A seguir a este espectáculo degradante de falta de respeito, de ética, de verdade, de demonstração exacerbada de poder e domínio, o jornalista Jim Acosta perdeu as credenciais de acesso à Casa Branca, por instrução directa do POTUS. Desavergonhadamente, o motivo alegado foi que Acosta havia abusado (?) ou tocado (?) numa estagiária que, por ordem do presidente, havia tentado tirar-lhe o microfone (o que se vê noutras imagens que não as abaixo publicadas), o que é obviamente mentira.
A mim espanta-me que, quando o presidente da que é comummente designada por maior democracia do mundo, tenta e consegue silenciar um jornalista, invocando uma MENTIRA, sendo prepotente e mentiroso porque, evidentemente não quer responder a questões incómodas, isso não seja primeira página em todos os jornais dos países ditos civilizados, Portugal incluindo.
Trump mostrou raiva, ira e um desconcerto absoluto no dia seguinte a ter perdido o Congresso para os Democratas. Tratou, então, de espezinhar, maltratar e insultar quem, de uma forma contundente mas perfeitamente pacífica e respeitadora, fazia o seu trabalho. Mais tarde, ainda nessa conferência de imprensa, passou-se ISTO, numa nova demonstração de mentira e prepotência ao bom estilo ditatorial.
Tempos verdadeiramente sinistros estes.
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8.11.18
22.2.18
Desculpe, importa-se de repetir?
Título de uma notícia de hoje:
Isto corresponde à filosofia de responder com violência à violência, em vez de tentar resolver as causas da violência. É como o pai que dá uma tareia ao filho depois de o ver a roubar: no imediato compreende-se e vai ao encontro do instinto primitivo, mas sabemos que não dá bom resultado. É só uma questão de tempo para ver.
Trump quer dar armas aos professores para prevenir tiroteios nas escolas
Isto corresponde à filosofia de responder com violência à violência, em vez de tentar resolver as causas da violência. É como o pai que dá uma tareia ao filho depois de o ver a roubar: no imediato compreende-se e vai ao encontro do instinto primitivo, mas sabemos que não dá bom resultado. É só uma questão de tempo para ver.
22.11.17
7.11.17
13.7.17
Deamblogações matinais
O cerco vai apertando cada dia mais, apesar do esforço colossal e muito patético dos spin doctors ligados a Trump.
Agora foi o vídeo que liga o presidente a Rob Goldstone em 2013, em imagens que são mais do que demonstrativas do grau de intimidade e à-vontade entre os dois.
É óbvio que existe collusion entre o presidente e o seu staff e a Rússia e só não vê quem não quer ver, sendo que ainda há muita gente que não quer ver.
Donald Jr. tenta atirar poeira para os olhos da opinião pública, mas não conseguirá nada de mais. O POTUS que é tão lesto a reagir a tudo e mais um par de botas no twitter, anda calado que nem um rato porque, crê ele, quanto menos disser e se mostrar, menos o fogo que arde já selvaticamente o poderá chamuscar.
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17.2.17
19.1.17
Escritos

Hoje sinto-me como naqueles dias em que se perde alguma coisa importante, em que se deixa algo ou alguém para sempre, mesmo que esse para sempre não seja para sempre. Hoje é o último dia dos Obama na Casa Branca, no que tem sido um lento adeus desde as últimas eleições.
Embora sempre tenha acompanhado a vida política no EUA, confesso que nunca senti qualquer empatia especial por qualquer dos presidentes. Sim, é verdade que Reagan (a minha memória sólida mais antiga) era bem mais amistoso do que Bush pai e que Bush filho fazia corar de vergonha quem tinha conhecido Bill Clinton, mas genericamente nunca senti qualquer afecto (o termo é este) por qualquer presidente dos EUA. Até Obama. Não foi só (nem sequer) a questão de ele ser o primeiro negro a ser presidente, nem tão pouco ele ser simpático, nem o facto de ser democrata e - pasme-se! - ter vindo a seguir a Bush filho. Nada disso. Foi a circunstância de parecer uma pessoa normal (não, não é o "normal" do Hollande, que é tudo menos normal). Ele, a mulher, as filhas. E mesmo que tenham seguido todo o guião que se conhece: foram para a Casa Branca, tiveram um cão, apareceram fardados e desfardados, em pose ou descontraídos. É verdade, tudo isso, mas tudo isso faz parte da função e, apesar disso, sempre me pareceu uma gente normal, boa gente, com boas intenções, com valores, com afectos. Sorriram, riram, choraram, zangaram-se, promoveram a concórdia, a amizade, a paz, a vida saudável, o diálogo entre os povos, a tolerância e mais uma série de coisas que qualquer pessoa normal e dotada de um quadro de valores saudável faria no lugar deles.
