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23.9.13

Deamblogações vespertinas

Quando oiço Passos Coelho a dizer que está iminente o segundo resgate, quando oiço Portas dizer que o comportamento da economia portuguesa está indiscutivelmente a melhorar (apenas porque quer garantir votos nas autárquicas para o CDS e se está nas tintas para o discurso oficial do Governo), quando vejo Seguro dançar vestido de calças de treino e sapatos de ténis e dizer umas coisas sem reflexão alguma à saída de um encontro com a troika, quando sei que os juros da dívida estão outra vez persistentemente acima dos 7% e, finalmente, quando oiço que a Moody's tem o comportamento da economia portuguesa novamente sob vigilância negativa, fico um pouco menos do que desfeito. Acho insuportável, absolutamente insuportável, que esta gente que se agarrou ao aparelho do Estado, que finge que nos governa, se mantenha hirta e firme nessa espécie de demanda, como se estivesse a fazer algo de útil e não a destruir, quiçá irremediavelmente, uma série de adquiridos que existiam e que faziam parte do nosso lastro como povo e como país. Sobretudo a destruir algo de intangível que sempre existiu e que era a coesão do país.
Acho igualmente insuportável a irresponsabilidade com que se fala em segundo resgate ou em "programa cautelar" (novo calão a decorar porque, já se percebeu, vai ser utilizado "ad nauseam" nos próximos tempos). Passos, Portas e Seguro têm na mão, literalmente, o futuro de Portugal e dos portugueses. Isto será muito diferente com o fim da troika e a consequente devolução da soberania financeira (por precária que seja) ou com a manutenção do país sob coordenação externa. Lembro que é essa mesma coordenação que já assumiu que o que determinou anteriormente falhou redondamente e não apenas aqui. Ora, como não se vêem quaisquer mudanças, é por isso que temo o pior se esse segundo resgate for para a frente. E a continuarmos assim, vai mesmo.
Optimista na vontade, pessimista na razão, é o que estou; eu como muitos milhões de portugueses. O que me apetecia era mesma varrer com esta malta que traça os destinos do país e da sua gente. Não sei o que seria o dia a seguir, não sei o que nos estaria destinado, mas francamente cada dia que passa me parece mais que continuamos inexoravelmente a cavar mais fundo, tão fundo que não teremos maneira de sair, a não ser da pior maneira: com um perdão da dívida. Isso era tudo o que devíamos evitar. Tudo aquilo a que Passos, Portas e Seguro deviam renunciar. Mas são maus de mais e, para além de maus e incompetentes, estão-se, na verdade, pura e simplesmente nas tintas. Não querem saber. Pensarão, não sem alguma razão verdade seja dita, que isto existe há 900 anos e que outros 900 virão, que já atravessou crises parecidas e que os problemas que hoje vivemos também os portugueses do séc. XIX viveram. E chegámos aqui. Por isso, toca de garantir o deles, porque o resto há de aguentar e sobreviver. Melhor ou pior, é só uma questão de perspectiva, porque isso de adquirido, isso de expectativas, isso de cumprimento de pactos sociais, são tudo coisas que não interessam.

