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27.4.18
Escritos
Punha-me a pensar sobre a questão das escutas e da sua divulgação e não conseguia decidir sobre se estava ou não de acordo. Se por um lado me fazia impressão a divulgação de tudo aquilo e atentava contra a reserva que entendo dever existir quanto à vida privada de cada um de nós, por outro o que está em causa diz, efectivamente, respeito a todos, extrapolando em muito a mera esfera privada dos envolvidos.
Se pensarmos que muitos milhões de portugueses - quase todos, na verdade - nunca viram nem têm noção do que é um milhão de euros, ver e ouvir esta gente trocar favores e proteger-se mutuamente a troco de dezenas, centenas e milhares de milhões, deve-nos indignar a todos. É tempo desta gente perceber que não pode estar acima dos outros, como aliás sempre aconteceu, e que também está sujeita à justiça e aos códigos penais e a todas as leis que se lhes apliquem.
Mas não pode ser a sede de vendetta que justifica a divulgação das escutas e dos depoimentos porque isso seria combater um mal com outro mal, por motivos errados e vis. É verdade que mete nojo o que esta gente fez (e ainda faz), mas o tempo do pelourinho já acabou e todos nós temos a obrigação de lutar pela dignificação da pessoa humana, seja ela quem for e independentemente do que tenha feito. Existem tribunais para julgar, sendo que as sessões são públicas, pelo que quem quiser que assista ao que lá se passa. É assim e deve continuar a ser assim nas sociedades democráticas.
Se não é, pois, uma questão de vendetta, a justificação para a divulgação só pode estar no interesse público, sobre o qual muito se tem falado por estes dias. Houve, assim, três factos que me ajudaram a estabilizar uma posição sobre este assunto: a discussão havida no programa Prós e Contras da rtp1 (no âmbito do qual apenas um jornalista defendeu a divulgação dos depoimentos), uma crónica do João Miguel Tavares no Público e um artigo de opinião do Ricardo Costa no Expresso on-line chamado "Isto não é não jornalismo", que deixou infelizmente de estar acessível a não assinantes.
De facto, o que está em causa é de tal envergadura e tão estruturante do ponto de vista da forma como as teias sociais, económicas e políticas estão construídas no nosso país, que não pode senão concluir-se que existe verdadeiro interesse público na divulgação dos depoimentos.
É evidente que toda a gente tem uma opinião sobre a culpabilidade de Sócrates e que, se ele for absolvido em tribunal por falta de provas, será extremamente difícil acreditar que o sistema judicial fez o trabalho tal como devia e que não falhou rotundamente. Mas, convenhamos, isso já acontecia antes da divulgação dos interrogatórios e é assim quase desde o início, até porque, mesmo antes do início, já muita gente achava que Sócrates, Salgado, Bava et al. eram corruptos. Não foi portanto esta divulgação que operou uma mudança na opinião pública. Ela só aprofundou o conhecimento sobre as matérias em discussão, o que é de um valor colectivo inestimável.
Daí eu achar que, como sociedade, só temos a ganhar com toda a informação que possamos conhecer oriunda de todos estes processos que envolvem a gente que povoa as cúpulas do poder social, político e económico do nosso país. Repito que não é para os humilhar - sendo embora verdade que essa tentação está sempre presente - mas sim para tornar a nossa sociedade um pouco mais horizontal, assim contribuindo de algum modo para que o sentimento de impunidade que muitos têm e acalentam há dezenas de anos se aplaque de vez. Para que Portugal dê oportunidade a todos em igual medida, deixando de reservar uns poucos muitos lugares de topo para os muitos poucos que a eles parecem destinados, pilhando à grande e despudoradamente, cavando maiores injustiças sociais e económicas, retirando do todo que a todos era destinado para benefício dos poucos que dele fazem proveito.
Acho mesmo que a SIC fez bom jornalismo e estou hoje plenamente convencido de que a divulgação que foi feita contribuiu na sua medida para destapar mais um pouco do véu da desvergonha com que muitos andam tapados.
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9.11.17
Deamblogações matinais
Sobre o web summit:
"Estes poucos dias de invasão não podem ser uma dose de qualquer pastilha de euforia que abafa os problemas reais que enfrentamos. Nem temos de quase pedir desculpa para continuar a viver a nossa vida e as nossas cidades, enquanto um bando de deslumbrados circula todo o dia com o seu cartão do evento pendurado ao pescoço como se pertencessem a um qualquer círculo de eleitos ou seita de Charles Manson de smartphone em punho."
Rui Calafate, ECO
"Estes poucos dias de invasão não podem ser uma dose de qualquer pastilha de euforia que abafa os problemas reais que enfrentamos. Nem temos de quase pedir desculpa para continuar a viver a nossa vida e as nossas cidades, enquanto um bando de deslumbrados circula todo o dia com o seu cartão do evento pendurado ao pescoço como se pertencessem a um qualquer círculo de eleitos ou seita de Charles Manson de smartphone em punho."
Rui Calafate, ECO
22.1.16
Deamblogações vespertinas
Se uma imagem vale mais do que mil palavras, uma campanha como aquela a que temos assistido vale mais do que todas as outras juntas, sejam elas presidenciais, legislativas ou autárquicas.
Na verdade, nem sei bem ao que temos assistido, ou pelo menos ao que eu (não) tenho assistido (e se calhar é exactamente por isso que não sei...) porque, entre arruadas fracassadas, perguntas a funerárias sobre se o negócio vai bem, comoções um pouco estéricas, salas vazias, risos e poses próprios de comediantes e auto-elogios sobre ser-se o arauto de um tempo novo como se de um recém-nascido se tratasse (e penso que não deixei ninguém relevante de fora), tudo valeu para não se dizer nada ou muito pouco. Porque, na realidade, todos sentem que esta campanha veio num tempo em que está toda a gente realmente cansada de eleições, de políticos e das suas vãs promessas. Porque todos já perceberam que, vá seja quem for ocupar o Palácio de Belém, o entendimento que tiver da Constituição será sempre condicionado pelas condições governativas, as quais são por sua vez condicionadas pelas condições externas existentes. E, portanto, todos sentem - talvez erradamente, mas enfim - que esta eleição tem um reduzido alcance e um efeito ainda menor. E isso não deixa de ser preocupante. Porque esta eleição merecia ter tido um outro enquadramento, merecia ter tido discussões acirradas sobre o papel do Estado, do Governo e do próprio PR enquando moderador do nosso sistema. Um PR com um Governo como o actual desempenha um papel muitíssimo importante porque, sim, pode e deve ser um moderador do próprio Governo e dos partidos de esquerda que o apoiam (apoiam?). E é nesse sentido que não é indiferente, nada indiferente, quem seja eleito, porque devem esperar-se coisas diferentes de Marcelo, de Sampaio da Nóvoa ou de Maria de Belém, para só falar aqui de quem tinha expectativas de chegar ao lugar. Mas como não se discutiram ideias e como Marcelo, como alguém dizia, se fez de morto durante todo este tempo (no que, aliás, considero mais uma prova da sua inteligência), desconheço o que Marcelo irá fazer como PR, como irá ele desempenhar o seu papel de moderador e árbitro. Quantas vezes apitará e quando o fará. Idem aspas para qualquer dos outros dois.
