4.7.18

In memoriam


Morreu Ricardo Camacho, teclista, compositor, produtor da Sétima Legião... e médico. Sempre me fascinou esta capacidade de fazer coisas tão distintas quanto ser músico, tocar em palco, pensar e viver coisas relacionadas com tudo isso e, ao mesmo tempo, numa espécie de nova roupagem, ser-se alguém noutro universo completamente diferente.
Lembro-me muito bem de ter esta sensação com o Ricardo Camacho, que só conhecia por ser quem era. Julgo que é preciso alguma coragem, ao mesmo tempo sentir-se bem por dentro das suas várias peles. De resto, a Sétima Legião é pródiga em situações dessas já que o letrista e teclas Francisco Ribeiro de Menezes é o actual embaixador de Portugal em Espanha...
Desapareceu, pois, assim, mais uma pessoa importante no panorama musical português, alguém por quem não se dava, tamanha era a discrição.
In memoriam, a um deus desconhecido.

21.6.18

Escritos



Acho que já aqui contei que, há bastantes anos atrás, andei muito tempo até conseguir que a música deles me entrasse. Como se alguma coisa não encaixasse e as noções de ritmo e acordes que eu tinha não concordassem com o que era proposto. Até ao dia. E a partir desse dia, foi como se tudo tivesse encontrado o seu lugar. Os neurónios andaram às cabeçadas mas lá acabaram por criar novas sinapses que acolheram o jorro de criatividade que vinha dali.
Passados uns anos, tive uma decepção ao vê-los no Alive, num concerto frio e esquemático, sem grande fulgor. Depois veio o adeus no Madison Square Garden, em mais de 3 horas de música e convidados, com um final apoteótico, cheio de lágrimas por uma despedida fora de tempo e contra-natura. Afinal, porquê? e para quê?, eram as perguntas que se impunham. Só por falta de oportunidade (os bilhetes esgotaram em menos de 15 minutos) não fiz uma total loucura para estar nesse concerto e fiquei triste por nunca ter tido a oportunidade de os ver ao vivo como deve ser, a sentir tudo aquilo que sinto quando os oiço em disco. Mas depois renasceram - como não podia deixar de ser - e o que era o ponto final não foi senão um ponto e vírgula, nem sequer muito longo. Como quase todos, fiquei nessa altura com um sentimento misto entre o contentamento e a desilusão pelo facto de James Murphy ter dado uma golpada mediática (terá sido isso?). Mas rapidamente me passou. Que se lixasse a golpada mediática! O que isso significava era a possibilidade de conseguir concretizar aquela minha intenção. Como não fui a Paredes de Coura em 2016, a coisa ficou adiada. Até ontem.
Até ontem...
E ontem valeu todas as vezes que não pude ver, não pude ir, não pude comparecer à festa. Porque é de uma festa que se trata, de uma reunião de amigos, com dança, abraços, beijos, saudades, nostalgia e alegria. Muita alegria. Concretizei esse meu desejo de reunir ao vivo toda a energia que ando há anos a acumular cada vez que oiço LCD, libertando-a toda, até à última gota de suor. E foi mesmo muito suor que daqui saiu. E que bom que foi.

Vale a pena ler a crítica do Vítor Belanciano à primeira noite de concerto - AQUI - que acaba assim, no que é uma síntese quase perfeita do que se passou:

" Quase duas horas depois do início, All my friends é a síntese de tudo, é colar os cacos do que se ouviu e sentiu antes. É sorrir, lacrimejar ou saltar para esse lugar onde cada um poderá sentir-se confortável com essa sensação de que não se está só. É perceber que os grandes momentos, o que se leva daqui, são coisas minúsculas como um enorme concerto entre amigos."

6.6.18

Escritos



Fechemos os olhos por um momento.

Pensemos que Bruno de Carvalho estava cheio de razão, aliás, tinha toda a razão do seu lado e que todas, mas mesmo todas, as pessoas que se têm manifestado contra as suas decisões, atitudes, etc. estavam erradas, completamente erradas.

Também por instantes, imaginemos que o que Bruno de Carvalho queria mesmo era o bem do Sporting, protegendo os superiores interesses do Sporting (essa expressão tão esvaziada de conteúdo de tantas e tantas vezes que é usada).

Continuando com os olhos fechados neste exercício mental, vamos agora pensar que toda essa gente que contraria o presidente do Sporting queria o mal do clube, a sua ruína e mesmo o seu desaparecimento.

E que Bruno de Carvalho, por detrás daquela máscara de emoções incontidas e descontroladas, era um homem sensato, honesto, visionário, apenas um pouco truculento porque demasiado transparente.

E, também, que, do outro lado, todos os demais sócios e apoiantes do Sporting eram desonestos, calculistas, cínicos e mentirosos.

Era tudo assim, sem tirar nem pôr.

Abramos agora os olhos sabendo que era tudo tal e qual assim.

