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22.11.18

Deamblogações matinais

Neste mundo em que cada vez mais é confuso aquilo com que somos confrontados, em que a habilidade e o envólucro se sobrepõem claramente ao conteúdo da mensagem, em que existe desencanto com o que é tradicional e se é convocado a aderir ao que rompe apenas porque se esgotou a paciência para encontrar alternativas construtivas e não nihilistas, dizia, neste mundo que é assim e muito mais, é OBRIGATÓRIO, assim mesmo, com maiúsculas, ler e ver (as duas coisas e não apenas uma delas) ISTO

Exemplo de bom (e corajoso) jornalismo.

10.9.16

Deamblogações vespertinas


A mim, francamente e não sem, porventura, algum exagero, dá-me nojo ver declarações como as proferidas ontem por Dijsselbloem sobre a Grécia a propósito da cimeira dos países do sul da Europa que, já agora, é bem vinda e faz todo o sentido: "O Verão acabou. Precisamos de progresso, É altura de arrumar o material de campismo".
Como quem diz: "demos-vos 1 ou 2 meses de tréguas para gozarem à vontade o vosso "way of do it", mas agora meus amigos, é hora de acabarem com essa merda e voltarem à merda que é esta Europa do norte, e pagar o que devem e que não é pouco, vocês que já vão na terceira negociação com os credores e no terceiro programa de assistência. Vocês que são uns atrasados de uns incumpridores, bem ao jeito dos países do sul da Europa, esta mistela entre Europa e África que não devia fazer parte deste bloco avançado e progressista que é a Europa."
Eu - e também francamente - estou-me nas tintas neste caso para quem é o devedor e o que o fez ser devedor. Há mínimos de boa educação, para não dizer mais. Este espírito do senhor Dijsselbloem (este copy/paste vem de longe porque o nome desta personagem de terror é impronunciável e impossível de escrever de cabeça) é assassino de um - alguma vez eventualmente existente - espírito europeu, em que alguns deviam dar apoios a outros. Sim, o espírito dos (estafados) Jean Monnet e do Schumann, esses personagens exotéricos que queriam, a par com o desenvolvimento económico, uma integração baseada na inter-dependência e inter-ajuda. Sim, esses que começaram isto tudo...
Esta Europa é sinistra porque sinistro é o espírito dos que a lideram.
Uma tristeza.
Ó Dijsselbloem (mais um copy/paste...) vai pró bôda. A sério. É sempre a direito e nem dás por isso.

28.7.16

Saudável convivência...

... do comissário europeu Carlos Moedas e do historiador Rui Tavares numa mesa de um café em Lisboa hoje pela manhã. Gosto dos dois, talvez pelo despretensiosismo que demonstram e por um efectivo apego à causa pública em defesa daquilo que consideram melhor para o país.

