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31.8.17

Deamblogações matinais

O que irrita em Cavaco - e há muitas coisas que irritam em Cavaco - é o ar de superioridade moral com que fala, de arrogância intelectual, como se vivesse acima de tudo o resto que, para si, não passa de meras intrigas e minudências sem importância. Ele é que sabe o que é preciso e como fazer. É insuportável ouvi-lo. Escusa, francamente, de sair do gabinete que usa diariamente e onde está a escrever as memórias, com isso fazendo com que não passe de uma má memória, embora tão funda que chega a ser um trauma.

18.6.15

Cavaco e Silva


Quando apareceu na vida política portuguesa (há quantos decénios?...), para fazer a rodagem ao Citroën que acabou por lhe dar a liderança do PSD, Cavaco Silva - Cavaco e Silva, numa designação que na altura era popular - representou as noções de honestidade, rigor, distanciamento face à política (mais à própria politiquice) e aos políticos e, nessa medida, inspirou muita confiança. Era, de facto, confiança que inspirava Cavaco em muitos de nós. Foi assim em 85, em 87 e em 91.
Depois, "profundamente desencantado" com o que se tornara o PSD (que ele próprio alimentara) e a vida político-partidária, decidiu, completamente a destempo, candidatar-se a Belém contra Sampaio, tendo perdido rotundamente. Demorou 10 anos a voltar a desempenhar um cargo, desta feita como mais alto magistrado da Nação, como tantas e tantas vezes gostam de chamar ao cargo de PR.
No interim de 10 anos em que "andou por aí" - numa prognose do que Santana haveria de dizer em 2004 -, publicava cirurgicamente artigos de opinião cheios de intenção. Dois deles surgem logo no espírito: "O Monstro" e a "Má Moeda Expulsa a Boa Moeda", sendo que, neste último, convém dizer que se referia a um correlegionário seu de partido, a saber, o próprio Santana.
Não tenho tempo, nem particular interesse, em dissecar o que foi o percurso de Cavaco desde que é PR, mas o que me apetece dizer é que, como já aqui referi, me foi desencantando, desencantando, desencantando, até começar a duvidar das suas boas intenções. Imagino que, por esta altura, haja muito boa gente a rir e a pensar: "mas este pateta achou mesmo que o Cavaco teve algum dia boas intenções?!", ao que eu respondo que sim, achei. E assumo isso. Mas, como dizia, comecei lenta mas firmemente a notar que o homem, para além de uma agenda muito própria, demonstrava uma frieza, um cinismo e um calculismo pouco de acordo com a forma de estar que eu preconizo, seja na vida pública, seja na privada. Tomadas de posição, escritos (os tão famosos Roteiros), mensagens presidenciais, entrevistas em que deixava cair uma farpa aqui, outra acolá. E, como tal, fui mudando, lenta mas firmemente, a minha opinião sobre aquela que hoje em dia considero uma sinistra personagem. E é sinistra porque, entre outras coisas, não demonstra qualquer compaixão, qualquer ligação, qualquer proximidade, qualquer emoção, quando, claro está, isso não vai ao encontro dos seus interesses mais imediatos. Porque se for, a coisa fia mais fino. E tudo isso eu acho verdadeiramente sinistro.
A última é esta tomada de posição contra a Grécia feita durante a visita de Estado à Bulgária, em que, para lá do despropósito da ocasião, foi de uma dureza e rispidez inéditas, dizendo que não poderia haver lugar a excepções (!). Mas como é que não pode haver lugar a excepções se vivemos tempos de excepção? Como é que não pode haver lugar a excepções se estamos a sofrer as consequências de decisões erradas tomadas há 20 ou 30 anos, quando se idealizou uma ideia de convergência e de moeda única muito pouco compatíveis com as diferenças estruturais existentes entre os países que a compunham? Como é que, pura e simplesmente, não há lugar a excepções?... Como se pode afirmar isto assim, desta forma, com aquele ar duro e impedernido, cego e insensível?
Cavaco está-se, pois, nas tintas para os efeitos que a inexistência de excepções - essa verdade que eleva à categoria de sacro-santa - pode ter num país, aliás, em muitos países e nos seus povos. Porque, convenhamos, toda a gente sabe que o Grexit é o escancarar de portas para o Portexit, Espanhexit e outros exits que se seguirão. Só mesmo a dupla Pa-Po e Maria Luís é que preferem ignorar tal facto e continuar a dizer que Portugal está preparado para o cenário de saída da Grécia. É para rir. Preparado para a saída da Grécia... Já agora, também está preparado para uma eventual bancarrota da Alemanha, uma invasão da Europa pelo EI ou uma catástrofe nuclear. Portugal é aliás, sabe-se bem, imune a tudo o que vem de fora, independentemente da envergadura. É mesmo para rir, não fora o facto de estarmos a lidar com vidas humanas que são destruídas, que vêem os seus sonhos atirados para o ar como um balão tão cheio de hélio que desaparece da vista para nunca mais voltar, que se vêem confrontadas com situações das quais pensavam estar livres para o resto das suas existências. Em nome de quê? Em nome da não admissibilidade de excepções. Clap, clap, batamos palmas meus senhores.
Cavaco, munido da sua fisga, lança mais, não propriamente uma pedra, mas um pedregulho daqueles valentes, do tipo dos que os trolls do Senhor dos Anéis lançavam sobre Minas Tirith. Na verdade, ele está-se nas tintas, como sempre esteve. A questão é que, no caso, não se trata de um filme. É a mais pura realidade. Mas não a dele.

