Ontem, no Público, a historiadora e investigadora Fátima Bonifácio deu uma excelente entrevista, na qual refere algumas coisas que me parecem muito importantes nos dias que correm:
1. Que o paradigma social e económico está a mudar definitivamente e sem possibilidade de regresso ao passado;
2. Que, nessa medida, as manifestações de rua e outras do mesmo tipo são totalmente inócuas e desfasadas da realidade, uma vez que pretendem a reposição de direitos e regalias que não voltarão;
3. Que essa mudança de paradigma criou, definitivamente, uma camada de desempregados que não será reabsorvida pelo tecido económico (especialmente verdade em Portugal);
4. Que a sociedade pacífica que conhecemos pode acabar;
5. Que falta decência e decoro em diversos dos nossos políticos (não apenas nos nossos, também em muitos políticos europeus);
6. Que a Europa tal como existe actualmente pode (e vai) desaparecer porque não conseguirá suster a moeda única;
7. Que a cultura e o humanismo (e, por consequência, a ética) deixaram de fazer parte da cartilha de valores, sendo substituídos por uma tecnocracia sem fim.
O princípio da crítica não é mau por si só. Quando os caminhos são ínvios e pouco claros, o primeiro passo para a escolha passa por saber aquilo que não se quer. É sempre assim em qualquer processo de escolha múltiplo.
Pode ser demagógico criticar-se quem critica dizendo que apenas critica sem propor qualquer solução alternativa. Porque isso pode não ser verdade. O processo de renúncia vai, ele próprio, ajudando a formar com consistência uma opção, ainda que a mesma possa não ser completa e suficientemente abrangente.
Vivemos actualmente tempos de uma dificuldade tremenda em que salta à vista o que é que está mal, sem que salte à vista como é que ficaria melhor (não é com certeza com slogans do tipo "abaixo a troika" ou "aumentem os salários"). Mas podemos e devemos perceber o que não queremos. Esse é o verdadeiro primeiro passo para a ultrapassagem da crise.