Já tenho saudades dessa empatia com a qual lidava sempre que via ou lia notícias. De certa forma, gente assim era um garante de alguma estabilidade no mundo porque, caramba, estamos a falar dos EUA! E como é importante ter gente normal por ali... Agora nem me apetece pensar no vindouro, apenas celebrar o quão bom foi ver aquela gente por ali. Gente que abraça e não tem medo dos sentimentos.
Hoje sinto que se acabou um tempo e vem aí outro, bem mais duro e mais perigoso. Se já não havia condições para a descontração, agora não há sequer para fechar os olhos. O que vem aí é pesado a sério.
Tenho, já, saudades dos Obama. Muitas. Tantas.
22.7.16
Deamblogações nocturnas
Eu tenho medo de Donald Trump. Não é um medo físico, é pior, é um medo que chamaria sistémico, à falta de melhor designação. Tenho medo dele, no sentido de que temo as suas verdadeiras intenções, os efeitos internos e externos (sistémicos) de uma vitória sua. Tenho receio da disrupção abrupta (passe o pleonasmo) que tal significaria. Falo no condicional porque não quero, propositadamente, falar no futuro. Recuso-me imaginar o impacto que teria o fim dos EUA como contra-ponto da Europa, especialmente numa altura como esta que estamos a viver, com a UE a cair aos bocados e atentados todas as semanas em locais que, até há instantes, eram pacíficos e seguros.
Mas, talvez ainda mais grave, tenho um medo atroz de que uma vitória deste cretino - porque é um cretino que ele é - significasse o fim da ordem e dos costumes tal como sempre os conhecemos, aliás não apenas nós, mas também os nossos pais e avós. O fim da cooperação entre as nações, por muito precária e pejada de interesses que ela seja, o recrudescimento definitivo dos nacionalismos em detrimento de uma visão globalizada e integradora, o endurecimento dos discursos e a instalação formalizada e assumida do princípio da reciprocidade no que este tem de pior e que se reconhece no brocardo "olho por olho, dente por dente". Tudo isto é especialmente importante num país como os EUA que são a única super-potência actuante e efectivamente quem gera balanços e contra-balanços que se vêem e sentem por todo o mundo. Ora tudo isso significaria o mundo ficar entregue a si mesmo. Não sinto especial simpatia por uma visão paternalista dos EUA, mas julgo que, mal ou bem, desempenham efectivamente esse papel.
O filme que antecede este post é muito eloquente na análise calada que faz da tipologia social que apoia Trump: maioritariamente velhos, incultos, extremistas de direita e religiosos, desempregados e descontentes com as suas próprias vidas, completamente indiferentes às mentiras que ouvem, engolindo-as com uma avidez acéfala. Lamento dizer que construir um muro ao longo da fronteira com o México, pôr em causa o tratado do Atlântico Norte no que o mesmo tem de mais sagrado que é o princípio da protecção recíproca, ser apoiante do Brexit, de Le Pen e de Putin, insultar tudo e todos e dizer, sem jamais explicar como, que vão chover "milhões e milhões de dólares" na cabeça dos americanos com ele como presidente, são tudo coisas que não é possível, sequer, analisar ou de que não é possível discordar. Não. Isto não são ideias, são estupidezes, patetices, infantilidades, falta de preparação e muita arrogância. Tudo junto. Eu não me revejo nesta falta de modelo, porque isto nem modelo é. Eu não me revejo em alguém que deve ter apostado um dólar furado em como conseguia a nomeação do partido Republicano, sem ter a mais pequena intenção de construir um projecto político minimamente decente, em defesa do seu país e assumindo a responsabilidade deste no mundo.