22.7.16

Deamblogações nocturnas



Eu tenho medo de Donald Trump. Não é um medo físico, é pior, é um medo que chamaria sistémico, à falta de melhor designação. Tenho medo dele, no sentido de que temo as suas verdadeiras intenções, os efeitos internos e externos (sistémicos) de uma vitória sua. Tenho receio da disrupção abrupta (passe o pleonasmo) que tal significaria. Falo no condicional porque não quero, propositadamente, falar no futuro. Recuso-me imaginar o impacto que teria o fim dos EUA como contra-ponto da Europa, especialmente numa altura como esta que estamos a viver, com a UE a cair aos bocados e atentados todas as semanas em locais que, até há instantes, eram pacíficos e seguros.
Mas, talvez ainda mais grave, tenho um medo atroz de que uma vitória deste cretino - porque é um cretino que ele é - significasse o fim da ordem e dos costumes tal como sempre os conhecemos, aliás não apenas nós, mas também os nossos pais e avós. O fim da cooperação entre as nações, por muito precária e pejada de interesses que ela seja, o recrudescimento definitivo dos nacionalismos em detrimento de uma visão globalizada e integradora, o endurecimento dos discursos e a instalação formalizada e assumida do princípio da reciprocidade no que este tem de pior e que se reconhece no brocardo "olho por olho, dente por dente". Tudo isto é especialmente importante num país como os EUA que são a única super-potência actuante e efectivamente quem gera balanços e contra-balanços que se vêem e sentem por todo o mundo. Ora tudo isso significaria o mundo ficar entregue a si mesmo. Não sinto especial simpatia por uma visão paternalista dos EUA, mas julgo que, mal ou bem, desempenham efectivamente esse papel.
O filme que antecede este post é muito eloquente na análise calada que faz da tipologia social que apoia Trump: maioritariamente velhos, incultos, extremistas de direita e religiosos, desempregados e descontentes com as suas próprias vidas, completamente indiferentes às mentiras que ouvem, engolindo-as com uma avidez acéfala. Lamento dizer que construir um muro ao longo da fronteira com o México, pôr em causa o tratado do Atlântico Norte no que o mesmo tem de mais sagrado que é o princípio da protecção recíproca, ser apoiante do Brexit, de Le Pen e de Putin, insultar tudo e todos e dizer, sem jamais explicar como, que vão chover "milhões e milhões de dólares" na cabeça dos americanos com ele como presidente, são tudo coisas que não é possível, sequer, analisar ou de que não é possível discordar. Não. Isto não são ideias, são estupidezes, patetices, infantilidades, falta de preparação e muita arrogância. Tudo junto. Eu não me revejo nesta falta de modelo, porque isto nem modelo é. Eu não me revejo em alguém que deve ter apostado um dólar furado em como conseguia a nomeação do partido Republicano, sem ter a mais pequena intenção de construir um projecto político minimamente decente, em defesa do seu país e assumindo a responsabilidade deste no mundo.
Estes atentados um pouco por todo o lado, mas sobretudo os da Europa por afinidade evidente desta com o american way of life, são um óptimo combustível para a mensagem de Trump, ajudando todos os extremistas até aqui indecisos a quem o seu discurso ainda não tinha conseguido convencer. O "eu sou a vossa voz" do fim da convenção do GOP é bem direccionado e melhor pensado, é uma mensagem em si mesmo sem qualquer sentido e vazia de conteúdo, mas que impressiona e acolhe todos aqueles que se sentem na margem do sistema.
Talvez Hillary consiga descolar, mas neste preciso momento tenho, de facto, medo.

24.6.16

O mundo ao contrário ou a miopia de quem vê o que não quer



A imagem está longe de ser bonita e aprazível, mas traduz muito bem o meu estado de espírito presente: o mundo ao contrário ou, melhor, as coisas do mundo ao contrário do que deviam estar.
Parece-me que são coisas a mais e, com mais este acontecimento de hoje, tenho a certeza de que vivemos tempos históricos, para o bem ou para o mal, não sabemos, que vão mudar definitivamente o mundo tal como o conhecemos, pelo menos para quem, como eu, nasceu em época de paz e democracia.
Senão veja-se: eleições americanas com os Republicanos reféns de um mentecapto milionário, maior crise recente no Brasil, crise sem precedentes na Venezuela (liderada por outro mentecapto que devia estar preso há muito), guerra na Síria e em toda aquela região, recrudescimento dos nacionalismos um pouco por todos os países europeus (RU, França, Holanda, Finlândia, Dinamarca, Polónia, Áustria, Hungria, balcãs) e pelos países na fronteira europeia (Rússia, Bielorússia, Turquia), crise dos refugiados na Europa, atentados do ISIL, tensão terrorista permanente, Hollande e Vals sem qualquer músculo no braço-de-ferro com os sindicatos (que vão ganhar a prazo), Le Pen a subir (o FN tomará o poder através do chefe de Estado mais depressa do que se julga), crise do Governo em Espanha que só muito dificilmente terminará este fds e, como se já tudo isto não bastasse, saída do RU da UE.
É, pura e simplesmente, mau de mais. Nem referi a crise da banca, dos défices e das mudanças nos paradigmas da vida em sociedade (família, trabalho) como a conhecemos até hoje.