Se uma imagem vale mais do que mil palavras, ver um man de cigarro, cerveja, bóina e tatuagem à el comandante no braço a abraçar Marcelo, significa que nada disto faz muito sentido. Nem Marcelo se candidatar a PR (como sempre achei), nem o PS não ter unido o apoio à volta da mesma personagem, nem aparecerem ex-padres, ex-calceteiros, ex-médicos e ex-psicólogos a disputar a eleição ao mais alto cargo do país.
Ou, pelo contrário, tudo isto faz, afinal, sentido e eu é que não vejo? É bem provável, de facto.
13.7.15
A vergonha portuguesa (e europeia)
O sentimento que paira na Europa, pelo menos na Europa do Euro, não é de consenso (ao contrário do que alguns querem fazer crer-nos), nem de vitória de uns (os países da chamada linha dura, nos quais desgraçadamente se inclui Portugal) e derrota de outros (mais moderados e evidentemente com a Grécia à cabeça). O sentimento que paira na Europa é de vergonha e humilhação. De vergonha pela humilhação a que foi e está sendo sujeito um povo que teve o descaramento de desafiar a toda-poderosa Alemanha e o seu séquito de acólitos bem-comportados (nos quais desgraçadamente Portugal se inclui).
Vejo o que vejo e penso sinceramente como fazem falta homens de Estado, com uma visão verdadeiramente europeísta do mundo, deste nosso mundo que é a Europa. Nós que, desgraçadamente fazemos parte da linha dura, dos que punem os incumpridores e preguiçosos, somos os primeiros a atirar pedras, qual menino bufo pseudo bem-comportado que, depois de levar uma reprimenda do professor, é o primeiro a denunciar os outros, para ficar bem visto na fotografia e todos acharem que mudou para melhor. Mas nós não mudámos nada para melhor, o que mudou foi as circunstâncias externas e o resto é, mais ou menos, show-off. O Passos Coelho que disse hoje que, por acaso - cheio de soberba mal disfarçada - tinha sido ele a encontrar uma solução é o mesmo que, desgraçadamente, orienta este país para um abismo que não se vê mas pressente-se. O abismo da falta de solidariedade pelos que sofrem, de falta de humanismo, do interesse e da mesquinhez. É, uma vez mais, o aluno fraco que se cola aos fortes para parecer forte. Mas ele não é forte, é só fachada. Um dia vem um teste mais difícil e os bons deixam-no sozinho a penar. E é nesse momento que ele vai receber a dobrar o mal que um dia fez.
Uma absoluta vergonha.
18.6.15
Cavaco e Silva
Quando apareceu na vida política portuguesa (há quantos decénios?...), para fazer a rodagem ao Citroën que acabou por lhe dar a liderança do PSD, Cavaco Silva - Cavaco e Silva, numa designação que na altura era popular - representou as noções de honestidade, rigor, distanciamento face à política (mais à própria politiquice) e aos políticos e, nessa medida, inspirou muita confiança. Era, de facto, confiança que inspirava Cavaco em muitos de nós. Foi assim em 85, em 87 e em 91.
Depois, "profundamente desencantado" com o que se tornara o PSD (que ele próprio alimentara) e a vida político-partidária, decidiu, completamente a destempo, candidatar-se a Belém contra Sampaio, tendo perdido rotundamente. Demorou 10 anos a voltar a desempenhar um cargo, desta feita como mais alto magistrado da Nação, como tantas e tantas vezes gostam de chamar ao cargo de PR.
No interim de 10 anos em que "andou por aí" - numa prognose do que Santana haveria de dizer em 2004 -, publicava cirurgicamente artigos de opinião cheios de intenção. Dois deles surgem logo no espírito: "O Monstro" e a "Má Moeda Expulsa a Boa Moeda", sendo que, neste último, convém dizer que se referia a um correlegionário seu de partido, a saber, o próprio Santana.
Não tenho tempo, nem particular interesse, em dissecar o que foi o percurso de Cavaco desde que é PR, mas o que me apetece dizer é que, como já aqui referi, me foi desencantando, desencantando, desencantando, até começar a duvidar das suas boas intenções. Imagino que, por esta altura, haja muito boa gente a rir e a pensar: "mas este pateta achou mesmo que o Cavaco teve algum dia boas intenções?!", ao que eu respondo que sim, achei. E assumo isso. Mas, como dizia, comecei lenta mas firmemente a notar que o homem, para além de uma agenda muito própria, demonstrava uma frieza, um cinismo e um calculismo pouco de acordo com a forma de estar que eu preconizo, seja na vida pública, seja na privada. Tomadas de posição, escritos (os tão famosos Roteiros), mensagens presidenciais, entrevistas em que deixava cair uma farpa aqui, outra acolá. E, como tal, fui mudando, lenta mas firmemente, a minha opinião sobre aquela que hoje em dia considero uma sinistra personagem. E é sinistra porque, entre outras coisas, não demonstra qualquer compaixão, qualquer ligação, qualquer proximidade, qualquer emoção, quando, claro está, isso não vai ao encontro dos seus interesses mais imediatos. Porque se for, a coisa fia mais fino. E tudo isso eu acho verdadeiramente sinistro.
A última é esta tomada de posição contra a Grécia feita durante a visita de Estado à Bulgária, em que, para lá do despropósito da ocasião, foi de uma dureza e rispidez inéditas, dizendo que não poderia haver lugar a excepções (!). Mas como é que não pode haver lugar a excepções se vivemos tempos de excepção? Como é que não pode haver lugar a excepções se estamos a sofrer as consequências de decisões erradas tomadas há 20 ou 30 anos, quando se idealizou uma ideia de convergência e de moeda única muito pouco compatíveis com as diferenças estruturais existentes entre os países que a compunham? Como é que, pura e simplesmente, não há lugar a excepções?... Como se pode afirmar isto assim, desta forma, com aquele ar duro e impedernido, cego e insensível?
