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5.4.17

Deamblogações nocturnas

As imagens de crianças e adultos a lutarem para respirar no recente ataque químico de Assad são absolutamente intoleráveis.

29.4.16

Escritos



Quando abri o Público de hoje e vi de relance a fotografia da capa - esta fotografia acima copiada - julguei por escassas décimas de segundo tratar-se de um mimo, porventura até de um daqueles artistas de rua que por aí andam. Foi só ao fim desse brevíssimo tempo que percebi do que se tratava. Esta imagem teve um impacto parecido com o que senti quando vi o miúdo sírio morto na praia. Mas esta até talvez seja mais forte e impressionante. Aqui eu vejo caos, morte, guerra, pó, sujidade, desrespeito, fúria, solidão, azar, esperança, sorte, desgraça, terror, entre uma infinitude de sentimentos que neste momento não consigo descrever.
Esta imagem é dura, demasiado dura para ser descrita. É mais do que mostra e não fala apenas por si. Não é por ser uma senhora de idade (?), nem é menos por não se tratar de uma criança ou de um pai ou uma mãe. É por encerrar toda a atrocidade da guerra, de uma vida de infelicidade vivida no lugar errado - que um dia foi com certeza o certo - à hora errada.
Esta imagem torna o primeiro esgar num choro intenso.

6.1.16

Deamblogações matinais


Se a Coreia do Norte tem ou não a bomba-H ainda não se sabe. Que tem bombas de destruição massiva não haverá muitas dúvidas. O perigo é imenso. Mas não é bem disso que queria falar.
Queria falar do aspecto patético dos militares norte-coreanos. Aquelas fardas e, sobretudo, aqueles chapéus são de um ridículo atroz. Uns parecem autênticas travessas (das grandes), fazendo lembrar os chapéus dos militares russos, outros são meras bóinas mas com a particularidade de terem uns desníveis cuja função não se entende e outras ainda são curtas, demasiado curtas ao que parece para as cabeças dos seus utilizadores, e têm pintadas riscas e outros motivos. Aquilo impõe respeito a alguém?...
À frente de tudo isto está o tipo com ar de porco-de-engorda, que parece divertir-se tanto com os ensaios nucleares como o Matthew Broderick a jogar à guerra virtual no WarGames de 1983.
Enfim, este mundo está louco, vai tornar-se ainda mais louco e resta-nos a nós, que apesar de tudo mantemos alguma sanidade mental, procurarmos aconchego nas estrelas que ainda brilham.

17.11.15

E depois do massacre


Nós não somos iguais a eles. E eles não são os muçulmanos. Eles são todos os torturadores, todos os violadores, todos os soldados, todos os combatentes, todos os radicais, todos os jihadistas, todos os assassinos, todos que cometem crimes atrozes em nome de uma ideologia seja ela qual for. E a verdade é que os há em todo o lado. Pois que se lixe a ideologia que suporta comportamentos destes, seja ela de cariz, dito, ocidental, seja muçulmana, seja oriental. Seja o que for, onde for, em que circunstâncias for e pelo que for.
A mim o que me perturba é ver patetas dizerem absolutas barbaridades sobre a cultura muçulmana, tomando a nuvem por Juno, como se das duas uma: ou fossem quase todos criminosos desta estirpe ou a sua religião defendesse estes actos. Gostaria muito, talvez com alguma (muita?) ingenuidade, de pensar que o mundo muçulmano responsável, amante da paz e congregador conseguirá passar a mensagem certa por forma a evitar estigmas e ódios dispensáveis e geradores de guerras. Em guerra já nós estamos, mas quanto menos forem os inimigos melhor.