Quanto ao Brexit, Cameron foi um irresponsável a toda a prova ao ter prometido referendar uma matéria demasiado sensível para ser referendada, sobretudo no actual momento da história do mundo. Ele é o principal obreiro da saída do RU da UE, mesmo que se tenha empenhado em evitar a derrora, o que aconteceu tarde de mais conforme se viu. Para além dele, outro responsável (embora menos) é Corbyn para quem parece que tudo isto passou literalmente ao lado e que dava hoje uma entrevista à Sky News às 7 da manhã como se o que tivesse sucedido fosse coisa pouca e de nenhuma importância.

Enfim, não foi apenas o RU que votou sair da UE, foi o RU que votou desintegrar-se como Estado. É que virá mais cedo do que tarde um novo referendo na Escócia (no qual a saída do RU ganhará confortavelmente), depois disso mais um em Gales e, por fim, na Irlanda do Norte, que será a última e terá um grande embalo depois dos outros dois, perdendo o governo inglês qualquer capacidade para travar esse passo. Externamente, a Holanda referendará a permanência na UE, assim como a Dinamarca. Isto, num primeiro passo porque a seguir provavelmente outros virão.

E assim se precipita uma crise cataclísmica. Claro que há quem ache que tudo isto não passa de uma tempestade sem grande consequências, mas não é, infelizmente, essa a minha opinião. Pelo contrário, acho que vêm aí tempos (anos) ainda mais tempestuosos. Venham os botes salva-vidas para quem neles conseguir entrar.

Oxalá me engane.

13.7.15

A vergonha portuguesa (e europeia)






O sentimento que paira na Europa, pelo menos na Europa do Euro, não é de consenso (ao contrário do que alguns querem fazer crer-nos), nem de vitória de uns (os países da chamada linha dura, nos quais desgraçadamente se inclui Portugal) e derrota de outros (mais moderados e evidentemente com a Grécia à cabeça). O sentimento que paira na Europa é de vergonha e humilhação. De vergonha pela humilhação a que foi e está sendo sujeito um povo que teve o descaramento de desafiar a toda-poderosa Alemanha e o seu séquito de acólitos bem-comportados (nos quais desgraçadamente Portugal se inclui).
Vejo o que vejo e penso sinceramente como fazem falta homens de Estado, com uma visão verdadeiramente europeísta do mundo, deste nosso mundo que é a Europa. Nós que, desgraçadamente fazemos parte da linha dura, dos que punem os incumpridores e preguiçosos, somos os primeiros a atirar pedras, qual menino bufo pseudo bem-comportado que, depois de levar uma reprimenda do professor, é o primeiro a denunciar os outros, para ficar bem visto na fotografia e todos acharem que mudou para melhor. Mas nós não mudámos nada para melhor, o que mudou foi as circunstâncias externas e o resto é, mais ou menos, show-off. O Passos Coelho que disse hoje que, por acaso - cheio de soberba mal disfarçada - tinha sido ele a encontrar uma solução é o mesmo que, desgraçadamente, orienta este país para um abismo que não se vê mas pressente-se. O abismo da falta de solidariedade pelos que sofrem, de falta de humanismo, do interesse e da mesquinhez. É, uma vez mais, o aluno fraco que se cola aos fortes para parecer forte. Mas ele não é forte, é só fachada. Um dia vem um teste mais difícil e os bons deixam-no sozinho a penar. E é nesse momento que ele vai receber a dobrar o mal que um dia fez.
Uma absoluta vergonha.

2.7.15

Yρεεcε? Γρεxητ? ευροxητ?

Vale mesmo a pena ouvir Varoufakis AQUI.

1.7.15

A tragédia é já aqui


Concordo com a realização do referendo na Grécia, porque me parece evidente que uma decisão deste calibre deve ser posta à consideração do povo. Só assim se respeita a democracia. Mesmo tendo o Syriza dito ao que vinha, o caminho que as coisas tomaram levam, necessariamente, a que o povo grego deva expressar a sua vontade. Isso para mim é óbvio e se assim não fosse - e ainda pode não ser porque à hora que escrevo existem notícias de que um acordo que passa pela desistência do referendo e o prolongamento do resgate acompanhado da restruturação da dívida pode estar na forja - mais um sinal muito errado passaria para a opinião pública. O sinal de que a negociação de gabinete sem a intervenção dos destinatários últimos das medidas de política que são tomadas são ouvidos e tidos em conta.
Se o Syriza fosse o que não é, não tomaria partido no referendo, nem pelo sim nem pelo não. Colocaria à consideração dos gregos o que se está a passar e executaria o mandato. Porque, na verdade, se as negociações chegaram verdadeiramente a um impasse, o governo grego sabe bem o que quer e é por isso mesmo que não deve fazer campanha pelo não. Ao fazê-lo está a ter duas caras: uma externa perante os parceiros europeus, com os quais negoceia, e outra interna para os seus eleitores, a quem diz votem não porque não devemos aceitar o que eles nos querem impor.