Cavaco está-se, pois, nas tintas para os efeitos que a inexistência de excepções - essa verdade que eleva à categoria de sacro-santa - pode ter num país, aliás, em muitos países e nos seus povos. Porque, convenhamos, toda a gente sabe que o Grexit é o escancarar de portas para o Portexit, Espanhexit e outros exits que se seguirão. Só mesmo a dupla Pa-Po e Maria Luís é que preferem ignorar tal facto e continuar a dizer que Portugal está preparado para o cenário de saída da Grécia. É para rir. Preparado para a saída da Grécia... Já agora, também está preparado para uma eventual bancarrota da Alemanha, uma invasão da Europa pelo EI ou uma catástrofe nuclear. Portugal é aliás, sabe-se bem, imune a tudo o que vem de fora, independentemente da envergadura. É mesmo para rir, não fora o facto de estarmos a lidar com vidas humanas que são destruídas, que vêem os seus sonhos atirados para o ar como um balão tão cheio de hélio que desaparece da vista para nunca mais voltar, que se vêem confrontadas com situações das quais pensavam estar livres para o resto das suas existências. Em nome de quê? Em nome da não admissibilidade de excepções. Clap, clap, batamos palmas meus senhores.
Cavaco, munido da sua fisga, lança mais, não propriamente uma pedra, mas um pedregulho daqueles valentes, do tipo dos que os trolls do Senhor dos Anéis lançavam sobre Minas Tirith. Na verdade, ele está-se nas tintas, como sempre esteve. A questão é que, no caso, não se trata de um filme. É a mais pura realidade. Mas não a dele.
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23.4.15
Deamblogações vespertinas II
Eu que ando há já algum tempo a praticar sentir em vez de pensar, o que sinto é uma espécie de enjoo por aquilo que se vai passando na vida política portuguesa. Entre Sócrates, a sua prisão, as manifestações, os recursos absurdos e as declarações de ódio do próprio, passando pelas acções de propaganda do Governo relativamente aos números do crescimento, do défice, dos impostos e do desemprego, vendo as propostas do PS que parte de números absurdos de crescimento e de outros pressupostos que nunca se irão verificar, até à miséria que revelam os inúmeros processos judiciais pendentes relativamente a diversos (muitos!) actores políticos nacionais.
Isto tudo enjoa-me, deixa-me sem alento, sem esperança num futuro mais risonho para os nossos filhos, porque sei que, não apenas nós mas eles também, andaremos todos a pagar o que uma clique fez e desfez ao longo de anos de pagode. Foi mesmo isso: um pagode para uns quantos, a miséria para muitos e um lento decair para a maioria. E continua a ser assim.
É por isso que me tenho deixado deixar de escrever aqui, à falta de vontade de puxar pela cabeça e ver o que me interessa no meio deste lodo pardacento em que vivemos, se é que há coisas que interessem. Olho, por exemplo, para as eleições e só vejo declarações patéticas do PSD/CDS, do PS e dos outros partidos e movimentos que pululam por aí, sem qualquer expectativa positiva sobre o que aí vem, porque, vindo alguma coisa (há sempre um fungo oportunista que ocupa o espaço livre... nem que seja o que foi deixado por si próprio), ela não há de ser melhor do que o que hoje existe. É mais do mesmo, ainda que sob uma outra forma, outra capa, outro nome. Mas do mesmo, sem dúvida.
E tudo isto me deixa cansado e desinteressado. E assim continuo, vamos ver por quanto tempo.
23.6.14
Acho que merece uma explicação...
... o número de lesões sofridas pelos jogadores portugueses.
... o facto de haver jogadores em claríssimo sub-rendimento (casos evidentes de Moutinho, Meireles, Bruno Alves e João Pereira).
... William Carvalho não ter entrado na equipa como titular (indiscutível) desde o primeiro jogo (no que considero francamente um crime de lesa-Pátria).
... a equipa não se ter treinado nos sítios onde iam decorrer os jogos, à hora em que iam decorrer os jogos, tendo antes optado por condições mais favoráveis mas menos reais face às que ia encontrar quando jogasse.
... Paulo Bento não ter assumido desde o início que, tal como disse Ronaldo ontem no final do jogo, as hipóteses de Portugal eram objectivamente limitadas, com isso baixando as expectativas para um limiar realista, deixando-se daquela conversa sempre igual e redonda do "temos uma boa equipa que pode aspirar a qualquer coisa neste campeonato depois de atingirmos o primeiro objectivo [ele adora falar em 1.º objectivo, 2.º objectivo, etc.] que é passar a fase de grupos".
... Paulo Bento ter deixado em Portugal alguns jogadores que poderiam fazer a diferença, não se escudando na desculpa das opções técnico-tácticas.
... os jogadores parecerem mordidos pela mosca do sono (que aqui tem o condão de manter inalterados os seus efeitos, que parece durarem para sempre), demonstrando colectivamente uma total incapacidade física de fazerem uma jogada rápida com princípio, meio e fim.
... André Almeida ter jogado toda a primeira parte de ontem lesionado e sem poder correr (o que foi ainda mais evidente a partir da segunda metade do primeiro tempo).
(continua)
... o facto de haver jogadores em claríssimo sub-rendimento (casos evidentes de Moutinho, Meireles, Bruno Alves e João Pereira).
... William Carvalho não ter entrado na equipa como titular (indiscutível) desde o primeiro jogo (no que considero francamente um crime de lesa-Pátria).
... a equipa não se ter treinado nos sítios onde iam decorrer os jogos, à hora em que iam decorrer os jogos, tendo antes optado por condições mais favoráveis mas menos reais face às que ia encontrar quando jogasse.
... Paulo Bento não ter assumido desde o início que, tal como disse Ronaldo ontem no final do jogo, as hipóteses de Portugal eram objectivamente limitadas, com isso baixando as expectativas para um limiar realista, deixando-se daquela conversa sempre igual e redonda do "temos uma boa equipa que pode aspirar a qualquer coisa neste campeonato depois de atingirmos o primeiro objectivo [ele adora falar em 1.º objectivo, 2.º objectivo, etc.] que é passar a fase de grupos".
... Paulo Bento ter deixado em Portugal alguns jogadores que poderiam fazer a diferença, não se escudando na desculpa das opções técnico-tácticas.
... os jogadores parecerem mordidos pela mosca do sono (que aqui tem o condão de manter inalterados os seus efeitos, que parece durarem para sempre), demonstrando colectivamente uma total incapacidade física de fazerem uma jogada rápida com princípio, meio e fim.
... André Almeida ter jogado toda a primeira parte de ontem lesionado e sem poder correr (o que foi ainda mais evidente a partir da segunda metade do primeiro tempo).
