"Com 30 anos no 25 de Abril, não me esqueci depressa do que era a vida nessa altura. (...) não me importo falar da classe média (de resto privilegiada) em que nasci: e posso dizer que a pobreza contaminava tudo. O que se vestia, o que se comia, o que se fazia, o que se pensava. Mais do que na gente que mandava no Estado e no cidadão comum, a tirania estava, como dizia o outro, na necessidade de poupar, na privação perpétua da frivolidade e do prazer, no mundo imóvel e sem saída, que pouco a pouco se tornava numa prisão a céu aberto."
Vasco Pulido Valente, in Público de hoje
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9.3.14
10.10.12
Deamblogações matinais
O olhar meio perdido na janela do autocarro da Carris, a carteira em cima do colo. Olha para baixo, para os que, pensará porventura, ainda têm a sorte de poder andar de carro. Eu também olho, mais de longe, e também fico a pensar como será pensar que os outros têm a sorte de ainda poder andar de carro. A sorte não é, de facto, andar-se de carro, mas poder-se dar a esse luxo. Porque é cada vez mais um luxo. E quem diz andar de carro, diz milhares de outras coisas. No limite, comer.
Os tempos de crise que já cá estão e que vão agravar-se são de uma dureza brutal e é bom que nos consciencializemos que ficar mais pobres é mesmo ficar mais pobres. É passar das palavras aos actos. De qualquer forma, por muito menos que venhamos a ter, enquanto pudermos ir olhando para outros e pensar, sem saber, como será pensar na sorte que se tem por se poder andar de carro, estamos muito bem e na verdade nada de importante aconteceu.
Os tempos de crise que já cá estão e que vão agravar-se são de uma dureza brutal e é bom que nos consciencializemos que ficar mais pobres é mesmo ficar mais pobres. É passar das palavras aos actos. De qualquer forma, por muito menos que venhamos a ter, enquanto pudermos ir olhando para outros e pensar, sem saber, como será pensar na sorte que se tem por se poder andar de carro, estamos muito bem e na verdade nada de importante aconteceu.
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