22.7.13

Deamblogações matinais

O discurso de ontem de Cavaco foi, para além de vácuo, absolutamente evidente quanto ao papel confuso, sem rumo e desastrado que o presidente teve em toda esta triste história. O que era verdade ontem já não é hoje e vice-versa. Entre outras coisas, dizer que estão lançadas as bases para um compromisso de diálogo e de entendimento é, no mínimo, ingénuo, para não lhe chamar patético. Mais uma vez Cavaco afasta a água do capote e tenta passar incólume pela trapalhada irresponsável que os dois partidos da coligação criaram e que ele tinha constitucionalmente o dever de resolver. Repito: tinha constitucionalmente o dever de resolver. De tudo o que li, acho, no entanto, a crónica de Rui Tavares no Público de hoje a mais certeira e a que, em minha opinião, melhor caracteriza a actuação do PR:
"Os discursos de Cavaco Silva à nação começaram a ter uma certa lógica. Dividem-se em duas partes: antes do copo d'água (a.c.) e depois do copo d'água (d.c.). Antes do copo d'água Cavaco explica-nos como é que tudo aquilo que ele queria deu errado: os partidos não quiseram um compromisso de salvação nacional que "75% dos países de dimensão média da União Europeia" têm... e etc., por mais incompreensível e intelectualmente desonesto que seja. Depois, Cavado pára. Apossa-se do copo d'água. Bebe com sofreguidão. (...) Cavado pousa o copo d´água. Diz: "Portugueses". E finalmente explica-nos que vai fazer aquilo que não queria fazer há quinze dias. (...)
No ano de 1582, Portugal passou do calendário juliano para o gregoriano e perdeu dez dias entre 4 e 15 de outubro. (...) Entre o "antes de Cavaco" e o "depois de Cavaco" passaram também dez dias, de 10 a 21 de julho. Os dez dias mais mal perdidos de toda a história do país, incluindo 1582".

4.7.13

Deamblogações matinais

A única saída decente, repito, decente, para esta crise é a convocação de eleições por parte do PR. Seria uma cambalhota absolutamente histórica a que Portas teria de fazer (vamos ver se o faz) para voltar ao governo. A paz, se é que de paz se pode sequer falar, seria mais do que podre e não existiriam condições para levar por diante qualquer das reformas (?) que têm de ser feitas para cumprimento do memorando.
O PR tem como única alternativa para si próprio e para a salvação do cargo (a dele já quase não é possível) a convocação de eleições. Só nesse quadro ele consegue garantir a legitimidade e a força necessárias para levar a que PSD, CDS e PS possam entender-se como há muito que é desejável.