3.9.15

A dificuldade de uma imagem


Ao olhar para a imagem que faz a capa do Público de hoje tenho sentimentos mistos que vão da consternação ao desejo de indiferença. A consternação advém do facto de ser mostrada numa primeira página uma criança morta, afogada, numa praia qualquer. A mim não me dói especialmente que essa praia seja num país europeu porque isso são leituras políticas que retiram daquela imagem outros significados que não os da própria imagem. O desejo - mal conseguido - de indiferença resulta, por um lado, de não querer ver naquele estado uma criança pouco mais nova do que o meu filho mais novo e, por outro, de não querer confrontar-me com o drama que está por detrás da própria imagem.
Não tenho bem a certeza de concordar com a justificação dada pelo Público no seu editorial para a publicação da fotografia porque também quanto a isso tenho sentimentos mistos: se vejo com um interesse, chamemos-lhe social, que a foto seja publicada, julgo que há inevitavelmente aqui uma dose de sobreexposição que alimenta sedes com as quais não concordo e me repugnam.
Pergunto-me se imagens como esta são capazes de fazer despertar correntes solidárias, ajudas efectivas, consciências colectivas para o drama dos refugiados ou se, depois do breve choque que provocam, acabam por cair no esquecimento dos dramas humanitários que sabemos sempre terem existido ao longo da História e que acreditamos serem mais ou menos inevitáveis consoante os tempos vividos.
Não tenho uma resposta para mim próprio, nem consigo resolver as contradições internas que experimento ao ver esta imagem, tal qual acontece quando vejo as chacinas perpetradas pelo regime sírio, pelo EI ou o genocídio do Ruanda. Por muito que tente ser solidário (seja isso o que for), há um mundo inteiro que me separa dessas realidades, que me faz ser absolutamente incapaz de as compreender e, ainda menos, de contribuir para a sua resolução. Ou será que estou enganado e conseguiria, mantendo a vida que levo, ajudar efectivamente de alguma forma que não apenas através de alguns euros depositados numa conta bancária qualquer criada especialmente para o efeito?
Imagens como esta trazem-me à consciência o egoísmo em que vivo, desatento (por muito que ache que não) das misérias do mundo, com um sentimento de impotência para mudá-las por pouco que seja. Essa consciência gera desconforto e simultaneamente um sentimento de culpa por não querer olhar, não querer saber, não querer perceber como ajudar a resolver.
Afinal de contas, talvez esta imagem tenha contribuído com alguma coisa positiva. Talvez ajude, de facto, a despertar consciências e a mudar alguma coisa. Ainda assim, mantenho uma reserva relativamente a tudo isto e tenho para mim que, na voragem dos dias, isto não passa de uma imagem de choque e pavor que rapidamente será esquecida.

18.9.14

Curtas

Estes repórteres de guerra são completamente loucos. Admiro-os e devemos todos a eles aquilo que sabemos de mais arrepiante que por aí se passa. E sabemo-lo muitas vezes não através de reportagens feitas e montadas, mas sim da própria vida.

Qualquer que seja o resultado do referendo na Escócia (e está mesmo quase a sair), amanhã todos acordaremos diferentes. Pode ser muito diferente ou pouco diferente, mas é seguramente diferente. E tem impacto nas nossas vidas.

O que vivi ontem a 30s do fim do jogo do Sporting foi indescritível de frustração e desapontamento. Assim não dá e antevejo muitas desilusões, algumas delas bem próximas.


17.9.14

Deamblogações vespertinas

Os generais americanos começam, como é óbvio, a admitir em surdina a necessidade de uma intervenção da infantaria no Iraque e na Síria, desdizendo Obama e referindo, para protecção deste, que assim só será se se revelar "indispensável" (sic). Claro que será indispensável e essa indispensabilidade não é através da utilização de 5 ou 10 mil homens. É preciso bem mais para derrotar o EI e os generais americanos já perceberam isso. Foi, aliás, por perceber logo isso mesmo que a Austrália ordenou a ida de um contingente militar.

