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4.7.18
In memoriam
Morreu Ricardo Camacho, teclista, compositor, produtor da Sétima Legião... e médico. Sempre me fascinou esta capacidade de fazer coisas tão distintas quanto ser músico, tocar em palco, pensar e viver coisas relacionadas com tudo isso e, ao mesmo tempo, numa espécie de nova roupagem, ser-se alguém noutro universo completamente diferente.
Lembro-me muito bem de ter esta sensação com o Ricardo Camacho, que só conhecia por ser quem era. Julgo que é preciso alguma coragem, ao mesmo tempo sentir-se bem por dentro das suas várias peles. De resto, a Sétima Legião é pródiga em situações dessas já que o letrista e teclas Francisco Ribeiro de Menezes é o actual embaixador de Portugal em Espanha...
Desapareceu, pois, assim, mais uma pessoa importante no panorama musical português, alguém por quem não se dava, tamanha era a discrição.
In memoriam, a um deus desconhecido.
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4.12.17
In memoriam
O gajo tinha uma granda pinta e lembro-me muito bem de ir ver os Xutos n'Os Belenenses, em 88, e de ficar um concerto inteiro a olhar para ele com um magnetismo próprio de quem atrai sobre si todas as atenções. Se o Tim era a voz, o Gui o sopro, o Kalú a energia e o Cabeleira a tripe, o Zé Pedro era o tipo que agarrava tudo e todos: pela postura, pela pinta, pela simpatia. Daqueles tipos que sabem quando rir e quando fazer cara séria, que estão bem em todo o lado, porque em todo o lado são (compreensivelmente) venerados. Existe, de facto, e sempre existiu uma certa veneração pelo Zé Pedro. Era o gajo que tocava melhor guitarra? Nem por sombras, e até dizem que era meio coxo a fazê-lo. Era o gajo que mais sabia de música? Não, embora soubesse muitíssimo. Era o gajo que melhor se explicava? Bastava ouvi-lo para responder. Era o gajo mais bonito? Se calhar também não, com aquelas marcas na cara vindas de outros tempos e vidas. E, no entanto... Pá, no entanto, era o maior, o tipo que arrastava multidões, conforme a comoção generalizada destes dias comprovou muito bem, o tipo que encantava tudo e todos. O gajo que vai ser lembrado, e muito bem e ainda bem.
A sensação que fica é que foi mesmo uma parte de nós que morreu com o Zé Pedro na semana passada, uma parte de mim sobretudo como adolescente quando ouvia à exaustão ISTO.
Já foi tudo, mesmo tudo, dito, mas eu também quero dizer que foi uma parte de mim que se foi, evaporada pela morte prematura deste gajo que viveu na minha cabeça durante tantos e bons anos.
24.11.17
Deamblogações matinais (tardias)
A mim o que mais me dói não é a morte do Pedro Rolo Duarte em si mesma, embora ela me mereça respeito e a reserva própria a este tipo de assuntos. O que me dói é desaparecerem tão cedo pessoas, cada vez mais pessoas, cada vez mais cedo e depressa. Talvez porque esteja a caminhar para a velhice? Talvez porque, de facto, cada vez mais gente desaparece mais cedo? Ou talvez seja esta coisa da geração dos cinquenta, que é o que diz a Inês?
Eu cá não sei mas sei que perdemos todos colectivamente, sei que tenho medo do desconhecido e sei que me cai sempre a ficha de dar valor ao que tem valor e de relativizar tudo o resto.
Eu cá não sei mas sei que perdemos todos colectivamente, sei que tenho medo do desconhecido e sei que me cai sempre a ficha de dar valor ao que tem valor e de relativizar tudo o resto.
8.1.17
In memoriam
Parece que morreu aquele tio-avô da família que não era muito chegado mas estava sempre presente e, sobretudo, sempre havia feito parte da vida desde que nos conhecemos. É estranho porque é como se a vida fosse dificilmente equacionável sem ele, sem a sua omnipresença. É isso que sinto e nada tem de ideológico.
29.10.16
Escritos
As coisas são mesmo assim. Da mesma maneira que não se dá valor à saúde quando ela existe, de igual forma só se sente a importância de quem é verdadeiramente importante quando desaparece.
É assim com João Lobo Antunes, mesmo para quem nunca o conheceu pessoalmente, como é o meu caso, e apenas o ouviu ou leu.