Estes atentados um pouco por todo o lado, mas sobretudo os da Europa por afinidade evidente desta com o american way of life, são um óptimo combustível para a mensagem de Trump, ajudando todos os extremistas até aqui indecisos a quem o seu discurso ainda não tinha conseguido convencer. O "eu sou a vossa voz" do fim da convenção do GOP é bem direccionado e melhor pensado, é uma mensagem em si mesmo sem qualquer sentido e vazia de conteúdo, mas que impressiona e acolhe todos aqueles que se sentem na margem do sistema.
Talvez Hillary consiga descolar, mas neste preciso momento tenho, de facto, medo.
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26.2.16
17.9.14
Deamblogações vespertinas
Os generais americanos começam, como é óbvio, a admitir em surdina a necessidade de uma intervenção da infantaria no Iraque e na Síria, desdizendo Obama e referindo, para protecção deste, que assim só será se se revelar "indispensável" (sic). Claro que será indispensável e essa indispensabilidade não é através da utilização de 5 ou 10 mil homens. É preciso bem mais para derrotar o EI e os generais americanos já perceberam isso. Foi, aliás, por perceber logo isso mesmo que a Austrália ordenou a ida de um contingente militar.
11.9.14
Deamblogações vespertinas
Não terá sido um acaso Obama ter anunciado que ia esmagar (sic) o EI na véspera do 13.º aniversário do 11 de Setembro. Mas todos nós já vimos anúncios destes sem que os resultados correspondam às (enormes) expectativas que geraram. O Iraque e a intervenção naquela zona do mundo é o exemplo mais recente e paradigmático disto que digo. Demais a mais, Obama anunciou que iria fazê-lo sem ser necessário levar cem mil soldados (sic) para o terreno, o que penso que foi um eufemismo para dizer que não está mesmo a pensar em mandar um só soldado, mas apenas pessoal técnico de apoio.
O EI não é bem o Iraque e também não é bem a Síria. O EI é um estado sem estado que, embora se concentre mais na cidade de Raqqa, se encontra disperso por grande parte da Síria, Iraque e zonas adjacentes. Não basta, pois, chegar lá com meios aéreos e descarregar bombas para aniquilar os mudjahiddins. Isso seria porventura o que Obama gostaria, mas não é infelizmente assim. O EI, para além de estar muito espalhado no terreno e não ter um quartel-general, tem literalmente reféns milhares de pessoas que não hesitaria um mícron em usar como escudo humano. Se Obama não quiser ficar na história como o autor de um plano de mortandade civil em larga escala, não pode pretender resolver a coisa pelo ar.
O que, na verdade, não deixa muitas hipóteses porque também não é com conselheiros técnicos no terreno (que, basicamente, apoiam as chefias militares locais) que se erradica o movimento. Não é, igualmente, o facto de o exército iraquiano contar com 200 mil militares, a que acrescerão os militares sírios, que faz com que a vitória esteja garantida. Aliás, viu-se o que fizeram esses mesmos militares quando se viram apertados pelos rebeldes do EI: fugiram a sete pés, deixando equipamento e víveres à mercê do inimigo.
O movimento tem criado uma influência na zona muitíssimo difícil de estancar: pavor, coacção, tortura, controlo, mortes, exibição de cadáveres, execuções públicas é tudo parte do que EI faz por ali com um efeito muito concreto nas populações a ele submetidas. Há um halo de medo e angústia por aqueles lados que contribui em muito para o controlo pelo EI e é precisamente isso que os seus responsáveis queriam. Para além dos convertidos, mesmo quem está contra passa a estar a favor porque sabe que senão é com a própria vida que paga esse desafio.
É, pois, por isso que estou a ver mal que os EUA anunciem com alguma inocência (mais do que arrogância) que "esmagarão" o EI sem enviarem tropas para o terreno. O EI é muito, muito diferente de tudo o que já se combateu e parece que o presidente americano não percebeu ainda isso.