26.1.15

Deamblogações matinais

Eu diria que a vitória do Syriza é boa para a Europa, essencialmente, porque:

  • impõe, sobretudo aos países mais conservadores, uma visão distinta daquela que tem feito escola na Europa;
  • obriga - necessariamente, quer se queira quer não - a repensar o projecto europeu (a Grécia ser empurrada para fora do Euro por causa de uma escolha democrática feita pelo seu povo seria um desastre que deitaria por terra vários dos fundamentos da construção europeia - a prazo, provavelmente, até, a própria UE);
  • torna possível equacionar novas e mais equilibradas soluções para o problema endémico e crescente do sobreendividamento de alguns dos países da UE e da escalada desenfreada e sem fim à vista dos respectivos défices;
  • isola a Alemanha, facto que apenas é benéfico dada a posição demoniacamente obtusa que a mesma tem tido quanto a estas questões;
  • impõe o jogo democrático como o que verdadeiramente importa, se e quando chegado o momento (a este propósito, vejam-se as pressões incríveis que foram feitas antes das eleições por diversos responsáveis europeus, as quais tinham como única finalidade condicionar o resultado das mesmas, sem que tal tenha sido conseguido).

30.1.14

Deamblogações vespertinas

No meio de uma crónica falta de tempo, há algumas notícias que me fazem sorrir, não de alegria mas de espanto. A hipocrisia grassa pelo mundo.
Merkel cedeu e deu (mais) uma pirueta na dança que dança há já uns anos: prepara-se para baixar a idade da reforma na Alemanha para os 63 anos. Quando pede exactamente o contrário a todos os povos europeus, como castigo pela pressão deficitária das produções internas vs. o montante de pensões a pagar. Extraordinário. Até Schroeder deu sinais de vida.
Ianukovitch meteu baixa em pleno clima de pré-guerra civil na Ucrânia. Se isto pega, teremos muitos e bons políticos a fazerem o mesmo na Europa. Quando a situação se torna insustentável, em vez de a enfrentarem ou, no limite, apresentarem a sua demissão, metem baixa. É justo.
Por cá continuam a esgrimir-se argumentos pró e contra o referendo à co-adopção. Esta é daquelas matérias em que se pudesse fazia batota e votava 100, 1000 vezes pela aprovação da lei. Mas o problema não está aí, e sim em ter-se chegado ao referendo. Oxalá o TC faça o que tem a fazer. E já agora, Cavaco devia ter feito mais do que fez. Coragem, é o que se lhe pede e coragem é o que ele não tem.
E assim vamos: pobretes mas alegretes.

18.12.13

Deamblogações matinais

Embora oriundo do Goldman Sachs - o que em si não pode ser estigma algum, mas, pelas piores razões, não pode também deixar de ser notado, tendo em conta os acontecimentos dos últimos 5/6 anos - o presidente do BCE tinha parecido até segunda-feira passada uma pessoa com noção da importância da função que desempenha. O que não é de somenos, atenta a absoluta falta de consciência que têm demonstrado quase todos os governantes europeus e internacionais (no mesmo saco, presidente da Comissão Europeia, do FMI, respectivos porta-vozes, diversos comissários, etc.).
Pois, como no melhor pano (?) cai a nódoa, Draghi falou de mais. Talvez tenha sido a sua costela italiana a dar-lhe gás numa matéria em que devia, evidentemente, ter-se mantido reservado.  Não manteve e, por causa disso, criou os maiores problemas a Portugal e ao Governo português. Não é que toda a gente não tivesse já percebido que a seguir à troika teríamos (teremos) um programa cautelar. Mas, em todo o caso, uma coisa é o Governo, como se impunha, andar no silêncio dos gabinetes a negociar esse programa (ainda julgo, na minha inocência, que isto é governado por pessoas capazes e com sentido de dever...), outra, bem diferente, é trazer-se para a praça pública as dúvidas, hesitações e inconsistências de todos quantos decidem o nosso futuro.
Obrigado, pois, Mario.