Diziam-no vaidoso e até arrogante e eu não sei se isso é verdade ou não. De todo o modo, não acho que isso seja o mais importante e, até, nem sequer importante, porque o que fica são as atitudes, o pensamento e as palavras. E é quanto a estas que quero dizer o que segue.
Perdi a última entrevista de JLB ao Expresso (AQUI), não sei bem porquê, talvez por desvalorizar em demasia o que é importante. Pude lê-la ontem, logo de manhã, pela primeira vez e fiquei profundamente comovido. Não porque esteja com uma espécie de nostalgia pela pessoa, que, repito, nunca conheci e, nessa medida, não lhe sinto a falta, mas porque é raro, cada vez mais raro, ler-se e ouvir-se o que ali foi escrito e dito.
O humanismo, a reflexão, a humildade, o reconhecimento dos limites, da finitude e da incompreensão da vida, a aceitação de que nós não controlamos nada ("acho que fui mais um barco de papel deitado ao rio do que um barco com remos a tomar uma direcção. Deixei-me ir na corrente das coisas que me aconteciam.") são verdadeiramente marcantes.
Para além disso, há um jeito que é antigo, no sentido em que liga àquilo a que hoje em dia se liga pouco ou mesmo nada, que enjeita a espuma dos dias porque ela não significa nada de verdadeiramente importante, que adopta uma postura contemplativa e reflexiva, crítica e distante, dos "valores" reinantes nos dias que correm. E é quanto a isto que, isso sim, sinto uma grande nostalgia porque vão, pouco a pouco, desaparecendo os homens e as mulheres públicos que adoptam uma visão assim.
Deixo algumas passagens que considerei mais impressivas disto que digo, sem mais, porque não é preciso dizer-se mais.
"Tenho refletido sobre a alteração da medicina, sobre a razão por que estamos cada vez mais longe dos doentes. E estamos afastados dos doentes pela intersecção das diferentes tecnologias, pela pulverização do saber, pelos múltiplos especialistas que são chamados a cuidar de alguém. Aquilo que era uma relação única, um a um, perdeu-se.
Compasio é mais do que a simples empatia, vai mais fundo. E cada vez mais interessa às neurociências, pois parece que o nosso cérebro está equipado para sentir compaixão, ou seja, para viver o sofrimento do outro. Apesar do progresso, e ainda mais numa especialidade altamente tecnológica como a minha, nunca vi, não conheço arma nenhuma, de qualquer natureza, seja medicamentosa seja instrumental, que faça anular a necessidade da compaixão.
Pensava que a morte ou a incapacidade eram uma derrota quase pessoal. Trabalhei uns anos, ainda era menino médico, numa casa de saúde de freiras, uma casa psiquiátrica onde havia muitas mulheres com processo de demência e declínio mental. E eu queria mantê-las vivas a todo o custo. Já para as freiras, se elas morressem, era uma alma que ia para o céu — uma alma imaculada por não ter sequer o equipamento do mal para cometer o pecado. Com o tempo, a pessoa-médico que sou foi aprendendo a não lutar contra a natureza. Foi uma descoberta consoladora e tranquilizante.
O desrespeito pela verdade, a violência dos termos, o estarmos longe daquilo que alguém chamou de ‘democracia humilde’, aquela que aceita o ponto de vista do outro, ouvindo-o. Fernando Gil falava muito da má-fé, que é um sentimento relacional e significa que a nossa posição está tomada antes de ouvirmos o argumento do outro. Passados os 70 anos tenho pena de estar a viver este tempo. (...) Sim, um tempo de má-fé. (...) A liberdade e a democracia são uma espécie de oxigénio, que serve para respirar num tempo tão complexo como o nosso. Mas é preciso mais, é preciso construir. E temo que isso não seja possível com a polarização do debate, com a falta de respeito por um sentimento tão simples e elegante como é a decência.
A medicina fez-me médico. Nós aprendemos o básico, a parte artesanal da profissão. É onde muitas vezes falhamos, embora eu tenha sido muito bem educado. Aquilo em que me tornei é uma demonstração brilhante da virtude da educação, do que chamo o ‘currículo silencioso’, que passa por osmose, informalmente, em sítios tão diversos como o restaurante do hospital ou o serviço de urgência. Se eu quisesse apontar a minha qualidade maior, o meu maior talento, diria que fui sempre um bom aluno. Até ao dia de hoje, em que comparo a minha experiência como doente com o que observei ao longo da vida e tento aproveitar isso para a minha melhoria, para a minha tolerância, e até para outra coisa sobre a qual tenho escrito muito que é a esperança.