No pressuposto desta realidade assim criada, o que é que Bruno de Carvalho, homem decente , honesto, bem intencionado, crente dos valores sportinguistas, seguidor e protector dos superiores interesses do Sporting, faria? Por mais que lhe custasse, por muito mau que ele achasse que era para o Sporting, por muito frustrado que se sentisse por ninguém o entender e conseguir antecipar o que só ele e a sua direcção conseguiam antever como o futuro correcto para o clube, o que é que ele faria?

Vendo que o valor do Sporting se delapida de dia para dia, que a sangria da saída de jogadores está longe de estar afastada, que os sócios não se entendem, que os estatutos não lhe permitem tomar as medidas que tem tomado, que existem acções contra si, a sua direcção e as decisões que têm tomado, que não há treinador, que não há equipa médica, que é extremamente difícil que venha alguém estável e dedicado treinar um clube nestas condições, que não estão garantidas verbas para poder comprar jogadores com a qualidade que um clube destes tem de ter, que é assumido publicamente por todos - repito: POR TODOS (inclusive seus apoiantes) - que não estão reunidas as condições mínimas para dar continuidade a este projecto, o que é que ele faria?

Meus caros, só há, feliz ou infelizmente, uma resposta: demitir-se-ia e, com ele, toda a direcção.

Aí sim, a bem dos superiores interesses do Sporting.

Mas não é isto que acontece pois não? Não, não é.

Então, se calhar, a realidade acima descrita não corresponde à verdade...

Pois, se calhar, não corresponde à verdade.

Olha que grande maçada.


23.5.18

In memoriam


O Almoço do Trolha, Júlio Pomar, 1946-50

22.5.18

Escritos



O meu problema não é com (mais) esta época semi-perdida do Sporting, muito menos com o jogo contra o Atlético de Madrid ou com a final da Taça de Portugal. O meu problema também não é com a operação Cashball, embora a mesma seja (aparentemente) indiciadora de que, afinal, quem manda em Alvalade não será assim tão impoluto. O meu problema nem sequer é com a barbaridade que teve lugar há oito dias em Alcochete.
O meu problema é com o presidente do Sporting, com a sua prepotência, arrogância, sobranceria, superioridade, subjectivismo, adjectivismo, verborreia, má-educação, patetice, maniqueísmo, falta de inteligência, populismo, anti-democraticidade, demagogia e egocentrismo. O meu, nosso, problema é termos um presidente que acalentou a esperança de se eternizar como presidente do clube/SAD/etc. (à semelhança do seu ídolo confesso JNPC) sem nunca imaginar que um dia um cenário destes estaria montado e se veria contra tudo e todos e a um pêlo de ser corrido a pontapé por todos menos os sócios. O meu, nosso, problema é, precisamente, os sócios não perceberem realmente quem está sentado na cadeira do poder no Sporting: um populista que não olha a meios para atingir fins, que mente, que divide, que desdiz o que jura com a mesma facilidade com que se bebe um copo de água, que não hesita em apelar ao "pathos" da forma mais alarve para, com tanta ou mais vontade com que parte o odeia, virar a seu favor a outra parte, pronta a defendê-lo e jurá-lo como eterno líder. "Eles são os meus soldados", disse este patético ditador do Lumiar, referindo-se aos adeptos que estão ao seu lado.
Juro que nunca tinha visto nada tão perto que me fizesse lembrar a longínqua Venezuela ou a-mais-próxima-mas-ainda-assim-longínqua Hungria, relativamente às quais tenho por hábito rir de escárnio pois tão evidente (e patética) é a chantagem emocional que levou aqueles povos a estarem na situação em que estão.
Não tenho muitos motivos para esperar que os sócios do Sporting sejam racionais se foram agora chamados a eleger novos órgãos sociais, porque isto de futebol e razão tem que se lhe diga. Mas gostaria que, pelo menos, algum bom senso imperasse na hora do voto. Brunos de Carvalho têm, evidentemente, direito a tentar tudo fazer para pôr em prática as ideias que têm, mesmo que elas sejam muito más e corram o risco de arruinar instituições. Mas quem vota deve ter o mínimo de discernimento para escolher senão o melhor, o menos mau.
Este que (ainda) está, é perigosamente mau. Oxalá este pesadelo acabe rápido para voltarem as águas turvas dos maus resultados. Com esses podemos nós bem.

