3.1.14

Deamblogações matinais

Há muito tempo que me pergunto como é que, estando o país em crise profunda, existem tantas pessoas nos concertos, festivais de música (com bilhetes tão caros), no futebol e nas mais diversas manifestações públicas que não são gratuitas. Para além, claro está, das férias na neve, das idas aos spas (esse conceito ganhador que proliferou como um vírus) espalhados por esse país e das saídas para o estrangeiro.
Hoje, ao ler a crónica semanal de Francisco Teixeira da Mota no Público, vi citada uma referência de uma jornalista do Wall Street Journal, Patricia Kowsmann, que terá publicado no dia 25 de Dezembro passado no seu jornal uma notícia sobre Portugal dizendo que 8% dos lares lusitanos tinham uma Bimby, tendo sido comprados 35.000 aparelhos destes em 2013 contra apenas 22.000 iPads.
E por falar em iPads e entrando no mundo dos gadgets, também me custa perceber como é que toda a gente (e isto não é apenas uma força de expressão), ou, para ser mais rigoroso, quase toda a gente tem um iPhone e um iPad ou, numa versão menos sofisticada e claramente em contra-corrente, um smartphone (porque isso de não ter um smartphone já nem tem sentido).
De igual modo, não percebo como é que os centros comerciais continuam cheios (sendo que muita daquela gente está mesmo a comprar) e as lojas de electrodomésticos de massas continuam a proliferar.
Sempre considerei tudo isto contraditório com a circunstância - para mim factual e indubitável - de o país estar em profunda crise e não haver dinheiro.
Parêntesis: muitos dirão que tudo isto não é representativo do país, mas apenas de uma certa elite económica, baseada em Lisboa e, quando muito, também no Porto. Eu, porém, tenho muito dificuldade em aceitar esta explicação, porque não é elite nenhuma que eu vejo nos festivais (embora ela também lá esteja), nos concertos, e com iPhones e outros gadgets na mão. Não é claramente essa elite que eu vi numa recente reportagem de iPad na mão a filmar o museu do Cristiano Ronaldo na Madeira...
Mas, e se o pressuposto estiver errado? E se, afinal de contas, o país não estiver a atravessar a crise que se julga e existir muito maior capacidade financeira do que aquilo que é dito?
Pensava eu sobre esta possibilidade quando, também no Público de hoje, me deparei com o artigo de José Manuel Fernandes, o qual vai exactamente nesta direcção. Com o título "O mundo não está assim tão mal, e Portugal também não", o jornalista vem dizer precisamente isso: que, no fim de contas, a "verdade indesmentível" de que isto está à beira do fim não é tão verdadeira quanto isso. E, para tal, cita o estudo comparativo do cientista político e especialista em sondagens Pedro Magalhães, aqui, e que eu quero ler com atenção, no âmbito do qual o mesmo terá ficado espantado ao verificar, ele próprio, que a realidade (pelo menos até 2012, último ano em que há dados estatísticos consolidados) não é tão má quanto se pinta.
Caso esse cenário se confirme, ajuda a explicar muitas coisas. Desde logo que a opinião pública, na qual me incluo completamente, se tem deixado contaminar por uma lenga lenga dita e repetida vezes sem conta. E, como todos sabemos, uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdadeira. Não é que a crise seja uma mentira, mas, talvez, os efeitos da crise o sejam, pelo menos, com a dimensão que é referida por quase todos de forma indiscutível. Será mesmo assim?
A continuar.