8.4.13

Deamblogações nocturnas

Vejo agora as notícias da morte de Thatcher na BBC e na Sky News e relembro os dias em que à frente dos países europeus e das instituições europeias estavam, para além da própria, Felipe Gonzalez, Miterrand, Kohl e Jacques Delors. Não alinho com encómios fúnebres e, sobretudo, com esse género de lembrança do passado como se este fosse sempre melhor do que o presente. Mas é impossível não reconhecer que essa altura era indubitavelmente melhor do que a actual, assim como é  impossível não reconhecer que todos esses políticos, com todos os seus enormes defeitos próprios das pessoas, tinham uma visão muito mais madura, responsável e comprometida com os cidadãos que dirigiam.
É, assim, com um sentimento de saudade que vejo essas imagens e que oiço o que então diziam.

31.3.13

Deamblogações nocturnas

Acho que está criado um marasmo na vida política portuguesa, sob o manto de algum nervosismo e de ser perpassado que está imensa coisa a acontecer. Não está. Para além do Sócrates vir passear a sua vaidade e arrogância na tv, pouco tem acontecido. Mas, aos olhos dos incautos, muito parece estar a acontecer. Veja-se: fala-se em remodelação governamental necessária e inadiável; o PS vai apresentar uma moção de censura ao Governo; PS e PSD estão irremediavelmente afastados (mesmo? não acredito); PSD e CDS mostram divergências cada vez mais profundas; diz-se que o CDS quer impôr alguém na pasta da Economia para fazer um contraponto à política de austeridade recessiva defendida por Gaspar; pode vir o chumbo do OE/13 pelo TC; e mais uma ou outra coisa do género.
Mas paremos para pensar um pouco. Em que é que isto verdadeiramente mexe com o que nos vai acontecer como país? Infelizmente, penso que não mexe ou mexe muito pouco, incomensuravelmente menos do que aquilo que seria desejável. De tudo o que se disse, o chumbo do TC é o mais grave, e é-o não por motivos internos, mas apenas porque isso influenciará a opinião da troika e, assim, de quem nós dependemos para sobreviver. Como José Manuel Fernandes escrevia no Público de sexta feira, Portugal entrou em bancarrota, só não teve de o assumir porque a troika tomou conta disto. Se o TC chumbar o OE/13, dificultará necessariamente a libertação da próxima tranche programada, o que complicará ainda mais a já difícil sétima avaliação que está a levar a cabo (que, ao contrário do que se diz, ainda não está concluída).
O que se passa aqui no burgo é, infelizmente, hoje em dia pouco ou nada relevante para os nossos destinos. PS e PSD bem podem figir que se degladiam, o PR bem pode apelar ao bom senso e à concórdia e o Governo pode ser remodelado as vezes que forem precisas. O que conta não é isso. O que verdadeiramente conta é a cabeça de algumas iluminárias do norte da Europa a quem, sabe-se lá por que mistérios, foi dado o poder de decidir sobre 10 milhões de almas.
Talvez isto tenha algo que ver com a verdadeira debandada de políticos para os canais de televisão com o propósito de comentar a vida política.
A desenvolver.

25.3.13

Deamblogações matinais

Sempre desconfiei da capacidade real das pessoas que decidem matérias importantes após longuíssimas horas de discussão ininterrupta, muitas vezes bem dentro já da madrugada. Sempre me perguntei se essas pessoas conseguiriam manter o espírito clarividente que se impõe para tomar decisões fundamentadas.
A propósito disto, numa recente entrevista dada ao DN, o ex-MNE Luís Amado diz o seguinte acerca da