9.5.18

The Jesus And Mary Chain - Happy When It Rains

27.4.18

Escritos


Punha-me a pensar sobre a questão das escutas e da sua divulgação e não conseguia decidir sobre se estava ou não de acordo. Se por um lado me fazia impressão a divulgação de tudo aquilo e atentava contra a reserva que entendo dever existir quanto à vida privada de cada um de nós, por outro o que está em causa diz, efectivamente, respeito a todos, extrapolando em muito a mera esfera privada dos envolvidos.
Se pensarmos que muitos milhões de portugueses - quase todos, na verdade - nunca viram nem têm noção do que é um milhão de euros, ver e ouvir esta gente trocar favores e proteger-se mutuamente a troco de dezenas, centenas e milhares de milhões, deve-nos indignar a todos. É tempo desta gente perceber que não pode estar acima dos outros, como aliás sempre aconteceu, e que também está sujeita à justiça e aos códigos penais e a todas as leis que se lhes apliquem.
Mas não pode ser a sede de vendetta que justifica a divulgação das escutas e dos depoimentos porque isso seria combater um mal com outro mal, por motivos errados e vis. É verdade que mete nojo o que esta gente fez (e ainda faz), mas o tempo do pelourinho já acabou e todos nós temos a obrigação de lutar pela dignificação da pessoa humana, seja ela quem for e independentemente do que tenha feito. Existem tribunais para julgar, sendo que as sessões são públicas, pelo que quem quiser que assista ao que lá se passa. É assim e deve continuar a ser assim nas sociedades democráticas.
Se não é, pois, uma questão de vendetta, a justificação para a divulgação só pode estar no interesse público, sobre o qual muito se tem falado por estes dias. Houve, assim, três factos que me ajudaram a estabilizar uma posição sobre este assunto: a discussão havida no programa Prós e Contras da rtp1 (no âmbito do qual apenas um jornalista defendeu a divulgação dos depoimentos), uma crónica do João Miguel Tavares no Público e um artigo de opinião do Ricardo Costa no Expresso on-line chamado "Isto não é não jornalismo", que deixou infelizmente de estar acessível a não assinantes.
De facto, o que está em causa é de tal envergadura e tão estruturante do ponto de vista da forma como as teias sociais, económicas e políticas estão construídas no nosso país, que não pode senão concluir-se que existe verdadeiro interesse público na divulgação dos depoimentos.
É evidente que toda a gente tem uma opinião sobre a culpabilidade de Sócrates e que, se ele for absolvido em tribunal por falta de provas, será extremamente difícil acreditar que o sistema judicial fez o trabalho tal como devia e que não falhou rotundamente. Mas, convenhamos, isso já acontecia antes da divulgação dos interrogatórios e é assim quase desde o início, até porque, mesmo antes do início, já muita gente achava que Sócrates, Salgado, Bava et al. eram corruptos. Não foi portanto esta divulgação que operou uma mudança na opinião pública. Ela só aprofundou o conhecimento sobre as matérias em discussão, o que é de um valor colectivo inestimável.
Daí eu achar que, como sociedade, só temos a ganhar com toda a informação que possamos conhecer oriunda de todos estes processos que envolvem a gente que povoa as cúpulas do poder social, político e económico do nosso país. Repito que não é para os humilhar - sendo embora verdade que essa tentação está sempre presente - mas sim para tornar a nossa sociedade um pouco mais horizontal, assim contribuindo de algum modo para que o sentimento de impunidade que muitos têm e acalentam há dezenas de anos se aplaque de vez. Para que Portugal dê oportunidade a todos em igual medida, deixando de reservar uns poucos muitos lugares de topo para os muitos poucos que a eles parecem destinados, pilhando à grande e despudoradamente, cavando maiores injustiças sociais e económicas, retirando do todo que a todos era destinado para benefício dos poucos que dele fazem proveito.
Acho mesmo que a SIC fez bom jornalismo e estou hoje plenamente convencido de que a divulgação que foi feita contribuiu na sua medida para destapar mais um pouco do véu da desvergonha com que muitos andam tapados.

6.4.18

Deamblogações matinais


  • Estou farto, absolutamente farto, do personagem que dá pelo nome de Bruno de Carvalho e que, infelizmente, lidera o meu clube.
  • Considero inadmissível a falta de transparência e a complacência dos OCS portugueses relativamente ao Governo e à verdadeira austeridade que o mesmo impôs, embora totalmente encapotada, mas que se vê no definhar rápido e notório dos serviços públicos (no sentido mais lato possível).
  • É incrível o sentimento misto que a prisão de Lula cria, não sei bem explicar porquê. Se cometeu crimes e se esses crimes dão cadeia, que outro resultado seria possível? Tantos pruridos.
  • O Brexit adensa-se como trapalhada e embróglio e a moral das tropas está cada vez mais em baixo com as divulgações que, também aí, houve dedo da Cambridge Analyctica a falsear os resultados que de outro modo teriam sido favoráveis à manutenção do RU na UE.
  • O Cristiano Ronaldo é, já uma lenda, e eu digo-o porque nunca gostei particularmente da personagem por diversas razões que não importam, mas não há dúvida que só quem não quer ver é que não se dobra perante tudo aquilo que ele fez e continua a fazer e - mais - a forma como reage ao que fez e faz, numa demonstração de total lucidez sem deslumbre. A ele, uma vénia.
  • Os mercados andam numa montanha russa de sobe e desce ao sabor do humor diário do Mr. POTUS que, ora declara uma guerra comercial com a China, ora diz que não disse o que disse e que, afinal, não há guerra nenhuma. Haja paciência e carteira e tudo um dia dará certo porque não é por ser o POTUS que está imune à lei da impermanência.
  • Por falar em mercados, descobri recentemente que o apresentador da CNN Richard Quest, jornalista financeiro respeitável e que eu gosto imenso de ver no programa diário Quest Means Business, foi detido em 2006, às 3 da manhã, no Central Park, com metanftaminas no bolso do casaco e uma corda ao pesçoco presa aos genitais. Realmente, sabe lá Deus o que se passa dentro da cabeça de um homem...
  • Apercebi-me que estamos outra vez em plena guerra fria quando soube que o RU está a controlar a informação sobre a recuperação do espião Skripal, fazendo crer que o mesmo continua em estado crítico, quando tudo aponta para que esteja a recuperar. Era assim no jogo dos espiões e da contra-informação. Pelos vistos, voltou. Qualquer dia há um novo WarGames.
  • O Brasil está no meio de uma macumba profunda e até João Gilberto parece afectado no ocaso da vida. Nem coragem tenho para procurar saber se a filha Bebel conseguiu ou não rebentar a porta e entrar no apartamento do pai. É triste quando acaba assim. 

