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22.11.17

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19.1.17

Escritos


 
   

Hoje sinto-me como naqueles dias em que se perde alguma coisa importante, em que se deixa algo ou alguém para sempre, mesmo que esse para sempre não seja para sempre. Hoje é o último dia dos Obama na Casa Branca, no que tem sido um lento adeus desde as últimas eleições.
Embora sempre tenha acompanhado a vida política no EUA, confesso que nunca senti qualquer empatia especial por qualquer dos presidentes. Sim, é verdade que Reagan (a minha memória sólida mais antiga) era bem mais amistoso do que Bush pai e que Bush filho fazia corar de vergonha quem tinha conhecido Bill Clinton, mas genericamente nunca senti qualquer afecto (o termo é este) por qualquer presidente dos EUA. Até Obama. Não foi só (nem sequer) a questão de ele ser o primeiro negro a ser presidente, nem tão pouco ele ser simpático, nem o facto de ser democrata e - pasme-se! - ter vindo a seguir a Bush filho. Nada disso. Foi a circunstância de parecer uma pessoa normal (não, não é o "normal" do Hollande, que é tudo menos normal). Ele, a mulher, as filhas. E mesmo que tenham seguido todo o guião que se conhece: foram para a Casa Branca, tiveram um cão, apareceram fardados e desfardados, em pose ou descontraídos. É verdade, tudo isso, mas tudo isso faz parte da função e, apesar disso, sempre me pareceu uma gente normal, boa gente, com boas intenções, com valores, com afectos. Sorriram, riram, choraram, zangaram-se, promoveram a concórdia, a amizade, a paz, a vida saudável, o diálogo entre os povos, a tolerância e mais uma série de coisas que qualquer pessoa normal e dotada de um quadro de valores saudável faria no lugar deles.
Já tenho saudades dessa empatia com a qual lidava sempre que via ou lia notícias. De certa forma, gente assim era um garante de alguma estabilidade no mundo porque, caramba, estamos a falar dos EUA! E como é importante ter gente normal por ali... Agora nem me apetece pensar no vindouro, apenas celebrar o quão bom foi ver aquela gente por ali. Gente que abraça e não tem medo dos sentimentos.
Hoje sinto que se acabou um tempo e vem aí outro, bem mais duro e mais perigoso. Se já não havia condições para a descontração, agora não há sequer para fechar os olhos. O que vem aí é pesado a sério.
Tenho, já, saudades dos Obama. Muitas. Tantas.

11.9.14

Deamblogações vespertinas

Não terá sido um acaso Obama ter anunciado que ia esmagar (sic) o EI na véspera do 13.º aniversário do 11 de Setembro. Mas todos nós já vimos anúncios destes sem que os resultados correspondam às (enormes) expectativas que geraram. O Iraque e a intervenção naquela zona do mundo é o exemplo mais recente e paradigmático disto que digo. Demais a mais, Obama anunciou que iria fazê-lo sem ser necessário levar cem mil soldados (sic) para o terreno, o que penso que foi um eufemismo para dizer que não está mesmo a pensar em mandar um só soldado, mas apenas pessoal técnico de apoio.
O EI não é bem o Iraque e também não é bem a Síria. O EI é um estado sem estado que, embora se concentre mais na cidade de Raqqa, se encontra disperso por grande parte da Síria, Iraque e zonas adjacentes. Não basta, pois, chegar lá com meios aéreos e descarregar bombas para aniquilar os mudjahiddins. Isso seria porventura o que Obama gostaria, mas não é infelizmente assim. O EI, para além de estar muito espalhado no terreno e não ter um quartel-general, tem literalmente reféns milhares de pessoas que não hesitaria um mícron em usar como escudo humano. Se Obama não quiser ficar na história como o autor de um plano de mortandade civil em larga escala, não pode pretender resolver a coisa pelo ar.
O que, na verdade, não deixa muitas hipóteses porque também não é com conselheiros técnicos no terreno (que, basicamente, apoiam as chefias militares locais) que se erradica o movimento. Não é, igualmente, o facto de o exército iraquiano contar com 200 mil militares, a que acrescerão os militares sírios, que faz com que a vitória esteja garantida. Aliás, viu-se o que fizeram esses mesmos militares quando se viram apertados pelos rebeldes do EI: fugiram a sete pés, deixando equipamento e víveres à mercê do inimigo.
O movimento tem criado uma influência na zona muitíssimo difícil de estancar: pavor, coacção, tortura, controlo, mortes, exibição de cadáveres, execuções públicas é tudo parte do que EI faz por ali com um efeito muito concreto nas populações a ele submetidas. Há um halo de medo e angústia por aqueles lados que contribui em muito para o controlo pelo EI e é precisamente isso que os seus responsáveis queriam. Para além dos convertidos, mesmo quem está contra passa a estar a favor porque sabe que senão é com a própria vida que paga esse desafio.
É, pois, por isso que estou a ver mal que os EUA anunciem com alguma inocência (mais do que arrogância) que "esmagarão" o EI sem enviarem tropas para o terreno. O EI é muito, muito diferente de tudo o que já se combateu e parece que o presidente americano não percebeu ainda isso.