11.9.14

Deamblogações vespertinas

Não terá sido um acaso Obama ter anunciado que ia esmagar (sic) o EI na véspera do 13.º aniversário do 11 de Setembro. Mas todos nós já vimos anúncios destes sem que os resultados correspondam às (enormes) expectativas que geraram. O Iraque e a intervenção naquela zona do mundo é o exemplo mais recente e paradigmático disto que digo. Demais a mais, Obama anunciou que iria fazê-lo sem ser necessário levar cem mil soldados (sic) para o terreno, o que penso que foi um eufemismo para dizer que não está mesmo a pensar em mandar um só soldado, mas apenas pessoal técnico de apoio.
O EI não é bem o Iraque e também não é bem a Síria. O EI é um estado sem estado que, embora se concentre mais na cidade de Raqqa, se encontra disperso por grande parte da Síria, Iraque e zonas adjacentes. Não basta, pois, chegar lá com meios aéreos e descarregar bombas para aniquilar os mudjahiddins. Isso seria porventura o que Obama gostaria, mas não é infelizmente assim. O EI, para além de estar muito espalhado no terreno e não ter um quartel-general, tem literalmente reféns milhares de pessoas que não hesitaria um mícron em usar como escudo humano. Se Obama não quiser ficar na história como o autor de um plano de mortandade civil em larga escala, não pode pretender resolver a coisa pelo ar.
O que, na verdade, não deixa muitas hipóteses porque também não é com conselheiros técnicos no terreno (que, basicamente, apoiam as chefias militares locais) que se erradica o movimento. Não é, igualmente, o facto de o exército iraquiano contar com 200 mil militares, a que acrescerão os militares sírios, que faz com que a vitória esteja garantida. Aliás, viu-se o que fizeram esses mesmos militares quando se viram apertados pelos rebeldes do EI: fugiram a sete pés, deixando equipamento e víveres à mercê do inimigo.
O movimento tem criado uma influência na zona muitíssimo difícil de estancar: pavor, coacção, tortura, controlo, mortes, exibição de cadáveres, execuções públicas é tudo parte do que EI faz por ali com um efeito muito concreto nas populações a ele submetidas. Há um halo de medo e angústia por aqueles lados que contribui em muito para o controlo pelo EI e é precisamente isso que os seus responsáveis queriam. Para além dos convertidos, mesmo quem está contra passa a estar a favor porque sabe que senão é com a própria vida que paga esse desafio.
É, pois, por isso que estou a ver mal que os EUA anunciem com alguma inocência (mais do que arrogância) que "esmagarão" o EI sem enviarem tropas para o terreno. O EI é muito, muito diferente de tudo o que já se combateu e parece que o presidente americano não percebeu ainda isso.

3.9.14


Na sequência do post anterior, vale a pena ver esta reportagem do Vice. Existem também em 5 partes no youtube.

Deamblogações matinais

O auto-denominado Estado Islâmico está a conseguir o que queria desde o início: espalhar pelos quatro cantos do mundo a sua fama de impiedoso e brutal para com os inimigos, ou seja, todos os povos que não perfilhem a sua religião, numa interpretação extremista da sharia. Em suma, somos todos alvos potenciais do EI porque somos infiéis ou apóstatas.
Já disse aqui que o que vi feito pela gente que integra este movimento é muito para lá do que alguma vez imaginei nos meus piores sonhos: mulheres a serem violadas, crianças a serem decapitadas, homens e mulheres a serem degolados e crucificados, raids nas estradas matando tudo o que mexe, entre várias outras atrocidades, é um vale-tudo difícil de explicar, extremamente doloroso de ver e insuportável de aceitar.
Tenho acompanhado razoavelmente bem o debate sobre o EI e torna-se evidente que a comunidade internacional não sabe, e vai demorar a saber, como lidar com a questão: trata-se, na verdade, de um estado sem estado, que une pessoas, não em volta de uma identidade ou origem comuns, mas sim em torno de uma interpretação fanática da religião muçulmana. Para além disso, o saco é suficientemente fundo para albergar todo o tipo de pessoas que, estando-se a marimbar para a religião - ainda que o não assumam - querem andar aos tiros, a pilhar e a violar numa versão pós-moderna do Oeste americano (as personagens de Deadwood paracem uns verdadeiros anjos quando comparados com esta corja).
Existem, quanto a mim, duas questões essenciais que tornam o combate contra esta gente verdadeiramente difícil: a primeira tem que ver com o facto de o movimento se auto-financiar e contar com financiamentos avultados obscuros que ninguém parece capaz de identificar (estar numa zona rica em petróleo é, evidentemente, uma vantagem atroz); a segunda liga-se ao facto de as pessoas que estão no movimento e que são e serão recrutadas não terem qualquer receio da morte e, nessa medida, terem uma concepção da vida (e da sociedade) radicalmente diferente da nossa - aqui incluo tudo, desde o mundo ocidental, a África, passando pelo Extremo-Oriente. Penso que não será fácil encontrar por aí movimentos que, de forma massiva, façam crianças de 6, 7 ou 8 anos gritar a plenos pulmões que estão dispostos a lutar e morrer por um homem (no caso, Al Baghdadi) e saber bem a diferença entre ser mujahidin e mártir. Quando homens afirmam calmamente que só a guerra santa importa e que mais nada conta, nem família, nem amigos, nem a própria vida, está quase tudo dito.
Já se conhecia esta visão da vida há muito tempo e o EI não veio sobre isso trazer grande novidade, a não ser a extensão profusa dessa mesma realidade. Não se trata de meia dúzia de tipos entrincheirados nas montanhas do norte do Afeganistão que têm de se esconder dos rockets americanos. Bem pelo contrário. Estamos a falar de centenas de milhares de pessoas, que atingirão provavelmente os milhões num futuro próximo, e que controlam uma parte cada vez mais importante dos territórios sírio e iraquiano, para além de usarem e abusarem das novas tecnologias para se mostrarem ao mundo.
Tudo isto torna extraordinariamente difícil lidar com esta realidade e não serão certamente drones que destroem alguns tanques que irão resolver o problema. O irónico disto tudo é que Assad está a um curtíssimo passo de ser um aliado determinante dos EUA. A vida dá de facto muitas voltas.