27.3.18

Escritos



Vi isto de uma tirada, no que ficou conhecido como bindge watching, e penso em como, no Brasil, o corajoso não é ser ladrão ou corrupto ou aldrabão ou mentiroso ou filho da mãe ou safado, numa expressão que lhes é tão cara, o corajoso é ser honesto, honrado, cumpridor, moral, íntegro, isso é que é corajoso numa sociedade em que, no topo escorre lama por todos os lados, bafienta e suja, cheia de esquemas, interesses, contra-interesses, jogos de bastidores e demais quejandos, tendo por único interesse - único interesse, qual povo, qual progresso, qual ordem, qual quê! - a grana que vai pintar no final. Penso em como deve ser foda (numa expressão idiomática) ser polícia e não ser subjugado pelo sistema, continuando a acreditar que os maus vão ter o que merecem e que os bons vão vencer. Será mesmo que eles, os bons, acreditam nisso? Penso também nisso, no que os fará correr, dar o corpo às balas, serem identificados como contra-sistema, estarem do lado errado da barricada, o lado que tenta puxar o país para o lado bom, honrando o seu lugar na História tão sempre adiado, sempre demasiado adiado, numa incansável fuga a um destino traçado. Afinal, Deus não é brasileiro? É não... Penso em como tudo isto cansa, cansa mesmo, de ver, de pensar, de imaginar como será viver num país em que o mecanismo vai do trocador do esgoto ao presidente da república, minando tudo pelo meio - que na verdade é tudo mesmo - desde os serviços públicos às empresas mais importantes públicas e privadas. Deve ser foda, uma foda puta (outra expressão idiomática). E depois penso na crença daquele povo que se dá ao trabalho de vir para as ruas manifestar o seu apoio ao Lula, à Dilma, ao Temer e a todos os lulas, dilmas e temers daquele país, que são tantos quantos os quilómetros quadrados que o compõem. É preciso coragem, porra, coragem e alguma loucura para continuar a acreditar que em Brasília se pensa nos confins do Sertão, da Rondónia ou do Acre, lá longe, em que não há paletós nem gravatas, dinheiro ou interesses, acreditar que os poderesos, esses mesmos que lideram o mecanismo, se importam com eles, o povo, o mesmo que sai às ruas e se manifesta sempre que a polícia mata alguém que tem posições incómodas e sujeitas a mostrar mais podres. Acabo de ver o seriado, bem confortável num país em que, nem que seja pela pequenez, a corrupção também me parece pequena, e sinto-me exausto. É. É foda ser-se dos bons. E penso em como talvez não seja apenas ali.

13.3.18

Menino do Rio

5.3.18

Escritos

OLHE AQUI, MR. BUSTER *

Rio de Janeiro , 1962

* Este poema é dedicado a um americano simpático, extrovertido e podre de rico, em cuja casa estive poucos dias antes de minha volta ao Brasil, depois de cinco anos de Los Angeles, EUA. Mr. Buster não podia compreender como é que eu, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a "Latin America", como dizia ele. Eis aqui a explicação, que Mr. Buster certamente não receberá, a não ser que esteja morto e esse negócio de espiritismo funcione. 

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo 
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills. 
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue 
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood 
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia 
Está muito certo que em ambas as residências 
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial 
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo 
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar 
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da 
Coréia. 
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas 
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo 
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho 
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi 
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros. 
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell 
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do 
ano. 
Está tudo muito certo, Mr. Buster - o Sr. ainda acabará governador do seu estado 
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas. 
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster 
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster: 
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha? 
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal? 
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?
Vinicius de Moraes

22.2.18

Desculpe, importa-se de repetir?

Título de uma notícia de hoje:

Trump quer dar armas aos professores para prevenir tiroteios nas escolas


Isto corresponde à filosofia de responder com violência à violência, em vez de tentar resolver as causas da violência. É como o pai que dá uma tareia ao filho depois de o ver a roubar: no imediato compreende-se e vai ao encontro do instinto primitivo, mas sabemos que não dá bom resultado. É só uma questão de tempo para ver.


