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19.2.18

Escritos

A nossa mãe

Encontro-me com o António. Tem 26 anos e está a pensar em voltar para Portugal. Falamos durante três horas. Descobrimos que somos muito parecidos. Conhecemos os mesmos lugares. Temos saudades das mesmas coisas.
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Ele tem saudades da mãe dele que nasceu em 1969. Eu tenho inveja das saudades dele e tenho saudades da minha mãe que morreu em 2016.
A minha mãe não era a minha melhor amiga. Também era isso mas era, sobretudo, a minha mãe. Mãe há só uma: é difícil perceber-se esta grande verdade. Da minha inveja só fica o conselho: aproveita bem o tempo e o amor da tua mãe. Ouve bem o que ela diz. Ri-te com ela. Defende-a sempre que puderes. Agradece a Deus a sorte que tiveste em ter uma mãe. Em ter uma mãe assim. E só em ter uma mãe.
Na Tristana e na Sara, minhas filhas, netas da Avó Inglesa, como tratavam a minha mãe, vejo as mães de todo o mundo. Sinto não só o amor como o divertimento e a admiração.
Ter mãe é uma grande sorte que passa. A minha bem me avisou que as mães sempre decepcionam. Mas morreu à mesma. Cada dia que passa tenho mais saudades dela, daquela pessoa que só ela era e que eu apreciava tanto.
No amor do António pela mãe vejo a sorte que tive e que tenho ainda, no passado, como lembrança e gratidão. Quem me dera que a minha mãe ainda estivesse viva. Dei-lhe sempre muito valor mas só depois de morrer é que percebi o valor imenso que tinha. Não era só alguém que queria o meu bem. Não era só a pessoa mais divertida que eu já conheci. Era a minha mãe. E perdi-a para sempre. Todos os dias.

MEC, aqui

28.10.15

Escritos


Dizer que MEC é inteligente é um lugar-comum desnecessário e, até, algo desprezível. Realmente, só alguém muito acima da média poderia - depois de tudo o que já escreveu e disse - escrever durante anos sobre aspectos comezinhos do dia-a-dia, alguns dos quais, convenhamos, sem qualquer interesse para a esmagadora maioria dos leitores das suas crónicas diárias no Público. Mas é isso mesmo que o faz diferente. Conforme ele próprio diria: está-se a cagar. E bem.Mas hoje voltou a tocar fundo e no sítio certo. A crónica de hoje é absolutamente magnífica e termina assim:
"(...) nós, os ricos e acomodados, temos a mania de diluir a nossa sorte completamente imerecida no azar igualmente desmerecido de todos os outros."

2.10.15

Escritos

"(...) Não é fácil definir "arruada". À primeira vista, elas parecem tentativas para atrair à força a atenção do povo. O chefe do partido chega, com a sua corte, a sua "segurança" e uma camioneta ou duas de militantes, a uma rua suficientemente frequentada e começa a falar a desconhecidos que estão ali a tratar da sua vida. Aparecem uns maluquinhos que abraçam ardorosamente o chefe do partido, porque gostam de abraçar celebridades e abraçariam Ronaldo com igual ardor. Não se retira nada desta lusitana (?) espécie de exercício: nem uma ideia, nem um voto, nem um tostão. Alguns zelosos pensam que uma "boa arruada" demonstra "força". Erro deles. (...)"