O EI não é bem o Iraque e também não é bem a Síria. O EI é um estado sem estado que, embora se concentre mais na cidade de Raqqa, se encontra disperso por grande parte da Síria, Iraque e zonas adjacentes. Não basta, pois, chegar lá com meios aéreos e descarregar bombas para aniquilar os mudjahiddins. Isso seria porventura o que Obama gostaria, mas não é infelizmente assim. O EI, para além de estar muito espalhado no terreno e não ter um quartel-general, tem literalmente reféns milhares de pessoas que não hesitaria um mícron em usar como escudo humano. Se Obama não quiser ficar na história como o autor de um plano de mortandade civil em larga escala, não pode pretender resolver a coisa pelo ar.
O que, na verdade, não deixa muitas hipóteses porque também não é com conselheiros técnicos no terreno (que, basicamente, apoiam as chefias militares locais) que se erradica o movimento. Não é, igualmente, o facto de o exército iraquiano contar com 200 mil militares, a que acrescerão os militares sírios, que faz com que a vitória esteja garantida. Aliás, viu-se o que fizeram esses mesmos militares quando se viram apertados pelos rebeldes do EI: fugiram a sete pés, deixando equipamento e víveres à mercê do inimigo.
O movimento tem criado uma influência na zona muitíssimo difícil de estancar: pavor, coacção, tortura, controlo, mortes, exibição de cadáveres, execuções públicas é tudo parte do que EI faz por ali com um efeito muito concreto nas populações a ele submetidas. Há um halo de medo e angústia por aqueles lados que contribui em muito para o controlo pelo EI e é precisamente isso que os seus responsáveis queriam. Para além dos convertidos, mesmo quem está contra passa a estar a favor porque sabe que senão é com a própria vida que paga esse desafio.
É, pois, por isso que estou a ver mal que os EUA anunciem com alguma inocência (mais do que arrogância) que "esmagarão" o EI sem enviarem tropas para o terreno. O EI é muito, muito diferente de tudo o que já se combateu e parece que o presidente americano não percebeu ainda isso.
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3.9.14
Deamblogações matinais
O auto-denominado Estado Islâmico está a conseguir o que queria desde o início: espalhar pelos quatro cantos do mundo a sua fama de impiedoso e brutal para com os inimigos, ou seja, todos os povos que não perfilhem a sua religião, numa interpretação extremista da sharia. Em suma, somos todos alvos potenciais do EI porque somos infiéis ou apóstatas.
Já disse aqui que o que vi feito pela gente que integra este movimento é muito para lá do que alguma vez imaginei nos meus piores sonhos: mulheres a serem violadas, crianças a serem decapitadas, homens e mulheres a serem degolados e crucificados, raids nas estradas matando tudo o que mexe, entre várias outras atrocidades, é um vale-tudo difícil de explicar, extremamente doloroso de ver e insuportável de aceitar.
Tenho acompanhado razoavelmente bem o debate sobre o EI e torna-se evidente que a comunidade internacional não sabe, e vai demorar a saber, como lidar com a questão: trata-se, na verdade, de um estado sem estado, que une pessoas, não em volta de uma identidade ou origem comuns, mas sim em torno de uma interpretação fanática da religião muçulmana. Para além disso, o saco é suficientemente fundo para albergar todo o tipo de pessoas que, estando-se a marimbar para a religião - ainda que o não assumam - querem andar aos tiros, a pilhar e a violar numa versão pós-moderna do Oeste americano (as personagens de Deadwood paracem uns verdadeiros anjos quando comparados com esta corja).