19.2.18

Escritos

A nossa mãe

Encontro-me com o António. Tem 26 anos e está a pensar em voltar para Portugal. Falamos durante três horas. Descobrimos que somos muito parecidos. Conhecemos os mesmos lugares. Temos saudades das mesmas coisas.
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Ele tem saudades da mãe dele que nasceu em 1969. Eu tenho inveja das saudades dele e tenho saudades da minha mãe que morreu em 2016.
A minha mãe não era a minha melhor amiga. Também era isso mas era, sobretudo, a minha mãe. Mãe há só uma: é difícil perceber-se esta grande verdade. Da minha inveja só fica o conselho: aproveita bem o tempo e o amor da tua mãe. Ouve bem o que ela diz. Ri-te com ela. Defende-a sempre que puderes. Agradece a Deus a sorte que tiveste em ter uma mãe. Em ter uma mãe assim. E só em ter uma mãe.
Na Tristana e na Sara, minhas filhas, netas da Avó Inglesa, como tratavam a minha mãe, vejo as mães de todo o mundo. Sinto não só o amor como o divertimento e a admiração.
Ter mãe é uma grande sorte que passa. A minha bem me avisou que as mães sempre decepcionam. Mas morreu à mesma. Cada dia que passa tenho mais saudades dela, daquela pessoa que só ela era e que eu apreciava tanto.
No amor do António pela mãe vejo a sorte que tive e que tenho ainda, no passado, como lembrança e gratidão. Quem me dera que a minha mãe ainda estivesse viva. Dei-lhe sempre muito valor mas só depois de morrer é que percebi o valor imenso que tinha. Não era só alguém que queria o meu bem. Não era só a pessoa mais divertida que eu já conheci. Era a minha mãe. E perdi-a para sempre. Todos os dias.

MEC, aqui

7.2.18

Deablogações matinais


O que Elon Musk fez ontem foi, seguramente, dos maiores feitos que eu vi em vida, ao nível, em termos de importância para o mundo, da alunagem da Apollo 11 em 1969 (que não vi porque ainda não existia). Musk tem enormes defeitos, aliás prontamente apontados por muitos, mas é daquelas pessoas que, por tudo aquilo que faz e em que acredita, contribui decisivamente para o desenvolvimento da Humanidade. Chame-se-lhe louco, visionário ou ingénuo, chame-se-lhe mau gestor (a Tesla tem uma dívida absolutamente astronómica e não consta que tenha condições de vir a dar lucro), mas ele é decisivo para fazer andar as coisas, contribuindo de uma forma totalmente disruptiva para esse avanço. Ainda me lembro - há bem pouco tempo - quando encolhi os ombros ao ver o projecto dos túneis para carros por forma a evitar o trânsito nas cidades, mas o que é verdade é que já existe um projecto algures nos EUA, em que foi construído um túnel gigante por forma a testar a ideia. Até pode tudo acabar de uma maneira completamente diferente, mas esta ideia, tal como outras, contribuirá sem a mais pequena dúvida para estudar, pensar, desenvolver e executar uma solução alternativa ao modelo actual, qualquer que ela seja. A ideia, uma vez mais genial, de colocar no foguetão o seu próprio Tesla com um modelo vestido de astronauta, com câmaras instaladas para que nós possamos ver em tempo real o desenrolar da missão é quase comovente de tão fantástica que é. A mim, pelo menos, comove-me.
E depois, há o tributo a David Bowie. Mas isso já é outra história.
Estratosférico.

Starman SpaceX

David Bowie Starman

26.1.18


CINDY SHERMAN
Untitled Film Still #48
1979

23.1.18

Simon Sinek on Millennials in the Workplace

12.1.18

Shithole é ele


4.12.17

In memoriam


O gajo tinha uma granda pinta e lembro-me muito bem de ir ver os Xutos n'Os Belenenses, em 88, e de ficar um concerto inteiro a olhar para ele com um magnetismo próprio de quem atrai sobre si todas as atenções. Se o Tim era a voz, o Gui o sopro, o Kalú a energia e o Cabeleira a tripe, o Zé Pedro era o tipo que agarrava tudo e todos: pela postura, pela pinta, pela simpatia. Daqueles tipos que sabem quando rir e quando fazer cara séria, que estão bem em todo o lado, porque em todo o lado são (compreensivelmente) venerados. Existe, de facto, e sempre existiu uma certa veneração pelo Zé Pedro. Era o gajo que tocava melhor guitarra? Nem por sombras, e até dizem que era meio coxo a fazê-lo. Era o gajo que mais sabia de música? Não, embora soubesse muitíssimo. Era o gajo que melhor se explicava? Bastava ouvi-lo para responder. Era o gajo mais bonito? Se calhar também não, com aquelas marcas na cara vindas de outros tempos e vidas. E, no entanto... Pá, no entanto, era o maior, o tipo que arrastava multidões, conforme a comoção generalizada destes dias comprovou muito bem, o tipo que encantava tudo e todos. O gajo que vai ser lembrado, e muito bem e ainda bem.
A sensação que fica é que foi mesmo uma parte de nós que morreu com o Zé Pedro na semana passada, uma parte de mim sobretudo como adolescente quando ouvia à exaustão ISTO.
Já foi tudo, mesmo tudo, dito, mas eu também quero dizer que foi uma parte de mim que se foi, evaporada pela morte prematura deste gajo que viveu na minha cabeça durante tantos e bons anos.