(continua)
9.3.14
Deamblogações matinais
"Com 30 anos no 25 de Abril, não me esqueci depressa do que era a vida nessa altura. (...) não me importo falar da classe média (de resto privilegiada) em que nasci: e posso dizer que a pobreza contaminava tudo. O que se vestia, o que se comia, o que se fazia, o que se pensava. Mais do que na gente que mandava no Estado e no cidadão comum, a tirania estava, como dizia o outro, na necessidade de poupar, na privação perpétua da frivolidade e do prazer, no mundo imóvel e sem saída, que pouco a pouco se tornava numa prisão a céu aberto."
Vasco Pulido Valente, in Público de hoje
Vasco Pulido Valente, in Público de hoje
12.2.14
Deamblogações matinais
Alguém me explica como é que um partido reconhecidamente determinante na implementação e concretização da democracia portuguesa se deixa agonizar desta forma no caminho da irrelevância nacional? Alguém me explica como é que um partido reconhecidamente pluralista, que sempre conviveu, umas vezes melhor outras pior, com opiniões, ideias e credos diferentes, tem acabado com as dissonâncias internas na tentativa (tão irrealista quanto espúrea) de criar internamente uma só voz? Alguém me explica como é que um partido que sempre privilegiou a classe média, o povo honesto e trabalhador, a pequena burguesia trabalhadora, lhes virou costas, quiçá irremediável e definitivamente, abandonando uma das suas matrizes mais fundas e identitárias? Alguém me explica porque razão, numa súmula de tudo isto e ainda mais coisas, um partido como o PSD não se inibe de despedir (o termo é mesmo este) António Capucho? Como é que não percebe que isto é muito mais do que simplesmente despedir António Capucho? Que, com António Capucho, vão muitos outros militantes que se fartam, se cansam, entregam os cartões e viram costas pura e simplesmente? E outros não militantes que deixam definitivamente de acreditar, deixam de ter esperança que aquele partido em que um dia confiaram como defensor de muito do que acreditavam já de nada serve, apenas servindo os seus a seu modo?
O que acaba de acontecer é criminoso, não no sentido próprio, mas no sentido em que a purga que se vive dentro deste partido - que cada vez menos é o PSD para ser uma amálgama incolor de gente que tem agendas pessoais bem definidas - o fere de morte mais uma vez.
A mim dá-me tristeza. Vejo os meus filhos que não têm qualquer apego a qualquer dos partidos existentes. Um apego sequer parecido ao que eu tinha na idade deles. Não existem líderes carismáticos que se atravessem e tenham uma ideia bem construída sobre o país e o seu povo, que defendam intransigentemente quem trabalha, não como quem atira milho às galinhas só para as calar, mas porque conhece bem as ansiedades e os desesperos de quem tem contas para pagar.
Mas também me dá tristeza, não pelo partido em si, mas pela falta que o mesmo faz - e fará! - a Portugal e a todos nós.
Não há enxurrada que os leve. A estes que ali estão. A destruir e a semear o nada.
O que acaba de acontecer é criminoso, não no sentido próprio, mas no sentido em que a purga que se vive dentro deste partido - que cada vez menos é o PSD para ser uma amálgama incolor de gente que tem agendas pessoais bem definidas - o fere de morte mais uma vez.
A mim dá-me tristeza. Vejo os meus filhos que não têm qualquer apego a qualquer dos partidos existentes. Um apego sequer parecido ao que eu tinha na idade deles. Não existem líderes carismáticos que se atravessem e tenham uma ideia bem construída sobre o país e o seu povo, que defendam intransigentemente quem trabalha, não como quem atira milho às galinhas só para as calar, mas porque conhece bem as ansiedades e os desesperos de quem tem contas para pagar.
Mas também me dá tristeza, não pelo partido em si, mas pela falta que o mesmo faz - e fará! - a Portugal e a todos nós.
Não há enxurrada que os leve. A estes que ali estão. A destruir e a semear o nada.
30.1.14
Deamblogações vespertinas
No meio de uma crónica falta de tempo, há algumas notícias que me fazem sorrir, não de alegria mas de espanto. A hipocrisia grassa pelo mundo.
Merkel cedeu e deu (mais) uma pirueta na dança que dança há já uns anos: prepara-se para baixar a idade da reforma na Alemanha para os 63 anos. Quando pede exactamente o contrário a todos os povos europeus, como castigo pela pressão deficitária das produções internas vs. o montante de pensões a pagar. Extraordinário. Até Schroeder deu sinais de vida.
Ianukovitch meteu baixa em pleno clima de pré-guerra civil na Ucrânia. Se isto pega, teremos muitos e bons políticos a fazerem o mesmo na Europa. Quando a situação se torna insustentável, em vez de a enfrentarem ou, no limite, apresentarem a sua demissão, metem baixa. É justo.
Por cá continuam a esgrimir-se argumentos pró e contra o referendo à co-adopção. Esta é daquelas matérias em que se pudesse fazia batota e votava 100, 1000 vezes pela aprovação da lei. Mas o problema não está aí, e sim em ter-se chegado ao referendo. Oxalá o TC faça o que tem a fazer. E já agora, Cavaco devia ter feito mais do que fez. Coragem, é o que se lhe pede e coragem é o que ele não tem.
E assim vamos: pobretes mas alegretes.
Merkel cedeu e deu (mais) uma pirueta na dança que dança há já uns anos: prepara-se para baixar a idade da reforma na Alemanha para os 63 anos. Quando pede exactamente o contrário a todos os povos europeus, como castigo pela pressão deficitária das produções internas vs. o montante de pensões a pagar. Extraordinário. Até Schroeder deu sinais de vida.
Ianukovitch meteu baixa em pleno clima de pré-guerra civil na Ucrânia. Se isto pega, teremos muitos e bons políticos a fazerem o mesmo na Europa. Quando a situação se torna insustentável, em vez de a enfrentarem ou, no limite, apresentarem a sua demissão, metem baixa. É justo.
Por cá continuam a esgrimir-se argumentos pró e contra o referendo à co-adopção. Esta é daquelas matérias em que se pudesse fazia batota e votava 100, 1000 vezes pela aprovação da lei. Mas o problema não está aí, e sim em ter-se chegado ao referendo. Oxalá o TC faça o que tem a fazer. E já agora, Cavaco devia ter feito mais do que fez. Coragem, é o que se lhe pede e coragem é o que ele não tem.
E assim vamos: pobretes mas alegretes.
