Sempre desconfiei da capacidade real das pessoas que decidem matérias importantes após longuíssimas horas de discussão ininterrupta, muitas vezes bem dentro já da madrugada. Sempre me perguntei se essas pessoas conseguiriam manter o espírito clarividente que se impõe para tomar decisões fundamentadas.
A propósito disto, numa recente entrevista dada ao DN, o ex-MNE Luís Amado diz o seguinte acerca da
decisão do
Eurogrupo, que na semana passada decidiu taxar os depósitos no Chipre como
contrapartida do resgate financeiro:
"foi um erro precipitado pela resistência
do Governo cipriota em afastar os grandes depositantes (...) conheço bem a forma
como, a partir de certa hora da noite, os processos negociais se resolvem. E
resolvem-se pelo cansaço, pela abstenção, pela saída de elementos que desistem
de acompanhar uma negociação que não está no centro das suas preocupações. Não
imagina a quantidade de erros que ao longo dos anos se têm cometido por causa
de decisões tomadas num ambiente de cansaço. Às vezes está a fechar-se uma
decisão crítica e está-se à espera que a bolsa de Tóquio abra, e às vezes é
nessa hora, nesse limite que a decisão tem de ser precipitada. É essa a
natureza de funcionamento do Conselho. É muita gente a mexer na panela e de vez
em quando sai asneira".
Isto não me espanta propriamente, mas não deixa de ser espantoso que o cansaço e a incapacidade humana (naturais e legítimas) afectem grave e irremediavelmente a vida de milhões e milhões de pessoas.
O que Luís Amado diz não é novo, mas é incrível e irresponsável que os decisores políticos permaneçam neste caminho.
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25.3.13
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