27.11.17

Deamblogações matinais



Parece-me lapidar a irresponsabilidade total do Governo em (mais) esta matéria. É populismo do mais básico que existe, sem se perder um só segundo a equacionar as aparentemente enormes desvantagens que há com a mudança da instituição para o Porto. Mas, ainda que as vantagens ultrapassassem os inconvenientes, seria alguma vez admissível que a chefe máxima do Infarmed fosse apanhada na curva, conforme aconteceu? Há vícios que nunca mudam, para mal de todos nós.

24.11.17

Deamblogações matinais (tardias)

A mim o que mais me dói não é a morte do Pedro Rolo Duarte em si mesma, embora ela me mereça respeito e a reserva própria a este tipo de assuntos. O que me dói é desaparecerem tão cedo pessoas, cada vez mais pessoas, cada vez mais cedo e depressa. Talvez porque esteja a caminhar para a velhice? Talvez porque, de facto, cada vez mais gente desaparece mais cedo? Ou talvez seja esta coisa da geração dos cinquenta, que é o que diz a Inês?
Eu cá não sei mas sei que perdemos todos colectivamente, sei que tenho medo do desconhecido e sei que me cai sempre a ficha de dar valor ao que tem valor e de relativizar tudo o resto.

22.11.17

Miss



u

21.11.17

Sonic Youth - The Sprawl



To the extent that I wear skirts and cheap nylon slips
I've gone native
I wanted to know the exact dimensions of hell
Does this sound simple? Fuck you!
Are you for sale?
Does "Fuck you" sound simple enough?
This was the only part that turned me on
But he was candy all over

9.11.17

Deamblogações matinais

Sobre o web summit:

"Estes poucos dias de invasão não podem ser uma dose de qualquer pastilha de euforia que abafa os problemas reais que enfrentamos. Nem temos de quase pedir desculpa para continuar a viver a nossa vida e as nossas cidades, enquanto um bando de deslumbrados circula todo o dia com o seu cartão do evento pendurado ao pescoço como se pertencessem a um qualquer círculo de eleitos ou seita de Charles Manson de smartphone em punho."

Rui Calafate, ECO

7.11.17


3.11.17

Deamblogações matinais

Não consigo perceber exactamente se todos estes episódios de assédio são reais ou fruto da esquizofrenia informativa em que estamos metidos de há vários anos para cá. Agora pega-se no assédio e trituram-se umas dezenas de figuras públicas por terem mandado umas bocas e feito umas coisas ordinárias (e evidentemente condenáveis), mas amanhã já se esqueceu tudo isto e perfura-se outro furo qualquer. Repito: não sei se é algo assim que está actualmente a acontecer ou se tudo o que tem vindo a lume é, de facto, verdade.
Em qualquer dos casos, o drama dos actuais dias relativamente à informação (?) é que muita dela já não é passível de ser distinguida como verdadeira ou falsa. Não temos meios para saber se o Kevin Spacey forçou relações sexuais com um homem há algumas décadas e se assediou metade da equipa do HoC. E, portanto, não temos meios para fazer um juízo fundamentado sobre se a série foi ou não bem suspensa. Ora, a questão não é indiferente porque, para lá do voyeurismo que não me interessa de todo, existem efeitos concretos de tudo isto. No caso indicado, não verei mais um actor de excepção numa série muito interessante. Se é uma sanção justa ou não para o mesmo, nunca o saberei.

23.10.17

Escritos

"não me preocupo em morrer sozinha, porque toda a gente morre sozinha"

lido por aí, algures

16.10.17

Escritos


13.10.17

THE WHITE BLIND LIGHT

6.10.17


Time to: ALT+CTRL+DEL

3.10.17

Deamblogações matinais

"O problema ideológico do PSD é simples de expor: o PPD, depois o PSD, foi fundado de uma forma sui generis, à portuguesa, combinando três tradições políticas: o liberalismo político, o personalismo de origem cristã e a social-democracia. Pretendia ser um partido defensor das liberdades e da democracia, um partido laico que incorporava uma visão do homem como “pessoa”, mais do que como cidadão, e pretendia que o Estado tivesse no seu coração a ideia de que a sua função era, entre outras, a de garantir a solidariedade social a favor dos que mais precisavam, distributivo e actuante em termos da justiça social. Era anticomunista, mas não era anti-socialista, não era conservador, nem economicamente liberal, era a favor do mundo do trabalho e da dignidade do trabalho, na tradição da doutrina social da Igreja, defensor de um sistema fiscal fortemente distributivo e colocava-se entre o centro-direita e o centro-esquerda. Estava mais à esquerda, oscilava para o centro e para a direita, mas nunca, jamais, em tempo algum, se definiu como partido de direita. Até agora."