3.1.14
Deamblogações matinais
Há muito tempo que me pergunto como é que, estando o país em crise profunda, existem tantas pessoas nos concertos, festivais de música (com bilhetes tão caros), no futebol e nas mais diversas manifestações públicas que não são gratuitas. Para além, claro está, das férias na neve, das idas aos spas (esse conceito ganhador que proliferou como um vírus) espalhados por esse país e das saídas para o estrangeiro.
Hoje, ao ler a crónica semanal de Francisco Teixeira da Mota no Público, vi citada uma referência de uma jornalista do Wall Street Journal, Patricia Kowsmann, que terá publicado no dia 25 de Dezembro passado no seu jornal uma notícia sobre Portugal dizendo que 8% dos lares lusitanos tinham uma Bimby, tendo sido comprados 35.000 aparelhos destes em 2013 contra apenas 22.000 iPads.
E por falar em iPads e entrando no mundo dos gadgets, também me custa perceber como é que toda a gente (e isto não é apenas uma força de expressão), ou, para ser mais rigoroso, quase toda a gente tem um iPhone e um iPad ou, numa versão menos sofisticada e claramente em contra-corrente, um smartphone (porque isso de não ter um smartphone já nem tem sentido).
De igual modo, não percebo como é que os centros comerciais continuam cheios (sendo que muita daquela gente está mesmo a comprar) e as lojas de electrodomésticos de massas continuam a proliferar.
Sempre considerei tudo isto contraditório com a circunstância - para mim factual e indubitável - de o país estar em profunda crise e não haver dinheiro.
Parêntesis: muitos dirão que tudo isto não é representativo do país, mas apenas de uma certa elite económica, baseada em Lisboa e, quando muito, também no Porto. Eu, porém, tenho muito dificuldade em aceitar esta explicação, porque não é elite nenhuma que eu vejo nos festivais (embora ela também lá esteja), nos concertos, e com iPhones e outros gadgets na mão. Não é claramente essa elite que eu vi numa recente reportagem de iPad na mão a filmar o museu do Cristiano Ronaldo na Madeira...
Mas, e se o pressuposto estiver errado? E se, afinal de contas, o país não estiver a atravessar a crise que se julga e existir muito maior capacidade financeira do que aquilo que é dito?
Pensava eu sobre esta possibilidade quando, também no Público de hoje, me deparei com o artigo de José Manuel Fernandes, o qual vai exactamente nesta direcção. Com o título "O mundo não está assim tão mal, e Portugal também não", o jornalista vem dizer precisamente isso: que, no fim de contas, a "verdade indesmentível" de que isto está à beira do fim não é tão verdadeira quanto isso. E, para tal, cita o estudo comparativo do cientista político e especialista em sondagens Pedro Magalhães, aqui, e que eu quero ler com atenção, no âmbito do qual o mesmo terá ficado espantado ao verificar, ele próprio, que a realidade (pelo menos até 2012, último ano em que há dados estatísticos consolidados) não é tão má quanto se pinta.
Caso esse cenário se confirme, ajuda a explicar muitas coisas. Desde logo que a opinião pública, na qual me incluo completamente, se tem deixado contaminar por uma lenga lenga dita e repetida vezes sem conta. E, como todos sabemos, uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdadeira. Não é que a crise seja uma mentira, mas, talvez, os efeitos da crise o sejam, pelo menos, com a dimensão que é referida por quase todos de forma indiscutível. Será mesmo assim?
A continuar.
Hoje, ao ler a crónica semanal de Francisco Teixeira da Mota no Público, vi citada uma referência de uma jornalista do Wall Street Journal, Patricia Kowsmann, que terá publicado no dia 25 de Dezembro passado no seu jornal uma notícia sobre Portugal dizendo que 8% dos lares lusitanos tinham uma Bimby, tendo sido comprados 35.000 aparelhos destes em 2013 contra apenas 22.000 iPads.
E por falar em iPads e entrando no mundo dos gadgets, também me custa perceber como é que toda a gente (e isto não é apenas uma força de expressão), ou, para ser mais rigoroso, quase toda a gente tem um iPhone e um iPad ou, numa versão menos sofisticada e claramente em contra-corrente, um smartphone (porque isso de não ter um smartphone já nem tem sentido).
De igual modo, não percebo como é que os centros comerciais continuam cheios (sendo que muita daquela gente está mesmo a comprar) e as lojas de electrodomésticos de massas continuam a proliferar.
Sempre considerei tudo isto contraditório com a circunstância - para mim factual e indubitável - de o país estar em profunda crise e não haver dinheiro.
Parêntesis: muitos dirão que tudo isto não é representativo do país, mas apenas de uma certa elite económica, baseada em Lisboa e, quando muito, também no Porto. Eu, porém, tenho muito dificuldade em aceitar esta explicação, porque não é elite nenhuma que eu vejo nos festivais (embora ela também lá esteja), nos concertos, e com iPhones e outros gadgets na mão. Não é claramente essa elite que eu vi numa recente reportagem de iPad na mão a filmar o museu do Cristiano Ronaldo na Madeira...
Mas, e se o pressuposto estiver errado? E se, afinal de contas, o país não estiver a atravessar a crise que se julga e existir muito maior capacidade financeira do que aquilo que é dito?
Pensava eu sobre esta possibilidade quando, também no Público de hoje, me deparei com o artigo de José Manuel Fernandes, o qual vai exactamente nesta direcção. Com o título "O mundo não está assim tão mal, e Portugal também não", o jornalista vem dizer precisamente isso: que, no fim de contas, a "verdade indesmentível" de que isto está à beira do fim não é tão verdadeira quanto isso. E, para tal, cita o estudo comparativo do cientista político e especialista em sondagens Pedro Magalhães, aqui, e que eu quero ler com atenção, no âmbito do qual o mesmo terá ficado espantado ao verificar, ele próprio, que a realidade (pelo menos até 2012, último ano em que há dados estatísticos consolidados) não é tão má quanto se pinta.
Caso esse cenário se confirme, ajuda a explicar muitas coisas. Desde logo que a opinião pública, na qual me incluo completamente, se tem deixado contaminar por uma lenga lenga dita e repetida vezes sem conta. E, como todos sabemos, uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdadeira. Não é que a crise seja uma mentira, mas, talvez, os efeitos da crise o sejam, pelo menos, com a dimensão que é referida por quase todos de forma indiscutível. Será mesmo assim?
A continuar.
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9.10.13
Deamblogações vespertinas
Segundo o Público on-line:
"O primeiro-ministro afirmou esta quarta-feira que a proposta de Orçamento do Estado para 2014 não poderá ter outro objectivo senão levar mais longe a preocupação de reduzir o défice das contas públicas.