31.3.13

Deamblogações nocturnas

Acho que está criado um marasmo na vida política portuguesa, sob o manto de algum nervosismo e de ser perpassado que está imensa coisa a acontecer. Não está. Para além do Sócrates vir passear a sua vaidade e arrogância na tv, pouco tem acontecido. Mas, aos olhos dos incautos, muito parece estar a acontecer. Veja-se: fala-se em remodelação governamental necessária e inadiável; o PS vai apresentar uma moção de censura ao Governo; PS e PSD estão irremediavelmente afastados (mesmo? não acredito); PSD e CDS mostram divergências cada vez mais profundas; diz-se que o CDS quer impôr alguém na pasta da Economia para fazer um contraponto à política de austeridade recessiva defendida por Gaspar; pode vir o chumbo do OE/13 pelo TC; e mais uma ou outra coisa do género.
Mas paremos para pensar um pouco. Em que é que isto verdadeiramente mexe com o que nos vai acontecer como país? Infelizmente, penso que não mexe ou mexe muito pouco, incomensuravelmente menos do que aquilo que seria desejável. De tudo o que se disse, o chumbo do TC é o mais grave, e é-o não por motivos internos, mas apenas porque isso influenciará a opinião da troika e, assim, de quem nós dependemos para sobreviver. Como José Manuel Fernandes escrevia no Público de sexta feira, Portugal entrou em bancarrota, só não teve de o assumir porque a troika tomou conta disto. Se o TC chumbar o OE/13, dificultará necessariamente a libertação da próxima tranche programada, o que complicará ainda mais a já difícil sétima avaliação que está a levar a cabo (que, ao contrário do que se diz, ainda não está concluída).
O que se passa aqui no burgo é, infelizmente, hoje em dia pouco ou nada relevante para os nossos destinos. PS e PSD bem podem figir que se degladiam, o PR bem pode apelar ao bom senso e à concórdia e o Governo pode ser remodelado as vezes que forem precisas. O que conta não é isso. O que verdadeiramente conta é a cabeça de algumas iluminárias do norte da Europa a quem, sabe-se lá por que mistérios, foi dado o poder de decidir sobre 10 milhões de almas.
Talvez isto tenha algo que ver com a verdadeira debandada de políticos para os canais de televisão com o propósito de comentar a vida política.
A desenvolver.

25.2.13

Deamblogações matinais

O que é criticável neste Governo é que se limita a reagir. Não age nem antecipa. Reage. E o problema é que, à velocidade que as coisas se passam, o tempo da recção é sempre lento, já vem tarde e não resolve.
Nesta sétima avaliação da troika começa a falar-se em renegociação dos prazos, da dívida, das condições, etc., etc. O próprio Governo começou já a ensaiar o discurso da renegociação para consumo interno. A questão é que a economia está exsangue, os portugueses desempregados, as famílias depauperadas e sem esperança. A realidade é dramática para muitos, mas tão ou mais dramático é o facto de a luz que vem ao fundo do túnel não parecer ser a da saída mas sim a do combóio que nos vai passar por cima.
O editorial do Público de hoje acaba dizendo o seguinte: "o pior que pode acontecer a Portugal é assistir impávido e sereno à sua morte económica, social e política sem ter sequer a firmeza para a tentar contrariar". Nem mais.

24.9.12

Cuide-se de onde se está para ninguém se espantar para onde se vai

"É mesmo a Grécia que aí vem e não é porque as pessoas não aceitem muita austeridade, já aceitaram, é que não aceitam pagar pelo falhanço de um governo a quem dão tudo e tudo é desbaratado, nem por um governo que parece hostiliza-los pela exibição de flagrante injustiça que é a TSU. Esta é que devia ser “a situação de grande gravidade”. E é de responsabilidade do governo."

JPP, aqui

4.9.12

Deamblogações matinais

A troika propõe a extensão para seis dias do trabalho semanal prestado na Grécia. Eu há cerca de dois meses que desliguei das notícias porque, pura e simplesmente, fiz um burn out, mas ainda fico espantado com algumas coisas que vão acontecendo ou que se vão dizendo. Que legitimidade têm as troikas desta vida para impôr seis dias de trabalho num país?! Dir-se-á a mesma que têm para impôr as medidas que têm sido tomadas cá e em alguns outros países. Mas é que se há coisas e medidas que se justificam, outras são pura e simplesmente intromissões inadmissíveis nas vidas dos cidadãos e obrigam a que os mesmos se pronunciem especificamente (não indirectamente através da eleição de um Governo como foi o caso recente da Grécia) sobre se querem ou não tais medidas. Mais: está cada vez mais à vista de todos que as medidas defendidas pelas troikas estão a fazer os países por elas afectados entrar numa espiral negativa de onde não será possível sair.