JPP, aqui

2.10.17

Deamblogações matinais

Eu sei que nada ou muito pouca coisa do que se passa hoje em dia é fácil de explicar. Mas, mesmo assim, há coisas que me escapam e explicações que não consigo dar a evidências que saltam à vista e que, como evidências que são, me parecem demasiado óbvias para serem ignoradas.

Eis alguns exemplos:

Como é que Rajoy cai na armadilha de ter dado importância ao referendo na Catalunha, com isso sobrevalorizando os autonomistas e centrando - erradamente - a questão no domínio jurídico (inconstitucionalidade, etc.) em vez de no domínio estritamente político?

Como é que Passos - independentemente de estar "morto" ou "vivo" ou, até, em coma politicamente - não retira DE IMEDIATO consequências do absoluto cataclismo que foram os resultados do PSD e se demite ou anuncia que não vai recandidatar-se, com isso encerrando um ciclo da vida do partido e de Portugal?

Como é que Trump consegue ser tão mau (pessoal e politicamente) e tão mal aconselhado, permitindo que milhões de pessoas sejam afectadas negativamente pela sua própria incompetência, negligência e egoísmo, como sucedeu por estes dias em Puerto Rico?

Como é que ninguém - que eu tenha visto - tem a coragem de dizer de um modo claro e cristalino que o RU JAMAIS vai conseguir separar-se da UE, pelo menos nos termos inicialmente delineados (i.e. através de um clean cut) e que as excepções/ períodos transitórios/ etc. vão ser mais do que muitos, tudo fazendo para que a confusão seja mais do que muita e ninguém queira o que está a acontecer?

Como é que a UE não tem a coragem de dizer ao Governo polaco, húngaro e outros que aí venham com semelhantes ideias que essas mesmas ideias não são, simplesmente, admissíveis no contexto europeu e que, caso as mesmas persistam (com supressão da liberdade de imprensa, instauração do delito de opinião, centralização de poderes anteriormente dispersos, manipulação dos órgãos judiciais, etc.), os respectivos países têm de sair da UE?

Isto e muito mais encanita-me muito.

29.9.17


15.9.17

14.9.17

Pá não me lixem...

Quem é que plagiou quem?



4.9.17

Escritos

AQUI

31.8.17

TOMORROW

In Memoriam


Deamblogações matinais

O que irrita em Cavaco - e há muitas coisas que irritam em Cavaco - é o ar de superioridade moral com que fala, de arrogância intelectual, como se vivesse acima de tudo o resto que, para si, não passa de meras intrigas e minudências sem importância. Ele é que sabe o que é preciso e como fazer. É insuportável ouvi-lo. Escusa, francamente, de sair do gabinete que usa diariamente e onde está a escrever as memórias, com isso fazendo com que não passe de uma má memória, embora tão funda que chega a ser um trauma.

10.8.17

Escritos



A imagem acima é de uma campanha passada da PT, de quando a PT ainda era PT, com todos os defeitos e virtudes que tinha, e eram de facto muitos, esses defeitos e virturdes.
Mas, para lá disso, a imagem também corporiza o que está a acontecer ao nível do desmantelamento sem dó nem piedade que está presentemente a ser feito na PT pela sua dona, a Altice. Digo propositadamente na PT, porque, mesmo sabendo que a PT desapareceu comercial e juridicamente, as baterias dos donos da Altice concentram-se no universo que compunha a PT e que constituía o seu ADN.
Nesse universo e como parte do ADN estão, evidentemente, os trabalhadores, uma vez que são quem constitui a força de trabalho que permite às empresas evoluírem e conquistarem o tamanho do Nemo, por comparação com o tamanho mais pequeno dos tubarões que nadam nas mesmas águas.
Voltando aos trabalhadores, é verdade que, do ponto de vista jurídico, a Altice está a agir na raia da lei, mas, formalmente, dentro da lei. Já do ponto de vista da chica-espertice, a empresa está a destruir dezenas e dezenas de postos de trabalho, recorrendo a mecanismos que são de todos conhecidos (constituição de empresas integrantes do mesmo grupo, para as quais são transferidos os trabalhadores que, num segundo momento, serão despedidos através de um despedimento colectivo ou de diversas extinções paulatinas de postos de trabalho).
A questão não está em saber se a Altice age mal ou bem, assim como não está em saber se o Governo deveria ou não intervir. Efectivamente, a primeira usa as lacunas da lei para prosseguir os seus interesses, o que, em si mesmo, não pode ser considerado ilícito. Já o segundo não deve intervir a juzante, quando se está perante um operador privado que adquiriu legalmente um universo empresarial que considera desadequado.
O problema está em aspectos técnicos da legislação existente, que permitem actuações deste tipo aos olhos de todos sem que ninguém tenha poderes efectivos para as travar. Nesse sentido, estou de acordo com uma ideia avançada, segundo me recordo, pelo BE (não sei se sozinho ou com mais apoios), nos termos da qual, quando perante uma transmissão de empresa ou estabelecimento, os trabalhadores transferidos deveriam gozar de um período durante o qual não podiam ser despedidos, a não ser por justa causa e mediante o competente procedimento disciplinar.
Ou seja, quem está mal é o legislador que não previu este tipo de situações que, todos o sabem, são muito fáceis de criar: basta constituir uma sociedade para a qual são transferidos os trabalhadores que se visa despedir.
Entretanto e porque nenhum destes cenários é neutro para os trabalhadores envolvidos, estes vão acusando a pressão e começaram a aceitar as rescisões que lhes foram sendo propostas. Aliás, até isso é feito às claras: se a intenção da empresa fosse mesmo a de que os trabalhadores fossem desempenhar funções para uma nova entidade, por que motivo estavam simultaneamente a ser abordados para rescindirem os respectivos contratos de trabalho?
Considero deplorável a mentira. Se a Altice tinha a intenção de fazer despedimentos - e só um cego, surdo, mudo consideraria a operação da ex-PT viável com o número absurdo de trabalhadores ali existente - deveria ter anunciado esse cenário como uma inevitabilidade, enfrentando as agruras de tal decisão e assumindo-o como inultrapassável. Não era - como fez - dizer ao Governo que não faria qualquer despedimento, criando, assim, na comunidade laboral a expectativa de manter intactos os respectivos postos de trabalho.
A Altice usa e abusa de expedientes para atingir os seus objectivos, que, é bom que se diga, são absolutamente legítimos. Isso é mau para todos e só mostra o total desrespeito pelas pessoas que, mal ou bem, contribuíram para fazer da empresa o alvo de uma compra, por sinal, com um enorme desconto.

