Acordei sobressaltado.
Oiço tiros... Mais tiros... Vozes a chamar 'ai ai', 'ai
ai'... Mais uma rajada. Parece gêtrês, o som é igual a quando andávamos no
mato, em Machilukilo em 72 às ordens do cardeal Albazar.
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Silêncio tsf. Nem o Fernando Alves... aguardemos.
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Alô Esteban, penso, Esteban... Estás em São Pau a brincar
aos desenhos e nós aqui na linha da frente, sem protecção alguma, sujeitos
passivos de um desgoverno que nos leva para o fundo do poço a passos largos,
com um seguro que não cobre nada, que é o mesmo que não ter feito... Portas a
fazerem barulho, oiço eu agora, talvez do vento e do abandono em que isto
ficou. Ninguém já parece querer saber.
Do lado do dinheiro, preferia o Mouzinho à Maria Luís,
que anda a enganar-se há quase tempo tanto quanto aquele morreu e faz trocas de
empréstimos por dívida segura a taxas impensáveis.
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Mais uma Ra-jáda sem gaz. Desta vez fresca, sff, e com 1
rodela de limão.
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Esteban. Que nos morimos un poco más todos los dias e que
nuestros hijos no tienen futuro aqui. Es eso que aquellos que están en lo poder
quieren que creyamos. Putamadre...
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Vou à janela e vejo duas chaimites viradas uma contra a
outra. Lá dentro percebo o Pedro e o Paulo numa delas e o Tó Zé na outra. Acho
que se preparam para disparar. À volta, sem medo aparente, cada vez mais
pessoas. Homens, mulheres, crianças e velhos. Tudo à volta deles. Uns gritam e
protestam, mas a maior parte está silenciosa. Dão as mãos. Em silêncio. Parecem
rezar. Até os miúdos estão calados. Vê-se que sofrem. Ou de fome, ou de frio,
ou porque lhes roubaram a esperança. Sofrem calados e em união.
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Dentro das chaimites, bem fechadas e isoladas do
exterior, os homens parecem indiferentes ao que se passa lá fora. Preparam-se
para disparar, é pelo menos o que parece pelos movimentos das máquinas e a
forma como apontam os canos.
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Ai Timor, se outros calam cantemos nós.
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De repente vejo um polícia numa moto de 70cm3, a fazer
fumo que pede o uso de máscara à Breaking Bad, a intrometer-se no meio. Começa
a multar as máquinas porque diz que estão mal paradas... Olha, o ridículo...
Então está-se tudo a preparar para a guerra e vem dali um bófia gordo e manda
parar tudo porque há dois beículos estacionados fora da zona limite legalmente
permitida para o efeito?... Isto só aqui, meu deus, sejas tu quem fores.
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Esteban.
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Hoje mesmo vi uma ma(n)chete com mais um artista, perdão,
ministro a dar o dito por não dito, a dizer que afinal não pediu nada desculpa
a Angola na qualidade de ministro dos estrangeiros, Angola esse ponto vivo da
nova e esperançosa democracia africana, por o MP português estar a investigar
umas balelas de tráfico de influências e desvios piquenos de milhões de notas
de um dólar (o que o meu filho mais novo diz que dá milhões de dólares, mas eu
não me acredito). Penso que foi o mesmo artista, perdão, ministro que comprou e
vendeu, perdão, comprou mas não vendeu, perdão novamente, comprou, vendeu mas
por preço igual, perdão outra vez!, comprou, vendeu mas com um lucro muito
muito muito piqueno acções de uma confraria de amigos do alheio, sem fins
lucrativos, chamada SLN (abreviatura de Só Larilas Nus, o que mostra bem a
natureza indesejável e incómoda da coisa).
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As chaimites continuam na rua, indiferentes à multidão
cada vez maior e mais ruidosa e ao polícia que tenta fazer o seu trabalho. Tudo
lhes é indiferente. Absolutamente tudo. Lá dentro os condutores parecem gritar.
Gritam muito mas ninguém os ouve. Nem eles se ouvem a si próprios. É-lhes tudo
indiferente. Eles mesmos são o rosto da indiferença com que os olhamos, como os
encaramos dentro ou fora das chaimites de onde nunca parecem querer sair.
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Aqui do conforto da minha janela penso que houve um dia
em que me apeteceu perceber como é que tudo funcionava com a, vejo hoje,
estúpida esperança de contribuir para mudar alguma coisa. Mal sabia então que
as chaimites são pior do que salas insonorizadas e escuras. Porque, para além
do mesmo efeito de alheamento, respira-se lá dentro um ar que deixa escapar um
gaz qualquer halucinogéno que produz alterações cerebrais radicais e faz com
que os contaminados percam rapidamente a noção do serviço que, dizem os livros,
deviam fazer temporariamente para depois seguirem a sua vida e dar lugar a
outros.
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Preferi, até um dia em que eu próprio me juntarei à
multidão que dá as mãos ou que protesta, continuar a trabalhar até Agosto para o
Estado e só depois para mim e para os meus. Até um dia.
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Alô Esteban... Esteban...
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A crónica possível de mais um dia de loucura neste
rectângulo vizinho do mar.
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5 de Outubro. É assim por aqui.
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Roger.
Moore.
Perdão.
Over.