3.7.13

Deamblogações matinais


Sempre fui social-democrata. O "sempre" é desde que tenho consciência cívica e política, desde que comecei a interessar-me pelas medidas de política que eram adoptadas pelos diversos Governos que iam dirigindo o país.
O PSD foi, certamente, o partido que melhor encaixava essa tendência, não apenas porque se definia como social democrata, mas porque tinha a social-democracia inscrito na sua carta constitutiva.
Mas, da mesma maneira que o nome de um qualquer contrato não se impõe ao seu conteúdo, o facto de o PSD se dizer social-democrata foi, com o passar do tempo, perdendo importância, chegando à irrelevância actual. Entre liberal, de direita, de centro e o que mais for, muita coisa se lhe pode chamar. Ou nada. Daí a necessidade de estarem sempre a invocar o nome de Sá Carneiro, como se este fosse o ferro que pudesse atestar a verosimilhança da social-democracia. É evidente que não pode. Até porque a social-democracia de Sá Carneiro tinha muito de socialismo, sendo necessário uma interpretação actualista que, ao que vejo, nunca ninguém soube (nem quis) fazer.
Lembro-me de, no passado, considerar que o CDS - quando era um partido de quadros com uma verdadeira inclinação democrata cristã - era essencial ao governo do país, como contrabalanço do PSD nesse mesmo governo, porque lhe dava um cunho personalista mais vincado. Não que o PSD não fosse personalista, porque o era (não sei se ainda é, creio que não...), mas porque o CDS tinha essa marca bem sulcada na sua génese. Adriano Moreira, Lucas Pires e Freitas do Amaral, este último até certo período, eram incontornáveis defensores de uma visão democrata-cristã da sociedade, onde o indivíduo solidário (um pouco diferentemente do PSD, para o qual o indivíduo era visto de forma mais egoísta e como propulsor, de per se, do movimento social) era central.
Manuel Monteiro e a sua deriva populista deram definitivamente cabo do CDS e, a meu ver, não apenas do CDS mas do próprio PSD, porque este vivia no já referido contra-balanço entre as duas tendências complementares acima ditas, tendo ficado sem o outro prato da balança e tendo sentido uma atracção vertiginosa pela real politik do betão armado e do "progresso" do país. Foram os anos de ouro de Cavaco. Quando se fizer a história política do século XX português, espero que não esqueçam o papel desgraçadamente central de Monteiro. Ele foi bem mais importante do que a sua irrelevância presente o revela.
Ao longo dos anos, existiram opções do CDS com as quais me identifiquei e que para mim faziam (e fazem) sentido, enquanto crente no valor da pessoa humana solidária como centro do bem-estar e da evolução sociais. Coisas como a diminuição da carga fiscal, a tendencial eliminação das barreiras ao investimento interno e externo, a diminuição do peso do Estado em sectores da economia (divirjo relativamente ao SNS e à educação), a valorização do investimento, etc., etc. Apesar de assim ser, nunca consegui votar CDS. Nunca. Isso para mim tem hoje uma razão de ser muito evidente: por mais que eu pudesse acreditar nas opções políticas anunciadas, não conseguia acreditar nas pessoas que as anunciavam e que demonstrariam responsabilidade pela sua concretização. Paulo Portas, em concreto, era e sempre foi o rosto da minha desconfiança. Desde os tempos d'O Independente que eu seguia com atenção, senti o quão pouco fiável Portas era e, nessa medida, eu seria incapaz de lhe dar o meu voto.
Com o correr do tempo, foram, assim, desaparecendo os partidos políticos em que eu, mais ou menos, me revia ideologicamente. O CDS porque, no essencial, não acreditava nos seus dirigentes, o PSD porque foi deixando pura e simplesmente de ter ideologia. Isso está, de resto, muito bem retratado em várias obras que se dedicam a explicar, sobretudo este último fenómeno.
Chegamos aqui e ao facto de termos Cavaco como presidente, Passos como primeiro-ministro e Portas como (ainda) ministro de Estado e dos negócios estrangeiros. Para fechar o quadrado (e não acho que seja assim tão irrelevante quanto o querem fazer crer), temos Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia.
O que se tem passado nestes tempos em Portugal parece surreal, mas infelizmente é bem real. E é tão real quanto irresponsável, negligente e não sei mesmo se doloso.
Com o que se passou ontem, fiquei decidida e intemporalmente arredado dos dois partidos com os quais sempre mais me identifiquei. PSD e CDS foram postergados das minhas intenções de voto nos próximos anos, a menos que veja que alguma coisa muda radicalmente. E incluo nessa possibilidade o aparecimento de alguém em quem confie (por enquanto, não vejo ninguém nem perto disso). E faço-o também (mas não só) por protesto. Porque quero mesmo que estes dois partidos tenham menos votos do que no passado, quero que os caciques e todos os que à volta deles gravitam sintam na pele que perderam o poder que tiveram durante anos e anos a fio e que tanto mal nos fez. Quero que estes dois partidos percam representatividade e se sintam humilhados e envergonhados perante o país eleitor. Quero mesmo. O que aconteceu nestes dias (e ainda está a acontecer) é uma absoluta pouca vergonha. Como ontem dizia Pedro Adão e Silva (e estou-me nas tintas para o facto de ser socialista, porque o que ele disse é óbvio e nada tem que ver com partidos), passou-se da tragédia ao drama.
Esta gente devia ter vergonha, a mesma vergonha que ontem senti ao ouvir Passos pateticamente a invocar uma coragem que eu não lhe reconheço, a mesma vergonha que vou sentir ao ouvir Portas a justificar o seu abandono e, finalmente, a mesma exacta vergonha que vou sentir ao ouvir Cavaco a não conseguir colocar os interesses do país à frente dos seus próprios interesses. Por uma vez ele deveria fazê-lo. Mas não consegue. E não sabe.
Seria tudo cómico, não fosse real e bem real.