4.8.17

Blur - Under The Westway (Live)

3.8.17

Deamblogações matinais



SATA podia muito bem ser o acrónimo de Se calhar hAvia outro Transporte Aéreo melhor. Podia mas não é. Em vez disso significa Serviço Açoreano de Transportes Aéreos.
Quem já viajou na SATA, sabe que é preciso ter um feitio muito especial. De facto, são raros (se é que existem) os casos em que não há atrasos, adiamentos, overbookings, faltas de pessoal, mau tempo ou os crónicos (e inexplicáveis) motivos operacionais. Tudo serve para prestar um mau serviço ao cliente. Chega-se ao ponto absolutamente anedótico de ver que o check-in online é mais lento do que o check-in normal feito à maneira clássica no aeroporto. Absolutamente patético.
Graças ao Criador - mas muito infelizmente - recorro apenas uma vez por ano aos préstimos desta transportadora e sempre com percalços de última hora: só nas últimas quatro vezes experimentei um atraso de 8h (após check-in), um overbooking em que acabei por conseguir lugar à custa de uns "voluntários" que - descobri eu entretanto - ganham a vida a ceder lugares de aviões -, um atraso de 3h (após check-in) e uma saga de 48h (sim, 48h) que foi o tempo que demorei para ir de Lisboa a São Jorge, depois de ter estado 22h (das 06h às 04h do dia seguinte) no aeroporto de Lisboa com sucessivos atrasos por motivos operacionais, de ter chegado a embarcar no avião para, passado 1h, o comandante ter informado que não havia condições técnicas para levantar voo e termos sido obrigados a sair e a recolher as malas (!!!) para ir para casa ou para um hotel qualquer. Consegui voo passados 2 dias e sem nunca ter obtido qualquer explicação da companhia (como sempre neste nosso país, foi um dos passageiros que era primo da cunhada do vizinho de um amigo do responsável da manutenção da SATA que nos informou que o problema era com um trem de aterragem; se era ou não, nunca saberei).
A operação desta companhia é para lá de caótica. Não há informação, não há formação, não se entendem, não sabem o que transmitir e não sabem o que se passa. Por outro lado, falta pessoal de cabine, o que motiva muitos dos atrasos que, diariamente, se verificam por esses aeroportos. Uma absoluta vergonha.
Depois de, à ida, quase ter ficado em terra, o que me faria perder um voo de ligação, e de, à vinda, ter sido obrigado a comprar dois novos bilhetes para chegar a horas decentes a Lisboa (mesmo assim com um atrasozinho de 3h, pois então), dado que o voo inicialmente por mim reservado atrasou das 16h para as 00h, com chegada a Lisboa às 03h00 em véspera de dia de trabalho, decidi nunca mais voar na SATA do Continente para as ilhas e vice-versa (entre ilhas não tenho qualquer motivo de queixa e mesmo que tivesse estava bem tramado porque não há concorrência). Mesmo que os voos sejam mais caros, optarei por eles. Nunca mais darei uma abébia.
Há dias, num voo qualquer destes últimos que fiz, alguém dizia uma coisa que é capaz de ser verdade: a mudança comercial do nome SATA para Azores Airlines deve ser uma tentativa (embora vã) para fazer esquecer as milhares de experiências traumáticas vividas com a primeira. Como se a mera mudança de nome as apagasse da memória. Pois não apaga e só as aviva.
SATA: Sem Apelo Terminei Aqui.

1.8.17