A conferência de imprensa de despedida do treinador Paulo Bento mais pareceu uma tragicomédia do que aquilo para que foi marcada: anunciar com certa solenidade o fim de um ciclo.
Quanto ao treinador, não esteve mal, sempre no registo a que nos habituou, mas, ainda assim, menos carrancudo do que se apresentou durante os quatro anos e tal que treinou o Sporting. Teve a frontalidade de referir que esteve quatro meses a mais à frente da equipa, o que revela aquilo que toda a gente já sabia: que por mais que fizesse e dissesse e que por mais competência técnica que tenha, a equipa já não dava mais. Já o ano passado não dava mais, quanto mais este ano.
Já quanto ao presidente, as coisas não são bem assim. JEB apresentou-se visivelmente abatido, irritado, frustrado e tudo o mais que nessa linha couber, sendo irónico para alguns dos jornalistas e apresentando a situação como se se tratasse de um cataclismo e, concretamente, do fim do Sporting. Chegou mesmo a dizer que, por ele, Paulo Bento nunca teria ido embora, dessa forma deixando perceber que se fosse o presidente, o Sporting teria cozido em lume brando. Isto, independentemente de ter ou não razão, mas já lá vamos.
JEB disse algumas coisas que devem ficar registadas, como seja, por exemplo, o facto de actualmente 90% dos sportinguistas terem Bento no coração e no futuro tal percentagem subir para os 100%. Esta afirmação leva a concluir uma de duas: ou que os sportinguistas apagarão da memória as exibições paupérrimas que o Sporting vem apresentando há várias épocas, sobretudo nas últimas duas, ou que o futuro treinador – seja ele qual for – terá tão maus resultados (ou a equipa jogará tão mal) que quererão o regresso do mal-amado.
A ideia que JEB transmitiu foi a de quem estava de cabeça perdida, sem capacidade de raciocinar e de encarar a situação com a famigerada «tranquilidade» de que tanto nos habituámos a ouvir falar. Importa questionar o que se espera de um presidente, gestor, director, enfim, alguém que comande outros. Que seja o primeiro a dar sinais de total desorientação? Creio que não. Mas JEB deu, e de que maneira. Faltou chorar, dizendo os jornais que foi de facto o que aconteceu durante a manhã na Academia. Aliás, o próprio deu isso mesmo a entender ao ter dito que esse dia estava a ser um dia muito mau, cheio de emoções fortes. Adivinha-se, pois, a choradeira que deverá ter sido.
Não tenho dúvidas acerca da bondade, rectidão e profissionalismo de Bettencourt. Não tenho dúvidas de que ele pretende o melhor para o Sporting. O problema não é esse. O problema é saber se JEB é ou não talhado para as funções que exerce actualmente. E eu acho que não é. Ele é acima de tudo um grande sportinguista, alguém que vê o clube com uma paixão imensa, que vai para relvado acalmar os animais das claques quando eles se aprestam a saltar para dentro de campo, que defende instransigentemente o clube quando as coisas estão menos bem, que gosta de assistir aos jogos no meio dos adeptos, como, de resto, sempre fez. Um presidente – e talvez isso seja ingrato – não pode ripostar a um adepto mais exaltado quando este lhe atira um apupo à chegada ao aeroporto, não pode saltar e gritar com um cachecol na conferência de imprensa aquando da sua apresentação aos sócios como recém-empossado, não pode partir para cima de um outro adepto “só” porque este é conotado com uma facção distinta da dele próprio e o critica veementemente (porventura sem qualquer razão ou da forma mais civilizada, mas não é isso claramente o que está em causa). Um presidente não pode chorar por um treinador e demonstrar que tudo faria para o manter, mesmo quando os resultados da equipa são os piores de que há memória pelo menos na história recente do clube. Não pode parecer (ser?) ultrapassado pelas circunstâncias e ver diversos membros da sua equipa, que mal ou bem mereciam a sua confiança, a saírem, colocando-o numa posição fragilizada (Pedro Barbosa e Miguel Ribeiro Telles, para além do próprio treinador que assumiu que nada lhe havia dito). Não pode aceitar que os adeptos e sobretudo os sócios pagantes aceitem ver a equipa e a estrutura do futebol a desmoronar-se, sem soluções para os problemas, sem que seja dado qualquer tipo de explicação. Não pode, enfim, exercer o seu mandato sem um cariz aparentemente profissional, no sentido lato do termo, expondo dessa forma o clube e, designadamente a equipa profissional de futebol a todas e quaisquer críticas, com isso prejudicando e muito o desempenho desportivo da mesma.
