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8.11.18

Deamblogações vespertinas

A seguir a este espectáculo degradante de falta de respeito, de ética, de verdade, de demonstração exacerbada de poder e domínio, o jornalista Jim Acosta perdeu as credenciais de acesso à Casa Branca, por instrução directa do POTUS. Desavergonhadamente, o motivo alegado foi que Acosta havia abusado (?) ou tocado (?) numa estagiária que, por ordem do presidente, havia tentado tirar-lhe o microfone (o que se vê noutras imagens que não as abaixo publicadas), o que é obviamente mentira.
A mim espanta-me que, quando o presidente da que é comummente designada por maior democracia do mundo, tenta e consegue silenciar um jornalista, invocando uma MENTIRA, sendo prepotente e mentiroso porque, evidentemente não quer responder a questões incómodas, isso não seja primeira página em todos os jornais dos países ditos civilizados, Portugal incluindo.
Trump mostrou raiva, ira e um desconcerto absoluto no dia seguinte a ter perdido o Congresso para os Democratas. Tratou, então, de espezinhar, maltratar e insultar quem, de uma forma contundente mas perfeitamente pacífica e respeitadora, fazia o seu trabalho. Mais tarde, ainda nessa conferência de imprensa, passou-se ISTO, numa nova demonstração de mentira e prepotência ao bom estilo ditatorial.
Tempos verdadeiramente sinistros estes.

27.4.18

Escritos


Punha-me a pensar sobre a questão das escutas e da sua divulgação e não conseguia decidir sobre se estava ou não de acordo. Se por um lado me fazia impressão a divulgação de tudo aquilo e atentava contra a reserva que entendo dever existir quanto à vida privada de cada um de nós, por outro o que está em causa diz, efectivamente, respeito a todos, extrapolando em muito a mera esfera privada dos envolvidos.
Se pensarmos que muitos milhões de portugueses - quase todos, na verdade - nunca viram nem têm noção do que é um milhão de euros, ver e ouvir esta gente trocar favores e proteger-se mutuamente a troco de dezenas, centenas e milhares de milhões, deve-nos indignar a todos. É tempo desta gente perceber que não pode estar acima dos outros, como aliás sempre aconteceu, e que também está sujeita à justiça e aos códigos penais e a todas as leis que se lhes apliquem.
Mas não pode ser a sede de vendetta que justifica a divulgação das escutas e dos depoimentos porque isso seria combater um mal com outro mal, por motivos errados e vis. É verdade que mete nojo o que esta gente fez (e ainda faz), mas o tempo do pelourinho já acabou e todos nós temos a obrigação de lutar pela dignificação da pessoa humana, seja ela quem for e independentemente do que tenha feito. Existem tribunais para julgar, sendo que as sessões são públicas, pelo que quem quiser que assista ao que lá se passa. É assim e deve continuar a ser assim nas sociedades democráticas.
Se não é, pois, uma questão de vendetta, a justificação para a divulgação só pode estar no interesse público, sobre o qual muito se tem falado por estes dias. Houve, assim, três factos que me ajudaram a estabilizar uma posição sobre este assunto: a discussão havida no programa Prós e Contras da rtp1 (no âmbito do qual apenas um jornalista defendeu a divulgação dos depoimentos), uma crónica do João Miguel Tavares no Público e um artigo de opinião do Ricardo Costa no Expresso on-line chamado "Isto não é não jornalismo", que deixou infelizmente de estar acessível a não assinantes.
De facto, o que está em causa é de tal envergadura e tão estruturante do ponto de vista da forma como as teias sociais, económicas e políticas estão construídas no nosso país, que não pode senão concluir-se que existe verdadeiro interesse público na divulgação dos depoimentos.
É evidente que toda a gente tem uma opinião sobre a culpabilidade de Sócrates e que, se ele for absolvido em tribunal por falta de provas, será extremamente difícil acreditar que o sistema judicial fez o trabalho tal como devia e que não falhou rotundamente. Mas, convenhamos, isso já acontecia antes da divulgação dos interrogatórios e é assim quase desde o início, até porque, mesmo antes do início, já muita gente achava que Sócrates, Salgado, Bava et al. eram corruptos. Não foi portanto esta divulgação que operou uma mudança na opinião pública. Ela só aprofundou o conhecimento sobre as matérias em discussão, o que é de um valor colectivo inestimável.
Daí eu achar que, como sociedade, só temos a ganhar com toda a informação que possamos conhecer oriunda de todos estes processos que envolvem a gente que povoa as cúpulas do poder social, político e económico do nosso país. Repito que não é para os humilhar - sendo embora verdade que essa tentação está sempre presente - mas sim para tornar a nossa sociedade um pouco mais horizontal, assim contribuindo de algum modo para que o sentimento de impunidade que muitos têm e acalentam há dezenas de anos se aplaque de vez. Para que Portugal dê oportunidade a todos em igual medida, deixando de reservar uns poucos muitos lugares de topo para os muitos poucos que a eles parecem destinados, pilhando à grande e despudoradamente, cavando maiores injustiças sociais e económicas, retirando do todo que a todos era destinado para benefício dos poucos que dele fazem proveito.
Acho mesmo que a SIC fez bom jornalismo e estou hoje plenamente convencido de que a divulgação que foi feita contribuiu na sua medida para destapar mais um pouco do véu da desvergonha com que muitos andam tapados.

3.11.17

Deamblogações matinais

Não consigo perceber exactamente se todos estes episódios de assédio são reais ou fruto da esquizofrenia informativa em que estamos metidos de há vários anos para cá. Agora pega-se no assédio e trituram-se umas dezenas de figuras públicas por terem mandado umas bocas e feito umas coisas ordinárias (e evidentemente condenáveis), mas amanhã já se esqueceu tudo isto e perfura-se outro furo qualquer. Repito: não sei se é algo assim que está actualmente a acontecer ou se tudo o que tem vindo a lume é, de facto, verdade.
Em qualquer dos casos, o drama dos actuais dias relativamente à informação (?) é que muita dela já não é passível de ser distinguida como verdadeira ou falsa. Não temos meios para saber se o Kevin Spacey forçou relações sexuais com um homem há algumas décadas e se assediou metade da equipa do HoC. E, portanto, não temos meios para fazer um juízo fundamentado sobre se a série foi ou não bem suspensa. Ora, a questão não é indiferente porque, para lá do voyeurismo que não me interessa de todo, existem efeitos concretos de tudo isto. No caso indicado, não verei mais um actor de excepção numa série muito interessante. Se é uma sanção justa ou não para o mesmo, nunca o saberei.