22.5.13

Deamblogações matinais



Não nos faltava mais nada do que um PR que parece uma barata tonta no meio deste lodo em que nos encontramos, no meio de um governo que não é governo e no meio de uma oposição que não se percebe o que quer (por causa do pecado original de ter sido ela própria enquanto governo a embarcar no auxílio externo).
Este PR conseguiu ridicularizar e descredibilizar um dos poucos órgãos do Estado que não vi serem questionados ao longo dos anos. Parece pouco e que o Conselho de Estado não serve para muito, mas acho que não é bem assim. Um espaço no qual várias personalidades com funções de estado relevantes, de diferentes quadrantes e sensibilidades políticas podem reflectir em conjunto, um espaço afastado dos soundbytes diários em que os membros podem encontrar algum recolhimento - e, desse modo, podem sentir-se livres para dizer o que pensam sem juízos terceiros - tudo isto é necessário ao nosso sistema tal como foi inicialmente pensado e tudo isto foi, quiçá definitivamente, arrasado. Começou com o comentarista Marques Mendes a anunciar (de encomenda?...) a reunião e acabou no comunicado oficial que traduziu o mal-estar mais do que evidente entre os conselheiros. E não necessariamente entre apenas os conselheiros de cores partidárias diferentes.
Cavaco tem tido o condão de demonstrar à saciedade o que hesitei durante muito tempo em considerar ser (no seu caso) o próprio princípio de Peter. Mas com uma variante. Não é bem não estar à altura do cargo. Afinal tem experiência política suficiente. O que sucede é que a mesquinhez que sempre pautou as suas actuações - mesmo que sempre disfarçada de elevação e sentido de Estado - é neste momento trágica para o país e não se coaduna com a função que exerce.
Agora percebe-se melhor do que nunca a importância do PR no nosso sistema. Sem ele ficamos um pouco órfãos. De resto, já estamos.

7.4.13

Deamblogações matinais

O TC fez o que toda a gente - incluindo o Governo - antecipou que ia acontecer. Até aqui nada de novo. Mas existem dois personagens que, quais nenúfares a desabrochar, se revelaram de vez, existissem ainda algumas dúvidas sobre as intenções que os motivam na vida política. São eles Cavaco e Seguro. Cavaco porque disse naquele tom que já ninguém aguenta que, independentemente da decisão do TC, o Governo teria sempre as condições necessárias para governar, tendo saído reforçado (?) do chumbo da moção de censura de quinta-feira e que, nessa lógica, uma eventual consideração como inconstitucionais de algumas das normas do OE/13 seria indiferente. O segundo porque, num acto de imprecedente irreponsabilidade, está a esticar a corda como se não houvesse amanhã, como se eleições antecipadas viessem resolver os problemas do país.
As irresponsabilidades de um e de outro devem ser-lhes assacadas num futuro próximo. Infelizmente não haverá mais nenhum acto eleitoral pelo qual se possa penalizar Cavaco, pelo que a única coisa que podemos fazer é ir para a rua e dizer a alta voz que este presidente é um tacticista sem escrúpulos, que não hesita em proteger a sua posição em detrimento dos interesses dos portugueses. Já Seguro pode e deve ser penalizado pela mentira e demagogia com que defende o que defende. Dizer que com o PS Portugal mudaria de rumo é mentir com quantos dentes se tem e isso deve ser dito e produzir efeitos numa futura eleição. Oxalá assim fosse e o rumo de Portugal ainda tivesse algo que ver com as opções políticas tomadas internamente. Mas não é assim e Seguro, como qualquer político minimamente experimentado, sabe que assim é.
Cavaco e Seguro são dois políticos mentirosos, que não estão a servir o país. Nem sequer sei se estão lá para se servir a eles próprios, mas se nem isso fazem deviam era sair de cena. Já.
Esgotou-se o tempo e a pachorra.