O Sporting é uma empresa e não pode ser um clube de bons rapazes. Acredito francamente que JEB seja um bom rapaz. Aliás, parece-me uma extraordinária pessoa. Mas falta consistência, visão, gestão, manha e sobretudo bons investimentos. O ciclo é negativo: não há dinheiro para comprar jogadores por isso os jogadores são medianos; se são medianos a equipa não ganha e não joga bem; se não ganha e não joga bem não há público e perdem-se sócios; se não há público e se perdem sócios, não há receitas; se não há receitas o Sporting deixa de ser atractivo não apenas aos olhos dos adeptos sportinguistas, mas igualmente aos dos investidores; ao ser assim, não aparece o dinheiro; não havendo dinheiro...
Talvez se consiga no futuro próximo inverter o ciclo. Talvez. Espero contudo que não à custa dos sócios, esses que pagam os lugares anuais mais caros que devem existir por aí, porque começam a lá ir seis ou sete vezes por ano. É que para ver maus espectáculos ao Domingo às nove da noite, haja paciência. JEB não se lembrou disso?
O caso é este: a Inspecção-Geral das Finanças detectou irregularidades contabilísticas na Câmara Municipal de Braga, que tinham essencialmente por fim mascarar as contas, retirando delas dívidas, fazendo assim com que parecesse que respirava saúde financeira quando tal não era o caso. Por outro lado, foram igualmente detectadas ligações pouco saudáveis entre a mesma Câmara e várias empresas privadas que orbitam à sua volta. Tudo isto aconteceu há cerca de um ano, tendo a IGF terminado o seu relatório em Outubro de 2008. O inevitável dr. Mesquita Machado achou por bem alegar alguns vícios de que alegadamente padecia o relatório, o que fez com que a publicitação do mesmo fosse atrasada. Porém, os técnicos da IGF reitaram integralmente o que haviam dito, não vendo motivos para alterar o que quer que fosse. Chega-se assim ao Verão de 2009, altura em que devia ter sido publicitado o documento. No entanto, ia haver eleições autárquicas, não sendo - reconheça-se! - oportuno divulgar um documento dessa índole. Como tal, os responsáveis ministeriais "retiveram-no" durante algum tempo, tendo ele vindo a lume três dias após o dr. Mesquita Machado ter (mais uma vez) ganho as eleições.
Quando éramos crianças, víamos aqueles meninos que para ganhar tinham o empurrãozinho que faltava aos outros e que acabava por fazer a diferença. Esse empurrãozinho começava, cheio de boas intenções, nos pais, depois passava para os professores e, numa fase mais tardia - habituadas que tinham sido essas criancinhas a contar com o aditivo que os outros não tinham - acabava neles próprios, fosse através da batota, fosse da aldrabice. Pois bem, a criancinha é aqui o dr. Mesquita Machado e os pais os membros do Governo que permitiram que aquele não fosse afectado por semelhante revelação. Claro que não interessa se essa revelação servia o cumprimento do interesse público. E claro que a ajudazinha não foi inocente e cheia de boas intenções. Mas é assim. Tudo isto já é demasiado mau, mas pior ainda é o total despudor com que se publica o relatório em questão escassos três dias depois das eleições autárquicas. Voltando aos meninos que faziam batota, é como aqueles que não se importavam de escarrapachar com as cábulas em cima da secretária ou, pior, entregar a folha que haviam preparado em casa, sem um pingo de vergonha. É que mesmo entre os aldrabões, há um código de ética que deve ser cumprido. É mais ou menos assim: faz a trafulhice, mas fá-la bem feita, sem estupidez e presunção. Mesmo entre os maus, há sempre uns piores do que outros.
"Um novo filme para tentar encontrar Madeleine McCann é lançado esta terça-feira pela polícia britânica, que espera que se espalhe pela Internet e convença um familiar, amigo, vizinho ou colega a denunciar o eventual raptor da criança.", in Público.
Mas será que alguém ainda acredita verdadeiramente que a criança está viva? E se sim, que tem o ar cândido com que aparece no vídeo?
Este tema é um dos temas mais mal explicados dos últimos anos, produto dos meios massificados de comunicação, tanto do lado dos próprios media, como do lado dos pais que não hesitaram em usar e abusar deles, sofrendo depois na própria pele a consequência disso mesmo.