Existem, quanto a mim, duas questões essenciais que tornam o combate contra esta gente verdadeiramente difícil: a primeira tem que ver com o facto de o movimento se auto-financiar e contar com financiamentos avultados obscuros que ninguém parece capaz de identificar (estar numa zona rica em petróleo é, evidentemente, uma vantagem atroz); a segunda liga-se ao facto de as pessoas que estão no movimento e que são e serão recrutadas não terem qualquer receio da morte e, nessa medida, terem uma concepção da vida (e da sociedade) radicalmente diferente da nossa - aqui incluo tudo, desde o mundo ocidental, a África, passando pelo Extremo-Oriente. Penso que não será fácil encontrar por aí movimentos que, de forma massiva, façam crianças de 6, 7 ou 8 anos gritar a plenos pulmões que estão dispostos a lutar e morrer por um homem (no caso, Al Baghdadi) e saber bem a diferença entre ser mujahidin e mártir. Quando homens afirmam calmamente que só a guerra santa importa e que mais nada conta, nem família, nem amigos, nem a própria vida, está quase tudo dito.
Já se conhecia esta visão da vida há muito tempo e o EI não veio sobre isso trazer grande novidade, a não ser a extensão profusa dessa mesma realidade. Não se trata de meia dúzia de tipos entrincheirados nas montanhas do norte do Afeganistão que têm de se esconder dos rockets americanos. Bem pelo contrário. Estamos a falar de centenas de milhares de pessoas, que atingirão provavelmente os milhões num futuro próximo, e que controlam uma parte cada vez mais importante dos territórios sírio e iraquiano, para além de usarem e abusarem das novas tecnologias para se mostrarem ao mundo.
Tudo isto torna extraordinariamente difícil lidar com esta realidade e não serão certamente drones que destroem alguns tanques que irão resolver o problema. O irónico disto tudo é que Assad está a um curtíssimo passo de ser um aliado determinante dos EUA. A vida dá de facto muitas voltas.
Já disse aqui que o que vi feito pela gente que integra este movimento é muito para lá do que alguma vez imaginei nos meus piores sonhos: mulheres a serem violadas, crianças a serem decapitadas, homens e mulheres a serem degolados e crucificados, raids nas estradas matando tudo o que mexe, entre várias outras atrocidades, é um vale-tudo difícil de explicar, extremamente doloroso de ver e insuportável de aceitar.
Tenho acompanhado razoavelmente bem o debate sobre o EI e torna-se evidente que a comunidade internacional não sabe, e vai demorar a saber, como lidar com a questão: trata-se, na verdade, de um estado sem estado, que une pessoas, não em volta de uma identidade ou origem comuns, mas sim em torno de uma interpretação fanática da religião muçulmana. Para além disso, o saco é suficientemente fundo para albergar todo o tipo de pessoas que, estando-se a marimbar para a religião - ainda que o não assumam - querem andar aos tiros, a pilhar e a violar numa versão pós-moderna do Oeste americano (as personagens de Deadwood paracem uns verdadeiros anjos quando comparados com esta corja).
Existem, quanto a mim, duas questões essenciais que tornam o combate contra esta gente verdadeiramente difícil: a primeira tem que ver com o facto de o movimento se auto-financiar e contar com financiamentos avultados obscuros que ninguém parece capaz de identificar (estar numa zona rica em petróleo é, evidentemente, uma vantagem atroz); a segunda liga-se ao facto de as pessoas que estão no movimento e que são e serão recrutadas não terem qualquer receio da morte e, nessa medida, terem uma concepção da vida (e da sociedade) radicalmente diferente da nossa - aqui incluo tudo, desde o mundo ocidental, a África, passando pelo Extremo-Oriente. Penso que não será fácil encontrar por aí movimentos que, de forma massiva, façam crianças de 6, 7 ou 8 anos gritar a plenos pulmões que estão dispostos a lutar e morrer por um homem (no caso, Al Baghdadi) e saber bem a diferença entre ser mujahidin e mártir. Quando homens afirmam calmamente que só a guerra santa importa e que mais nada conta, nem família, nem amigos, nem a própria vida, está quase tudo dito.
Já se conhecia esta visão da vida há muito tempo e o EI não veio sobre isso trazer grande novidade, a não ser a extensão profusa dessa mesma realidade. Não se trata de meia dúzia de tipos entrincheirados nas montanhas do norte do Afeganistão que têm de se esconder dos rockets americanos. Bem pelo contrário. Estamos a falar de centenas de milhares de pessoas, que atingirão provavelmente os milhões num futuro próximo, e que controlam uma parte cada vez mais importante dos territórios sírio e iraquiano, para além de usarem e abusarem das novas tecnologias para se mostrarem ao mundo.