É de uma desonestidade e desfaçatez que utrapassam todos os limites do suportável. A indignação que sinto ao ler isto (porque recuso-me militantemente a ouvir a voz desta gente) é de um tamanho que não consigo descrever. Sinto-me atentado na inteligência que julgo ter, sinto-me enganado e vilipendiado como português. Eu saberia muito bem descrever como me sinto por palavras que não são nada bonitas. A pergunta que me faço várias vezes por dia é se não há meio de correr com esta corja de malfeitores que, em nome de algo que está por explicar (ideologia não é, interesses materiais próprios não sei...), cavam um buraco que, já toda a gente viu muito bem, é demasiado fundo para de lá sair. Dito por outras palavras, a reestruturação do défice é inevitável e esta gente continua a impor-nos medidas como se não fosse.
Começo a não ter palavras para descrever a revolta que sinto.
"O primeiro-ministro afirmou esta quarta-feira que a proposta de Orçamento do Estado para 2014 não poderá ter outro objectivo senão levar mais longe a preocupação de reduzir o défice das contas públicas.
“É o que está combinado com
os credores” e é o que “precisamos para recuperar a confiança dos
investidores”, disse Pedro Passos Coelho, que falava na abertura de uma
convenção empresarial organizada pela AIP com o tema “Sobreviver e
Crescer”."
Passo a passo (e não, não é um trocadilho com o nome do pm), Passos vai levando a água ao seu moínho, com desonestidade equivalente à teimosia que lhe é por todos reconhecida. Por estas declarações estrategicamente pensadas, vamos ficando a saber a conta-gotas que o ano orçamental de 2014 vai ser ainda mais duro do que têm sido os últimos três e que o primeiro-ministro, numa tentativa de desresponsabilização perante a opinião pública, invoca a troika ("os credores") para legitimar os esforços absolutamente desmedidos pedidos ao povo português. E depois remata, num perfeito exemplo de double talk, que precisamos desta austeridade toda "para recuperar a confiança dos investidores".
É de uma desonestidade e desfaçatez que utrapassam todos os limites do suportável. A indignação que sinto ao ler isto (porque recuso-me militantemente a ouvir a voz desta gente) é de um tamanho que não consigo descrever. Sinto-me atentado na inteligência que julgo ter, sinto-me enganado e vilipendiado como português. Eu saberia muito bem descrever como me sinto por palavras que não são nada bonitas. A pergunta que me faço várias vezes por dia é se não há meio de correr com esta corja de malfeitores que, em nome de algo que está por explicar (ideologia não é, interesses materiais próprios não sei...), cavam um buraco que, já toda a gente viu muito bem, é demasiado fundo para de lá sair. Dito por outras palavras, a reestruturação do défice é inevitável e esta gente continua a impor-nos medidas como se não fosse.
Começo a não ter palavras para descrever a revolta que sinto.
7.10.13
Deamblogações matinais 3
"(...) O mais grave é a completa impunidade com que tudo se faz, e o modo como
tudo continua na mesma, tudo como dantes quartel-general em Abrantes.
Criticado Machete sem muitas ambiguidades pelo Presidente da República
no 5 de Outubro, basta que o primeiro-ministro "desvalorize" - o que ele
está sempre a fazer e deve ser o timbre da "nova cultura política" do
Ministro Maduro - para que tudo volte ao "normal". Isto é que é muito
preocupante, a impunidade dos de cima, que podem fazer o que quiserem
sem consequências."
JPP, aqui
JPP, aqui
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Rui Machete
Deamblogações matinais
(escrito no dia 5 de Outubro)
Acordei sobressaltado.
Oiço tiros... Mais tiros... Vozes a chamar 'ai ai', 'ai
ai'... Mais uma rajada. Parece gêtrês, o som é igual a quando andávamos no
mato, em Machilukilo em 72 às ordens do cardeal Albazar.
...
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Silêncio tsf. Nem o Fernando Alves... aguardemos.
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Alô Esteban, penso, Esteban... Estás em São Pau a brincar
aos desenhos e nós aqui na linha da frente, sem protecção alguma, sujeitos
passivos de um desgoverno que nos leva para o fundo do poço a passos largos,
com um seguro que não cobre nada, que é o mesmo que não ter feito... Portas a
fazerem barulho, oiço eu agora, talvez do vento e do abandono em que isto
ficou. Ninguém já parece querer saber.
Do lado do dinheiro, preferia o Mouzinho à Maria Luís,
que anda a enganar-se há quase tempo tanto quanto aquele morreu e faz trocas de
empréstimos por dívida segura a taxas impensáveis.
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Mais uma Ra-jáda sem gaz. Desta vez fresca, sff, e com 1
rodela de limão.
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Esteban. Que nos morimos un poco más todos los dias e que
nuestros hijos no tienen futuro aqui. Es eso que aquellos que están en lo poder
quieren que creyamos. Putamadre...
...
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Vou à janela e vejo duas chaimites viradas uma contra a
outra. Lá dentro percebo o Pedro e o Paulo numa delas e o Tó Zé na outra. Acho
que se preparam para disparar. À volta, sem medo aparente, cada vez mais
pessoas. Homens, mulheres, crianças e velhos. Tudo à volta deles. Uns gritam e
protestam, mas a maior parte está silenciosa. Dão as mãos. Em silêncio. Parecem
rezar. Até os miúdos estão calados. Vê-se que sofrem. Ou de fome, ou de frio,
ou porque lhes roubaram a esperança. Sofrem calados e em união.
...
...
Dentro das chaimites, bem fechadas e isoladas do
exterior, os homens parecem indiferentes ao que se passa lá fora. Preparam-se
para disparar, é pelo menos o que parece pelos movimentos das máquinas e a
forma como apontam os canos.
...
...
Ai Timor, se outros calam cantemos nós.
...
...
De repente vejo um polícia numa moto de 70cm3, a fazer
fumo que pede o uso de máscara à Breaking Bad, a intrometer-se no meio. Começa
a multar as máquinas porque diz que estão mal paradas... Olha, o ridículo...
Então está-se tudo a preparar para a guerra e vem dali um bófia gordo e manda
parar tudo porque há dois beículos estacionados fora da zona limite legalmente
permitida para o efeito?... Isto só aqui, meu deus, sejas tu quem fores.
...
...
Esteban.
...
...
