse.

Começo a não ter palavras para descrever a revolta que sinto.

7.10.13

Deamblogações matinais 3

"(...) O mais grave é a completa impunidade com que tudo se faz, e o modo como tudo continua na mesma, tudo como dantes quartel-general em Abrantes. Criticado Machete sem muitas ambiguidades pelo Presidente da República no 5 de Outubro, basta que o primeiro-ministro "desvalorize" - o que ele está sempre a fazer e deve ser o timbre da "nova cultura política" do Ministro Maduro - para que tudo volte ao "normal". Isto é que é muito preocupante, a impunidade dos de cima, que podem fazer o que quiserem sem consequências."

JPP, aqui

Deamblogações matinais

(escrito no dia 5 de Outubro)



Acordei sobressaltado.

Oiço tiros... Mais tiros... Vozes a chamar 'ai ai', 'ai ai'... Mais uma rajada. Parece gêtrês, o som é igual a quando andávamos no mato, em Machilukilo em 72 às ordens do cardeal Albazar.
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Silêncio tsf. Nem o Fernando Alves... aguardemos.
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Alô Esteban, penso, Esteban... Estás em São Pau a brincar aos desenhos e nós aqui na linha da frente, sem protecção alguma, sujeitos passivos de um desgoverno que nos leva para o fundo do poço a passos largos, com um seguro que não cobre nada, que é o mesmo que não ter feito... Portas a fazerem barulho, oiço eu agora, talvez do vento e do abandono em que isto ficou. Ninguém já parece querer saber.

Do lado do dinheiro, preferia o Mouzinho à Maria Luís, que anda a enganar-se há quase tempo tanto quanto aquele morreu e faz trocas de empréstimos por dívida segura a taxas impensáveis.
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Mais uma Ra-jáda sem gaz. Desta vez fresca, sff, e com 1 rodela de limão.
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Esteban. Que nos morimos un poco más todos los dias e que nuestros hijos no tienen futuro aqui. Es eso que aquellos que están en lo poder quieren que creyamos. Putamadre...
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Vou à janela e vejo duas chaimites viradas uma contra a outra. Lá dentro percebo o Pedro e o Paulo numa delas e o Tó Zé na outra. Acho que se preparam para disparar. À volta, sem medo aparente, cada vez mais pessoas. Homens, mulheres, crianças e velhos. Tudo à volta deles. Uns gritam e protestam, mas a maior parte está silenciosa. Dão as mãos. Em silêncio. Parecem rezar. Até os miúdos estão calados. Vê-se que sofrem. Ou de fome, ou de frio, ou porque lhes roubaram a esperança. Sofrem calados e em união.
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Dentro das chaimites, bem fechadas e isoladas do exterior, os homens parecem indiferentes ao que se passa lá fora. Preparam-se para disparar, é pelo menos o que parece pelos movimentos das máquinas e a forma como apontam os canos.
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Ai Timor, se outros calam cantemos nós.
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De repente vejo um polícia numa moto de 70cm3, a fazer fumo que pede o uso de máscara à Breaking Bad, a intrometer-se no meio. Começa a multar as máquinas porque diz que estão mal paradas... Olha, o ridículo... Então está-se tudo a preparar para a guerra e vem dali um bófia gordo e manda parar tudo porque há dois beículos estacionados fora da zona limite legalmente permitida para o efeito?... Isto só aqui, meu deus, sejas tu quem fores.
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Esteban.
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Hoje mesmo vi uma ma(n)chete com mais um artista, perdão, ministro a dar o dito por não dito, a dizer que afinal não pediu nada desculpa a Angola na qualidade de ministro dos estrangeiros, Angola esse ponto vivo da nova e esperançosa democracia africana, por o MP português estar a investigar umas balelas de tráfico de influências e desvios piquenos de milhões de notas de um dólar (o que o meu filho mais novo diz que dá milhões de dólares, mas eu não me acredito). Penso que foi o mesmo artista, perdão, ministro que comprou e vendeu, perdão, comprou mas não vendeu, perdão novamente, comprou, vendeu mas por preço igual, perdão outra vez!, comprou, vendeu mas com um lucro muito muito muito piqueno acções de uma confraria de amigos do alheio, sem fins lucrativos, chamada SLN (abreviatura de Só Larilas Nus, o que mostra bem a natureza indesejável e incómoda da coisa).
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As chaimites continuam na rua, indiferentes à multidão cada vez maior e mais ruidosa e ao polícia que tenta fazer o seu trabalho. Tudo lhes é indiferente. Absolutamente tudo. Lá dentro os condutores parecem gritar. Gritam muito mas ninguém os ouve. Nem eles se ouvem a si próprios. É-lhes tudo indiferente. Eles mesmos são o rosto da indiferença com que os olhamos, como os encaramos dentro ou fora das chaimites de onde nunca parecem querer sair.
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Aqui do conforto da minha janela penso que houve um dia em que me apeteceu perceber como é que tudo funcionava com a, vejo hoje, estúpida esperança de contribuir para mudar alguma coisa. Mal sabia então que as chaimites são pior do que salas insonorizadas e escuras. Porque, para além do mesmo efeito de alheamento, respira-se lá dentro um ar que deixa escapar um gaz qualquer halucinogéno que produz alterações cerebrais radicais e faz com que os contaminados percam rapidamente a noção do serviço que, dizem os livros, deviam fazer temporariamente para depois seguirem a sua vida e dar lugar a outros.
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Preferi, até um dia em que eu próprio me juntarei à multidão que dá as mãos ou que protesta, continuar a trabalhar até Agosto para o Estado e só depois para mim e para os meus. Até um dia.
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Alô Esteban... Esteban...
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A crónica possível de mais um dia de loucura neste rectângulo vizinho do mar.
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5 de Outubro. É assim por aqui.
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Roger.
Moore.
Perdão.
Over.