decisão do Eurogrupo, que na semana passada decidiu taxar os depósitos no Chipre como contrapartida do resgate financeiro:
"foi um erro precipitado pela resistência do Governo cipriota em afastar os grandes depositantes (...) conheço bem a forma como, a partir de certa hora da noite, os processos negociais se resolvem. E resolvem-se pelo cansaço, pela abstenção, pela saída de elementos que desistem de acompanhar uma negociação que não está no centro das suas preocupações. Não imagina a quantidade de erros que ao longo dos anos se têm cometido por causa de decisões tomadas num ambiente de cansaço. Às vezes está a fechar-se uma decisão crítica e está-se à espera que a bolsa de Tóquio abra, e às vezes é nessa hora, nesse limite que a decisão tem de ser precipitada. É essa a natureza de funcionamento do Conselho. É muita gente a mexer na panela e de vez em quando sai asneira".
Isto não me espanta propriamente, mas não deixa de ser espantoso que o cansaço e a incapacidade humana (naturais e legítimas) afectem grave e irremediavelmente a vida de milhões e milhões de pessoas.
O que Luís Amado diz não é novo, mas é incrível e irresponsável que os decisores políticos permaneçam neste caminho.

18.3.13

Deamblogações vespertinas

O que se passou na reunião do Eurogrupo este fim de semana é demonstrativo do seguinte:
a) A UE anda completamente à deriva;
b) A UE não é actualmente uma pessoa de bem;
c) A UE não é confiável;
d) A UE não protege os interesses dos cidadãos europeus, destinatários últimos das suas medidas e que justificam a sua existência;
e) Os líderes europeus são de fraquíssima qualidade;
f) Os cidadãos europeus devem deixar de confiar naquilo que é dito e transmitido pela UE porque as verdades de hoje são as mentiras de amanhã.

Não são nunca as grandes coisas que fazem a diferença e que servem para construir ou destruir o que quer que seja. São as pequenas, aquilo que se vai fazendo. Isso sim, constrói ou corrói. O Chipre é 0,2% do PIB europeu, pelo que qualquer decisão que o afecte é quase irrelevante do ponto de vista do resto da Europa. Só que não é. A alteração unilateral e em tom de embuscada das regras dos depósitos bancários veio soar os alarmes no resto dos países, sobretudo nos periféricos e mais vulneráveis, entre os quais se encontra Portugal. Devemos perguntar-nos porque razão não é possível que uma coisa semelhante nos aconteça se é verdade (escondida por enquanto, mas verdade) que jamais as metas irão ser cumpridas e nos livraremos da necessidade de um novo resgate. É só uma questão de tempo. Mas ele vai chegar.

12.3.13

Deamblogações matinais II

Ontem, no Público, a historiadora e investigadora Fátima Bonifácio deu uma excelente entrevista, na qual refere algumas coisas que me parecem muito importantes nos dias que correm:
1. Que o paradigma social e económico está a mudar definitivamente e sem possibilidade de regresso ao passado;
2. Que, nessa medida, as manifestações de rua e outras do mesmo tipo são totalmente inócuas e desfasadas da realidade, uma vez que pretendem a reposição de direitos e regalias que não voltarão;
3. Que essa mudança de paradigma criou, definitivamente, uma camada de desempregados que não será reabsorvida pelo tecido económico (especialmente verdade em Portugal);
4. Que a sociedade pacífica que conhecemos pode acabar;
5. Que falta decência e decoro em diversos dos nossos políticos (não apenas nos nossos, também em muitos políticos europeus);
6. Que a Europa tal como existe actualmente pode (e vai) desaparecer porque não conseguirá suster a moeda única;
7. Que a cultura e o humanismo (e, por consequência, a ética) deixaram de fazer parte da cartilha de valores, sendo substituídos por uma tecnocracia sem fim.

O princípio da crítica não é mau por si só. Quando os caminhos são ínvios e pouco claros, o primeiro passo para a escolha passa por saber aquilo que não se quer. É sempre assim em qualquer processo de escolha múltiplo.
Pode ser demagógico criticar-se quem critica dizendo que apenas critica sem propor qualquer solução alternativa. Porque isso pode não ser verdade. O processo de renúncia vai, ele próprio, ajudando a formar com consistência uma opção, ainda que a mesma possa não ser completa e suficientemente abrangente.
Vivemos actualmente tempos de uma dificuldade tremenda em que salta à vista o que é que está mal, sem que salte à vista como é que ficaria melhor (não é com certeza com slogans do tipo "abaixo a troika" ou "aumentem os salários"). Mas podemos e devemos perceber o que não queremos. Esse é o verdadeiro primeiro passo para a ultrapassagem da crise.