As probabilidades (estatísticas) de a criança estar viva são diminutas. Por outro lado, em que condições estará (estaria) viva no pressuposto de ter sido efectivamente raptada?
Não consigo perceber se estas tentativas se ancoram numa esperança (legítima) ainda viva ou se não passam de fogo de vista. Mas neste caso com que objectivo?
Ali, logo quem chegava a Lisboa vindo da ponte antiga, via do seu lado direito um cartaz do Bloco de Esquerda com o seu candidato à CML, Luís Fazenda. Era um cartaz em tudo idêntico a muitos que o partido espalhou pela cidade. Mas aquele tinha uma particularidade fascinante: como estava logo por debaixo de umas árvores, diversos ramos destas caíam sobre a testa do ex-candidato, dando-lhe um aspecto ridículo. Ridículo porque dava a impressão - era uma impressão tão certa que parecia certeza - que Luís Fazenda tinha uma franja, perfeita, daquelas à "puto estúpido", o que, naturalmente, não contribuía para a seriedade da sua imagem.
Assim, sempre que lá passava, o que hoje em dia acontece todos os dias, ria-me sozinho.
Eis senão quando, para meu espanto, a franja desapareceu há poucos dias. Alguém fortemente preocupado com o aspecto do Dr. Fazenda decidiu cortar os ramos que faziam aquele belo efeito. Com excepção do meu gáudio diário - em tempos em que não existem particulares motivos para gáudios diários -, tudo bem. Afinal de contas não posso querer divertir-me com a ridicularia alheia, ainda que a mesma tenha sido provocada pelas forças da natureza, sem que o homem - esse ser miserável que tudo tenta controlar - algum contributo tenha dado.
Porém, o que mais me espantou no corte dos ramos, não foi o corte propriamente dito, antes a manutenção do cartaz. Aliás, idêntico comentário é válido para o resto da cidade, por onde pululam irritante e displicentemente cartazes alusivos às autárquicas e, ainda - pasme-se! - às legislativas.
Fui ao longo dos anos lendo várias crónicas sobre esta poluição visual absolutamente incompreensível que grassa pela cidade e que a polui visualmente. Nunca, no entanto, vi qualquer legislação (neste país de ávidos legisladores que tudo querem regular e controlar) que multe os partidos ou movimentos de cidadãos por deixarem os cartazes eleitorais muito, mas muito, para além do período eleitoral. Considero uma absoluta vergonha e falta de respeito que assim seja.
No caso do Dr. Fazenda, e não tem nada que ver com o Dr. Fazenda - pessoa com a qual até simpatizo - não deviam ter-lhe cortado a franja, mas antes a cabeça, num movimento, esse sim cívico, de despoluição visual e de regresso à normalidade após diversos períodos eleitorais consecutivos. Pois bem, limitaram-se a uma intervenção capilar estética, provavelmente sugerida pelos consultores de imagem do BE, quiçá algum deles com formação como coiffeur.
Duas notas:
1. Portugal caiu para 30.º lugar no ranking internacional da liberdade de imprensa. Para quem não percebe os motivos, talvez valha a pena ler o editorial do José Manuel Fernandes no Público de hoje. Se calhar a conversa da asfixia democrática não é assim tão abstrusa.
2. Mário David, vice-presidente do Parlamento Europeu e eurodeputado pelo PSD, disse publicamente que talvez fosse a hora de Saramago assumir a renúncia à cidadania portuguesa, tal como o próprio ameaçou anos atrás. Nunca percebi o tom dessa "ameaça" e se o próprio pretendia que houvesse um movimento nacional de apelo à manutenção da sua qualidade de cidadão português. Não vi esse movimento e penso que o mesmo não devia existir. Como português, sinto-me envergonhado com Saramago e com as posições públicas de desdém deste país que o mesmo tem tomado ao longo dos anos, num discurso amargo e nada reconhecido a uma nação que se regozijou com o Nobel (merecido?) que recebeu. Aliás, sempre pensei que quadrasse na personalidade dele a recusa do prémio da academia sueca. Mas isso não. Sempre dão jeito umas dezenas de milhares de euros. Ele que continue em Lanzarote, que abrace a condição de espanhol ou de apátrida, que a mim - e estou certo que à esmagadora maioria dos portugueses - tanto me faz.
As declarações de Mário David são, pois, evidentes, ainda que proferidas a destempo, como reacção às próprias palavras de Saramago relativamente à Bíblia por ocasião do seu último livro Caim, que, de resto, não pretendo ler nem tão pouco folhear.