4.10.13

Deamblogações vespertinas

"As medidas terão que se manter durante muito tempo, se nos quisermos manter dentro do euro e cumprir a disciplina orçamental.” Passos Coelho hoje no Parlamento.

Isto é o que se chama de doubletalk, i.e., fazer-se uma afirmação dizendo algo que na verdade se sabe ser contrário à realidade. Estão, finalmente, lançadas as bases para que a sobretaxa EXTRAORDINÁRIA de IRS, as medidas EXTRAORDINÁRIAS orçamentais, os impostos EXTRAORDINÁRIOS entretanto aprovados, as reduções EXTRAORDINÁRIAS dos benefícios fiscais, etc., etc. passem a ORDINÁRIOS por muito tempo, tanto que nos vamos esquecer que um dia eles não existiram e éramos um pouco menos infelizes.
Isto corresponde, sem dúvida, a uma agenda que está bem incrustada na cabeça de quem nos governa, mas também corresponde a um desvario completo e a uma total falta de previsão sobre o rumo dos acontecimentos.

23.9.13

Deamblogações vespertinas

Quando oiço Passos Coelho a dizer que está iminente o segundo resgate, quando oiço Portas dizer que o comportamento da economia portuguesa está indiscutivelmente a melhorar (apenas porque quer garantir votos nas autárquicas para o CDS e se está nas tintas para o discurso oficial do Governo), quando vejo Seguro dançar vestido de calças de treino e sapatos de ténis e dizer umas coisas sem reflexão alguma à saída de um encontro com a troika, quando sei que os juros da dívida estão outra vez persistentemente acima dos 7% e, finalmente, quando oiço que a Moody's tem o comportamento da economia portuguesa novamente sob vigilância negativa, fico um pouco menos do que desfeito. Acho insuportável, absolutamente insuportável, que esta gente que se agarrou ao aparelho do Estado, que finge que nos governa, se mantenha hirta e firme nessa espécie de demanda, como se estivesse a fazer algo de útil e não a destruir, quiçá irremediavelmente, uma série de adquiridos que existiam e que faziam parte do nosso lastro como povo e como país. Sobretudo a destruir algo de intangível que sempre existiu e que era a coesão do país.
Acho igualmente insuportável a irresponsabilidade com que se fala em segundo resgate ou em "programa cautelar" (novo calão a decorar porque, já se percebeu, vai ser utilizado "ad nauseam" nos próximos tempos). Passos, Portas e Seguro têm na mão, literalmente, o futuro de Portugal e dos portugueses. Isto será muito diferente com o fim da troika e a consequente devolução da soberania financeira (por precária que seja) ou com a manutenção do país sob coordenação externa. Lembro que é essa mesma coordenação que já assumiu que o que determinou anteriormente falhou redondamente e não apenas aqui. Ora, como não se vêem quaisquer mudanças, é por isso que temo o pior se esse segundo resgate for para a frente. E a continuarmos assim, vai mesmo.
Optimista na vontade, pessimista na razão, é o que estou; eu como muitos milhões de portugueses. O que me apetecia era mesma varrer com esta malta que traça os destinos do país e da sua gente. Não sei o que seria o dia a seguir, não sei o que nos estaria destinado, mas francamente cada dia que passa me parece mais que continuamos inexoravelmente a cavar mais fundo, tão fundo que não teremos maneira de sair, a não ser da pior maneira: com um perdão da dívida. Isso era tudo o que devíamos evitar. Tudo aquilo a que Passos, Portas e Seguro deviam renunciar. Mas são maus de mais e, para além de maus e incompetentes, estão-se, na verdade, pura e simplesmente nas tintas. Não querem saber. Pensarão, não sem alguma razão verdade seja dita, que isto existe há 900 anos e que outros 900 virão, que já atravessou crises parecidas e que os problemas que hoje vivemos também os portugueses do séc. XIX viveram. E chegámos aqui. Por isso, toca de garantir o deles, porque o resto há de aguentar e sobreviver. Melhor ou pior, é só uma questão de perspectiva, porque isso de adquirido, isso de expectativas, isso de cumprimento de pactos sociais, são tudo coisas que não interessam.