Hoje mesmo vi uma ma(n)chete com mais um artista, perdão,
ministro a dar o dito por não dito, a dizer que afinal não pediu nada desculpa
a Angola na qualidade de ministro dos estrangeiros, Angola esse ponto vivo da
nova e esperançosa democracia africana, por o MP português estar a investigar
umas balelas de tráfico de influências e desvios piquenos de milhões de notas
de um dólar (o que o meu filho mais novo diz que dá milhões de dólares, mas eu
não me acredito). Penso que foi o mesmo artista, perdão, ministro que comprou e
vendeu, perdão, comprou mas não vendeu, perdão novamente, comprou, vendeu mas
por preço igual, perdão outra vez!, comprou, vendeu mas com um lucro muito
muito muito piqueno acções de uma confraria de amigos do alheio, sem fins
lucrativos, chamada SLN (abreviatura de Só Larilas Nus, o que mostra bem a
natureza indesejável e incómoda da coisa).
...
...
As chaimites continuam na rua, indiferentes à multidão
cada vez maior e mais ruidosa e ao polícia que tenta fazer o seu trabalho. Tudo
lhes é indiferente. Absolutamente tudo. Lá dentro os condutores parecem gritar.
Gritam muito mas ninguém os ouve. Nem eles se ouvem a si próprios. É-lhes tudo
indiferente. Eles mesmos são o rosto da indiferença com que os olhamos, como os
encaramos dentro ou fora das chaimites de onde nunca parecem querer sair.
...
...
Aqui do conforto da minha janela penso que houve um dia
em que me apeteceu perceber como é que tudo funcionava com a, vejo hoje,
estúpida esperança de contribuir para mudar alguma coisa. Mal sabia então que
as chaimites são pior do que salas insonorizadas e escuras. Porque, para além
do mesmo efeito de alheamento, respira-se lá dentro um ar que deixa escapar um
gaz qualquer halucinogéno que produz alterações cerebrais radicais e faz com
que os contaminados percam rapidamente a noção do serviço que, dizem os livros,
deviam fazer temporariamente para depois seguirem a sua vida e dar lugar a
outros.
...
...
Preferi, até um dia em que eu próprio me juntarei à
multidão que dá as mãos ou que protesta, continuar a trabalhar até Agosto para o
Estado e só depois para mim e para os meus. Até um dia.
...
...
Alô Esteban... Esteban...
...
...
A crónica possível de mais um dia de loucura neste
rectângulo vizinho do mar.
...
5 de Outubro. É assim por aqui.
...
Roger.
Moore.
Perdão.
Over.
23.9.13
Deamblogações vespertinas
Quando oiço Passos Coelho a dizer que está iminente o segundo resgate, quando oiço Portas dizer que o comportamento da economia portuguesa está indiscutivelmente a melhorar (apenas porque quer garantir votos nas autárquicas para o CDS e se está nas tintas para o discurso oficial do Governo), quando vejo Seguro dançar vestido de calças de treino e sapatos de ténis e dizer umas coisas sem reflexão alguma à saída de um encontro com a troika, quando sei que os juros da dívida estão outra vez persistentemente acima dos 7% e, finalmente, quando oiço que a Moody's tem o comportamento da economia portuguesa novamente sob vigilância negativa, fico um pouco menos do que desfeito. Acho insuportável, absolutamente insuportável, que esta gente que se agarrou ao aparelho do Estado, que finge que nos governa, se mantenha hirta e firme nessa espécie de demanda, como se estivesse a fazer algo de útil e não a destruir, quiçá irremediavelmente, uma série de adquiridos que existiam e que faziam parte do nosso lastro como povo e como país. Sobretudo a destruir algo de intangível que sempre existiu e que era a coesão do país.
Acho igualmente insuportável a irresponsabilidade com que se fala em segundo resgate ou em "programa cautelar" (novo calão a decorar porque, já se percebeu, vai ser utilizado "ad nauseam" nos próximos tempos). Passos, Portas e Seguro têm na mão, literalmente, o futuro de Portugal e dos portugueses. Isto será muito diferente com o fim da troika e a consequente devolução da soberania financeira (por precária que seja) ou com a manutenção do país sob coordenação externa. Lembro que é essa mesma coordenação que já assumiu que o que determinou anteriormente falhou redondamente e não apenas aqui. Ora, como não se vêem quaisquer mudanças, é por isso que temo o pior se esse segundo resgate for para a frente. E a continuarmos assim, vai mesmo.
Optimista na vontade, pessimista na razão, é o que estou; eu como muitos milhões de portugueses. O que me apetecia era mesma varrer com esta malta que traça os destinos do país e da sua gente. Não sei o que seria o dia a seguir, não sei o que nos estaria destinado, mas francamente cada dia que passa me parece mais que continuamos inexoravelmente a cavar mais fundo, tão fundo que não teremos maneira de sair, a não ser da pior maneira: com um perdão da dívida. Isso era tudo o que devíamos evitar. Tudo aquilo a que Passos, Portas e Seguro deviam renunciar. Mas são maus de mais e, para além de maus e incompetentes, estão-se, na verdade, pura e simplesmente nas tintas. Não querem saber. Pensarão, não sem alguma razão verdade seja dita, que isto existe há 900 anos e que outros 900 virão, que já atravessou crises parecidas e que os problemas que hoje vivemos também os portugueses do séc. XIX viveram. E chegámos aqui. Por isso, toca de garantir o deles, porque o resto há de aguentar e sobreviver. Melhor ou pior, é só uma questão de perspectiva, porque isso de adquirido, isso de expectativas, isso de cumprimento de pactos sociais, são tudo coisas que não interessam.
Acho igualmente insuportável a irresponsabilidade com que se fala em segundo resgate ou em "programa cautelar" (novo calão a decorar porque, já se percebeu, vai ser utilizado "ad nauseam" nos próximos tempos). Passos, Portas e Seguro têm na mão, literalmente, o futuro de Portugal e dos portugueses. Isto será muito diferente com o fim da troika e a consequente devolução da soberania financeira (por precária que seja) ou com a manutenção do país sob coordenação externa. Lembro que é essa mesma coordenação que já assumiu que o que determinou anteriormente falhou redondamente e não apenas aqui. Ora, como não se vêem quaisquer mudanças, é por isso que temo o pior se esse segundo resgate for para a frente. E a continuarmos assim, vai mesmo.