8.11.12

Deamblogações matinais

Que a Europa manda em nós, portugueses, já ninguém duvida há muito tempo e só os mais incautos, distraídos ou ingénuos podem pensar o contrário. Veja-se o recente caso da troika: as instâncias internacionais aguentaram (o termo é este) durante o tempo que consideraram razoável e, quando entenderam que Portugal tinha chegado ao limite, fizeram com que o Governo "pedisse" ajuda externa. Na verdade esse "pedido" foi imposto de fora e é exactamente aqui que reside o problema. Actualmente a forma não tem nada que ver com o conteúdo e tenta vender-se uma ideia e uma determinada concepção da forma como funcionam as instituições que nada tem que ver com a realidade. Isto é assim com o Governo (Estado), mas também com a Europa.
Há muito tempo que se fala em federalismo europeu e eu lembro-me bem quando havia uma corrente muito forte anti-federalista, que em Portugal era liderada pelo então PP e por figuras que gravitavam à sua volta, com destaque para Manuel Monteiro, Paulo Portas, MEC e o saudoso Leonardo Ferraz de Carvalho. Era a altura do Independente e da K. Nunca o PSD nem o PS se assumiram como pró ou anti federalistas, embora sempre dissessem que prezavam a manutenção da "soberania nacional" (seja isso o que for), sobretudo no que respeita aos temas económicos (relembre-se os diversos casos dos famigerados "centros de decisão nacional"). Mas dizer-se que se preza a soberania nacional é o mesmo que dizer nada porque, na verdade, se essa vontade não for acompanhada de actos concretos, a dita soberania nacional acaba por ser engolida pelos interesses dos mais mais fortes, designadamente no que diz respeito aos nossos parceiros europeus. E, ao que parece, foi precisamente isto que aconteceu: por omissão dos diversos Governos portugueses (não me lembro francamente de ver qualquer Governo passado ou presente bater o pé a medidas europeias, ainda que as mesmas prejudiquem o país), Portugal foi-se deixando arrastar para caminhos que provavelmente não seriam os dele, caso o país fizesse ouvir a sua voz (era preciso, antes de mais, ter voz...). No entanto, esse arrastamento nunca foi assumido e foi-nos sempre dito que a soberania não está em causa, que o domínio da política se mantém intacto, que as verdadeiras e importantes escolhas continuam a ser feitas pelos portugueses. Não é verdade. E já não é verdade há muito tempo. Mas é e será cada vez menos verdade. Merkel tem afirmado e assumido (finalmente, dirão alguns) que a Europa precisa de caminhar para um federalismo orçamental - o que é que deve chamar-se a um sistema em que os orçamentos nacionais podem ser vetados pelas instâncias europeias? -, criando regras e um sistema em que tal controlo seja possível. Ou seja, está assim dado o primeiro passo para uma integração financeira, à qual se seguirá a integração política.
A questão aqui não é perceber da bondade desta opção, mas sim de saber se é legítimo que tudo isto que tem um impacto profundo e irreversível na vida de muitos milhões de pessoas pode ser decidido sem que elas se possam expressar. As eleições legislativas de cada país, assim como as eleições europeias não são transparentes nas mensagens que perpassam. Ninguém está disposto a assumir este caminho como uma verdadeira escolha, antes preferindo (cobardemente, digo eu) apresentá-lo como uma inevitabilidade face às circunstâncias políticas e económicas que têm existido. Ora, eu penso que este é precisamente o fio de prumo que divide os grandes políticos dos medianos. Os primeiros, para além de escolhas assumidas, conseguem impor-se aos acontecimentos e condicioná-los através das suas acções. Os segundos apenas conseguem conformar-se com a realidade, agindo por reacção. Para além do mais, mentem, por acção ou omissão, àqueles a quem deviam mais respeito: aos cidadãos que, como todos nós, os elegeram para decidir por eles.