Tudo isto torna extraordinariamente difícil lidar com esta realidade e não serão certamente drones que destroem alguns tanques que irão resolver o problema. O irónico disto tudo é que Assad está a um curtíssimo passo de ser um aliado determinante dos EUA. A vida dá de facto muitas voltas.
14.4.14
Deamblogações vespertinas
Estamos habituados a que qualquer distúrbio violento publicitado pelos jornais e televisões esteja lá longe, lá onde não nos pode afectar. É o outro lado (o bom) da moeda que é estarmos nos confins da Europa, aqui longe de tudo e de todos e com milhares de quilómetros para atravessar para chegar ao centro.
Vem isto a propósito do que se passa na Ucrânia, que, embora lá longe, muito longe, ao alcance apenas dos mísseis balísticos mais potentes, me preocupa de sobremaneira. E não é porque receie que as tropas russas disfarçadas de agitprop possam atravessar os Pirenéus e invadir a raia alentejana por aí fora até aterrarem no Terreiro do Paço.
O que me mete mesmo medo é a impotência da UE, dos EUA e da NATO perante o que é uma absoluta e miserável farsa de Putin, daquelas que nem uma actuação por boa que fosse dos robertos podia enganar o mais pequeno dos miúdos da assistência.
A actuação do presidente russo é tão miseravelmente evidente que chega a ser bacoca. Dizer que mantém estacionadas as tropas russas para proteger a população russófona (proteger de quê, se os ucranianos nunca demonstraram não querer no país os seus concidadãos de origem russa?), com isso inflacionando os nervos que já estavam à flor da pele, depois aprovar em tempo recorde leis e medidas que visaram encostar os ucranianos da Crimeia às cordas, fazendo-lhes sentir claramente que estavam num país estrangeiro (no dia seguinte à proclamação da independência, passou a existir uma tarifa de roaming para quem na Crimeia mantivesse operadoras não russas (!), depois ameaçar com a escalada do preço do gás, o qual se prevê que aumente 80% para os ucranianos, depois, ainda, dizer que, afinal, está disposto ao diálogo "para que a situação não se descontrole", e, finalmente, dando cobertura mais do que evidente às milícias pró-Rússia que têm invadido tribunais, polícia, sedes da administração pública, etc. um pouco por todo o país.
Muito (demasiado) sinteticamente, tem sido esta a actuação de Putin a que a UE, os EUA e os países da NATO não têm conseguido opor-se. As sanções parecem pouca coisa, assim como pouca coisa parece ser a desvalorização do rublo ou a saída de capitais, pelo menos insuficientes para travar o que é em toda a linha contra as mais elementares regras do direito internacional e constitui um acto de guerra, senão declarado, pelo menos implícito. O que a mim me aflige é, para lá do sofrimento do povo ucraniano e do completo esmagamento do seu direito fundamental à auto-determinação, a repercussão internacional que esta impunidade irá ter. Estamos num mundo, sobretudo na Europa, em que movimentos extremistas florescem como cogumelos, muito alavancados pela incapacidade dos partidos tradicionais e dos políticos tradicionais (a maior parte caído em desgraça nas sondagens e na percepção que os eleitores têm de poder resolver efectivamente os seus problemas) traçarem um azimute bem definido, coerente, corajoso e válido.
Pois é precisamente essa total incapacidade que a crise da Ucrânia tem espelhado. São muitas as movimentações, mais ainda as palavras, mas o que é facto é que Putin tem conseguido levar a água ao seu moínho e a mãe Rússia prepara-se para conseguir anexar mais uns milhares de quilómetros quadrados, assim aumentando o seu já vasto território.
A mim não me atemoriza demasiado se uma localidade, para mim mais do que remota, acabada em "ão" passa ou não a ser russa. A mim aterroriza-me pensar que o sistema que, durante décadas, foi sendo construído não dá qualquer resposta aos problemas do mundo actual. E isso parece ser um facto incontornável.
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