Vasco Pulido Valente, Público

3.9.15

A dificuldade de uma imagem


Ao olhar para a imagem que faz a capa do Público de hoje tenho sentimentos mistos que vão da consternação ao desejo de indiferença. A consternação advém do facto de ser mostrada numa primeira página uma criança morta, afogada, numa praia qualquer. A mim não me dói especialmente que essa praia seja num país europeu porque isso são leituras políticas que retiram daquela imagem outros significados que não os da própria imagem. O desejo - mal conseguido - de indiferença resulta, por um lado, de não querer ver naquele estado uma criança pouco mais nova do que o meu filho mais novo e, por outro, de não querer confrontar-me com o drama que está por detrás da própria imagem.
Não tenho bem a certeza de concordar com a justificação dada pelo Público no seu editorial para a publicação da fotografia porque também quanto a isso tenho sentimentos mistos: se vejo com um interesse, chamemos-lhe social, que a foto seja publicada, julgo que há inevitavelmente aqui uma dose de sobreexposição que alimenta sedes com as quais não concordo e me repugnam.
Pergunto-me se imagens como esta são capazes de fazer despertar correntes solidárias, ajudas efectivas, consciências colectivas para o drama dos refugiados ou se, depois do breve choque que provocam, acabam por cair no esquecimento dos dramas humanitários que sabemos sempre terem existido ao longo da História e que acreditamos serem mais ou menos inevitáveis consoante os tempos vividos.
Não tenho uma resposta para mim próprio, nem consigo resolver as contradições internas que experimento ao ver esta imagem, tal qual acontece quando vejo as chacinas perpetradas pelo regime sírio, pelo EI ou o genocídio do Ruanda. Por muito que tente ser solidário (seja isso o que for), há um mundo inteiro que me separa dessas realidades, que me faz ser absolutamente incapaz de as compreender e, ainda menos, de contribuir para a sua resolução. Ou será que estou enganado e conseguiria, mantendo a vida que levo, ajudar efectivamente de alguma forma que não apenas através de alguns euros depositados numa conta bancária qualquer criada especialmente para o efeito?
Imagens como esta trazem-me à consciência o egoísmo em que vivo, desatento (por muito que ache que não) das misérias do mundo, com um sentimento de impotência para mudá-las por pouco que seja. Essa consciência gera desconforto e simultaneamente um sentimento de culpa por não querer olhar, não querer saber, não querer perceber como ajudar a resolver.
Afinal de contas, talvez esta imagem tenha contribuído com alguma coisa positiva. Talvez ajude, de facto, a despertar consciências e a mudar alguma coisa. Ainda assim, mantenho uma reserva relativamente a tudo isto e tenho para mim que, na voragem dos dias, isto não passa de uma imagem de choque e pavor que rapidamente será esquecida.