Optimista na vontade, pessimista na razão, é o que estou; eu como muitos milhões de portugueses. O que me apetecia era mesma varrer com esta malta que traça os destinos do país e da sua gente. Não sei o que seria o dia a seguir, não sei o que nos estaria destinado, mas francamente cada dia que passa me parece mais que continuamos inexoravelmente a cavar mais fundo, tão fundo que não teremos maneira de sair, a não ser da pior maneira: com um perdão da dívida. Isso era tudo o que devíamos evitar. Tudo aquilo a que Passos, Portas e Seguro deviam renunciar. Mas são maus de mais e, para além de maus e incompetentes, estão-se, na verdade, pura e simplesmente nas tintas. Não querem saber. Pensarão, não sem alguma razão verdade seja dita, que isto existe há 900 anos e que outros 900 virão, que já atravessou crises parecidas e que os problemas que hoje vivemos também os portugueses do séc. XIX viveram. E chegámos aqui. Por isso, toca de garantir o deles, porque o resto há de aguentar e sobreviver. Melhor ou pior, é só uma questão de perspectiva, porque isso de adquirido, isso de expectativas, isso de cumprimento de pactos sociais, são tudo coisas que não interessam.
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20.5.13
Deamblogações matinais
"Portugal é neste momento um país nu. Quer dizer, um país sem nenhum álibi histórico, entricheirado na sua confinada faixa atlântica, sem possibilidade de sonhar outro sonho que não o seu próprio, caseiro. Nós passámos séculos a fugir de nós mesmos enquanto apenas portugueses. Fuga simultaneamente estelar e criadora que não permitiu nunca que nos encontrássemos connosco mesmos. Fomos sempre outros. Esta fuga é agora impossível. (...) A nossa aventura histórica é a de um povo que viveu sempre em bicos de pés, acima das suas possibilidades reais, esperando tudo de milagres que às vezes aconteciam. (...) Quando os desastres aconteceram, descobriu-lhe logo o antídoto, criando a especialidade lusitana por excelência de transfigurar os alcáceres-quibires reais em aljubarrotas fictícias."
Eduardo Lourenço, 1975
16.4.13
Deamblogações matinais
«“Este é
provavelmente o pior momento para Portugal e para a Irlanda” porque “as
pessoas estão a sofrer”, afirmou Katainen referindo-se aos efeitos da
austeridade nos dois países e em resposta a inúmeras críticas de vários
deputados à estratégia de resolução da crise da dívida pela zona euro.
“Mas
qual é a alternativa?”, prosseguiu Jyrki Katainen, primeiro ministro da Finlândia, interrogando-se: “Se estes
países pararem a consolidação [orçamental] quem é que lhes vai
emprestar dinheiro?” “Estamos a apoiar os países em dificuldades, mas
estes também têm de fazer a sua parte”, disse ainda.»Esta notícia vem no Público de hoje. Por um lado, compreendo o que diz o primeiro ministro finlandês, mas por outro fico enervado e revoltado com esta bula para curar a crise que todos os burocratas repetem à exaustão. E fico ainda mais revoltado quando vejo a fome e a miséria voltarem ao meu país, um país em que oiço o impensável nos dias de hoje em qualquer democracia civilizada: uma criança abster-se de comer para dar ao seu irmão porque é mais pequeno, precisa mais e não há para todos. Revolve-me as entranhas e não consigo saber bem o que fazer.
12.3.13
Deamblogações matinais II
Ontem, no Público, a historiadora e investigadora Fátima Bonifácio deu uma excelente entrevista, na qual refere algumas coisas que me parecem muito importantes nos dias que correm:
1. Que o paradigma social e económico está a mudar definitivamente e sem possibilidade de regresso ao passado;
2. Que, nessa medida, as manifestações de rua e outras do mesmo tipo são totalmente inócuas e desfasadas da realidade, uma vez que pretendem a reposição de direitos e regalias que não voltarão;
3. Que essa mudança de paradigma criou, definitivamente, uma camada de desempregados que não será reabsorvida pelo tecido económico (especialmente verdade em Portugal);
4. Que a sociedade pacífica que conhecemos pode acabar;
5. Que falta decência e decoro em diversos dos nossos políticos (não apenas nos nossos, também em muitos políticos europeus);
6. Que a Europa tal como existe actualmente pode (e vai) desaparecer porque não conseguirá suster a moeda única;
7. Que a cultura e o humanismo (e, por consequência, a ética) deixaram de fazer parte da cartilha de valores, sendo substituídos por uma tecnocracia sem fim.
O princípio da crítica não é mau por si só. Quando os caminhos são ínvios e pouco claros, o primeiro passo para a escolha passa por saber aquilo que não se quer. É sempre assim em qualquer processo de escolha múltiplo.
Pode ser demagógico criticar-se quem critica dizendo que apenas critica sem propor qualquer solução alternativa. Porque isso pode não ser verdade. O processo de renúncia vai, ele próprio, ajudando a formar com consistência uma opção, ainda que a mesma possa não ser completa e suficientemente abrangente.
Vivemos actualmente tempos de uma dificuldade tremenda em que salta à vista o que é que está mal, sem que salte à vista como é que ficaria melhor (não é com certeza com slogans do tipo "abaixo a troika" ou "aumentem os salários"). Mas podemos e devemos perceber o que não queremos. Esse é o verdadeiro primeiro passo para a ultrapassagem da crise.
1. Que o paradigma social e económico está a mudar definitivamente e sem possibilidade de regresso ao passado;
2. Que, nessa medida, as manifestações de rua e outras do mesmo tipo são totalmente inócuas e desfasadas da realidade, uma vez que pretendem a reposição de direitos e regalias que não voltarão;
3. Que essa mudança de paradigma criou, definitivamente, uma camada de desempregados que não será reabsorvida pelo tecido económico (especialmente verdade em Portugal);
4. Que a sociedade pacífica que conhecemos pode acabar;
5. Que falta decência e decoro em diversos dos nossos políticos (não apenas nos nossos, também em muitos políticos europeus);
6. Que a Europa tal como existe actualmente pode (e vai) desaparecer porque não conseguirá suster a moeda única;
7. Que a cultura e o humanismo (e, por consequência, a ética) deixaram de fazer parte da cartilha de valores, sendo substituídos por uma tecnocracia sem fim.
O princípio da crítica não é mau por si só. Quando os caminhos são ínvios e pouco claros, o primeiro passo para a escolha passa por saber aquilo que não se quer. É sempre assim em qualquer processo de escolha múltiplo.
Pode ser demagógico criticar-se quem critica dizendo que apenas critica sem propor qualquer solução alternativa. Porque isso pode não ser verdade. O processo de renúncia vai, ele próprio, ajudando a formar com consistência uma opção, ainda que a mesma possa não ser completa e suficientemente abrangente.
Vivemos actualmente tempos de uma dificuldade tremenda em que salta à vista o que é que está mal, sem que salte à vista como é que ficaria melhor (não é com certeza com slogans do tipo "abaixo a troika" ou "aumentem os salários"). Mas podemos e devemos perceber o que não queremos. Esse é o verdadeiro primeiro passo para a ultrapassagem da crise.
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