17.4.14

Deamblogações matinais 2


Longe vão os tempos de imagens como esta.
Começou por estes dias a guerra civil na Ucrânia. Putin conseguiu o que queria. Ainda estou para perceber como é que o "mundo ocidental" não fez nada, rigorosamente nada, para impedir que as coisas chegassem a este ponto. E agora é irreversível.

14.4.14

Deamblogações vespertinas


Estamos habituados a que qualquer distúrbio violento publicitado pelos jornais e televisões esteja lá longe, lá onde não nos pode afectar. É o outro lado (o bom) da moeda que é estarmos nos confins da Europa, aqui longe de tudo e de todos e com milhares de quilómetros para atravessar para chegar ao centro.
Vem isto a propósito do que se passa na Ucrânia, que, embora lá longe, muito longe, ao alcance apenas dos mísseis balísticos mais potentes, me preocupa de sobremaneira. E não é porque receie que as tropas russas disfarçadas de agitprop possam atravessar os Pirenéus e invadir a raia alentejana por aí fora até aterrarem no Terreiro do Paço.
O que me mete mesmo medo é a impotência da UE, dos EUA e da NATO perante o que é uma absoluta e miserável farsa de Putin, daquelas que nem uma actuação por boa que fosse dos robertos podia enganar o mais pequeno dos miúdos da assistência.
A actuação do presidente russo é tão miseravelmente evidente que chega a ser bacoca. Dizer que mantém estacionadas as tropas russas para proteger a população russófona (proteger de quê, se os ucranianos nunca demonstraram não querer no país os seus concidadãos de origem russa?), com isso inflacionando os nervos que já estavam à flor da pele, depois aprovar em tempo recorde leis e medidas que visaram encostar os ucranianos da Crimeia às cordas, fazendo-lhes sentir claramente que estavam num país estrangeiro (no dia seguinte à proclamação da independência, passou a existir uma tarifa de roaming para quem na Crimeia mantivesse operadoras não russas (!), depois ameaçar com a escalada do preço do gás, o qual se prevê que aumente 80% para os ucranianos, depois, ainda, dizer que, afinal, está disposto ao diálogo "para que a situação não se descontrole", e, finalmente, dando cobertura mais do que evidente às milícias pró-Rússia que têm invadido tribunais, polícia, sedes da administração pública, etc. um pouco por todo o país.
Muito (demasiado) sinteticamente, tem sido esta a actuação de Putin a que a UE, os EUA e os países da NATO não têm conseguido opor-se. As sanções parecem pouca coisa, assim como pouca coisa parece ser a desvalorização do rublo ou a saída de capitais, pelo menos insuficientes para travar o que é em toda a linha contra as mais elementares regras do direito internacional e constitui um acto de guerra, senão declarado, pelo menos implícito. O que a mim me aflige é, para lá do sofrimento do povo ucraniano e do completo esmagamento do seu direito fundamental à auto-determinação, a repercussão internacional que esta impunidade irá ter. Estamos num mundo, sobretudo na Europa, em que movimentos extremistas florescem como cogumelos, muito alavancados pela incapacidade dos partidos tradicionais e dos políticos tradicionais (a maior parte caído em desgraça nas sondagens e na percepção que os eleitores têm de poder resolver efectivamente os seus problemas) traçarem um azimute bem definido, coerente, corajoso e válido.
Pois é precisamente essa total incapacidade que a crise da Ucrânia tem espelhado. São muitas as movimentações, mais ainda as palavras, mas o que é facto é que Putin tem conseguido levar a água ao seu moínho e a mãe Rússia prepara-se para conseguir anexar mais uns milhares de quilómetros quadrados, assim aumentando o seu já vasto território.
A mim não me atemoriza demasiado se uma localidade, para mim mais do que remota, acabada em "ão" passa ou não a ser russa. A mim aterroriza-me pensar que o sistema que, durante décadas, foi sendo construído não dá qualquer resposta aos problemas do mundo actual. E isso parece ser um facto incontornável.