3.1.14

Deamblogações matinais

Há muito tempo que me pergunto como é que, estando o país em crise profunda, existem tantas pessoas nos concertos, festivais de música (com bilhetes tão caros), no futebol e nas mais diversas manifestações públicas que não são gratuitas. Para além, claro está, das férias na neve, das idas aos spas (esse conceito ganhador que proliferou como um vírus) espalhados por esse país e das saídas para o estrangeiro.
Hoje, ao ler a crónica semanal de Francisco Teixeira da Mota no Público, vi citada uma referência de uma jornalista do Wall Street Journal, Patricia Kowsmann, que terá publicado no dia 25 de Dezembro passado no seu jornal uma notícia sobre Portugal dizendo que 8% dos lares lusitanos tinham uma Bimby, tendo sido comprados 35.000 aparelhos destes em 2013 contra apenas 22.000 iPads.
E por falar em iPads e entrando no mundo dos gadgets, também me custa perceber como é que toda a gente (e isto não é apenas uma força de expressão), ou, para ser mais rigoroso, quase toda a gente tem um iPhone e um iPad ou, numa versão menos sofisticada e claramente em contra-corrente, um smartphone (porque isso de não ter um smartphone já nem tem sentido).
De igual modo, não percebo como é que os centros comerciais continuam cheios (sendo que muita daquela gente está mesmo a comprar) e as lojas de electrodomésticos de massas continuam a proliferar.
Sempre considerei tudo isto contraditório com a circunstância - para mim factual e indubitável - de o país estar em profunda crise e não haver dinheiro.
Parêntesis: muitos dirão que tudo isto não é representativo do país, mas apenas de uma certa elite económica, baseada em Lisboa e, quando muito, também no Porto. Eu, porém, tenho muito dificuldade em aceitar esta explicação, porque não é elite nenhuma que eu vejo nos festivais (embora ela também lá esteja), nos concertos, e com iPhones e outros gadgets na mão. Não é claramente essa elite que eu vi numa recente reportagem de iPad na mão a filmar o museu do Cristiano Ronaldo na Madeira...
Mas, e se o pressuposto estiver errado? E se, afinal de contas, o país não estiver a atravessar a crise que se julga e existir muito maior capacidade financeira do que aquilo que é dito?
Pensava eu sobre esta possibilidade quando, também no Público de hoje, me deparei com o artigo de José Manuel Fernandes, o qual vai exactamente nesta direcção. Com o título "O mundo não está assim tão mal, e Portugal também não", o jornalista vem dizer precisamente isso: que, no fim de contas, a "verdade indesmentível" de que isto está à beira do fim não é tão verdadeira quanto isso. E, para tal, cita o estudo comparativo do cientista político e especialista em sondagens Pedro Magalhães, aqui, e que eu quero ler com atenção, no âmbito do qual o mesmo terá ficado espantado ao verificar, ele próprio, que a realidade (pelo menos até 2012, último ano em que há dados estatísticos consolidados) não é tão má quanto se pinta.
Caso esse cenário se confirme, ajuda a explicar muitas coisas. Desde logo que a opinião pública, na qual me incluo completamente, se tem deixado contaminar por uma lenga lenga dita e repetida vezes sem conta. E, como todos sabemos, uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdadeira. Não é que a crise seja uma mentira, mas, talvez, os efeitos da crise o sejam, pelo menos, com a dimensão que é referida por quase todos de forma indiscutível. Será mesmo assim?
A continuar.

22.7.13

Deamblogações matinais

O discurso de ontem de Cavaco foi, para além de vácuo, absolutamente evidente quanto ao papel confuso, sem rumo e desastrado que o presidente teve em toda esta triste história. O que era verdade ontem já não é hoje e vice-versa. Entre outras coisas, dizer que estão lançadas as bases para um compromisso de diálogo e de entendimento é, no mínimo, ingénuo, para não lhe chamar patético. Mais uma vez Cavaco afasta a água do capote e tenta passar incólume pela trapalhada irresponsável que os dois partidos da coligação criaram e que ele tinha constitucionalmente o dever de resolver. Repito: tinha constitucionalmente o dever de resolver. De tudo o que li, acho, no entanto, a crónica de Rui Tavares no Público de hoje a mais certeira e a que, em minha opinião, melhor caracteriza a actuação do PR:
"Os discursos de Cavaco Silva à nação começaram a ter uma certa lógica. Dividem-se em duas partes: antes do copo d'água (a.c.) e depois do copo d'água (d.c.). Antes do copo d'água Cavaco explica-nos como é que tudo aquilo que ele queria deu errado: os partidos não quiseram um compromisso de salvação nacional que "75% dos países de dimensão média da União Europeia" têm... e etc., por mais incompreensível e intelectualmente desonesto que seja. Depois, Cavado pára. Apossa-se do copo d'água. Bebe com sofreguidão. (...) Cavado pousa o copo d´água. Diz: "Portugueses". E finalmente explica-nos que vai fazer aquilo que não queria fazer há quinze dias. (...)
No ano de 1582, Portugal passou do calendário juliano para o gregoriano e perdeu dez dias entre 4 e 15 de outubro. (...) Entre o "antes de Cavaco" e o "depois de Cavaco" passaram também dez dias, de 10 a 21 de julho. Os dez dias mais mal perdidos de toda a história do país, incluindo 1582".

28.11.12

Deamblogações matinais II

Este artigo publicado no Público de hoje sobre os efeitos da internet sobre o processo de conhecimento é de leitura absolutamente obrigatória.