No meu caso, saber como sou na doença. E eu diria que tenho a necessidade de manter um certo pudor, de não me despir completamente e de conter o medo. Quando adquirimos uma certa prática em ouvir a narrativa, percebemos que nem sempre é útil destapar o medo. Às vezes é melhor abordá-lo pela porta do fundo. (...) Porque falar do medo torna-o real. E se não falarmos nas coisas elas não assumem uma realidade tão dolorosa. Podemos usar até o argumento da autoridade, que hoje caiu de moda, e dizer: “O senhor não vai sofrer porque eu não vou deixar”. Eu disse isto ao meu pai. De forma velada, estava a dizer-lhe até onde iria para ele não sofrer. Ele era um homem muito orgulhoso da sua coragem física e ficou tranquilo.
A vida normal é um caos desorganizado de projetos, emoções, sentimentos, interesses culturais, familiares, profissionais. Nós vivemos nesse caos. O que faz a doença? Arruma o caos. Fica tudo dominado por uma voz, um cântico monótono. Um cantochão que destrói aquilo que é a vida.
A esperança é um sentimento. Pascal trata-a como um privilégio dos cristãos. E a gestão da esperança é uma das coisas mais difíceis na prática médica, do ponto de vista ético e moral. A esperança prolonga-se num tempo em que vão acontecer coisas melhores. Estamos a viver uma experiência que nos derrota e faz sofrer, e vamos projetando no tempo a transformação dessa vivência em algo que é bom e que nos traz felicidade. Se forem pequeninos pacotes de felicidade já não é mau. Naquilo que eu faço, ou fazia, a esperança está ligada ao desfecho de uma luta. A existência dessa luta alimenta a esperança, baixar os braços mata-a. Quando a pessoa acha que vai ficar melhor, isso ajuda o processo de cura. Portanto, o pessimismo é uma profecia que se cumpre.
Tentei passar às minhas filhas o sentimento de terem uma rede, de que sempre que elas caíssem eu estaria cá em baixo para as segurar. Acho que o que elas sentem em relação ao pai é uma extraordinária segurança. E tolerância. Cada uma fez o que lhe apeteceu. Há uma frase de Tolstoi que gosto muito de citar: “Tout comprendre c’est tout pardonner.” Esta foi a divisa na relação com as minhas filhas."
3.9.15
A dificuldade de uma imagem
Ao olhar para a imagem que faz a capa do Público de hoje tenho sentimentos mistos que vão da consternação ao desejo de indiferença. A consternação advém do facto de ser mostrada numa primeira página uma criança morta, afogada, numa praia qualquer. A mim não me dói especialmente que essa praia seja num país europeu porque isso são leituras políticas que retiram daquela imagem outros significados que não os da própria imagem. O desejo - mal conseguido - de indiferença resulta, por um lado, de não querer ver naquele estado uma criança pouco mais nova do que o meu filho mais novo e, por outro, de não querer confrontar-me com o drama que está por detrás da própria imagem.
Não tenho bem a certeza de concordar com a justificação dada pelo Público no seu editorial para a publicação da fotografia porque também quanto a isso tenho sentimentos mistos: se vejo com um interesse, chamemos-lhe social, que a foto seja publicada, julgo que há inevitavelmente aqui uma dose de sobreexposição que alimenta sedes com as quais não concordo e me repugnam.
Pergunto-me se imagens como esta são capazes de fazer despertar correntes solidárias, ajudas efectivas, consciências colectivas para o drama dos refugiados ou se, depois do breve choque que provocam, acabam por cair no esquecimento dos dramas humanitários que sabemos sempre terem existido ao longo da História e que acreditamos serem mais ou menos inevitáveis consoante os tempos vividos.
Não tenho uma resposta para mim próprio, nem consigo resolver as contradições internas que experimento ao ver esta imagem, tal qual acontece quando vejo as chacinas perpetradas pelo regime sírio, pelo EI ou o genocídio do Ruanda. Por muito que tente ser solidário (seja isso o que for), há um mundo inteiro que me separa dessas realidades, que me faz ser absolutamente incapaz de as compreender e, ainda menos, de contribuir para a sua resolução. Ou será que estou enganado e conseguiria, mantendo a vida que levo, ajudar efectivamente de alguma forma que não apenas através de alguns euros depositados numa conta bancária qualquer criada especialmente para o efeito?
Imagens como esta trazem-me à consciência o egoísmo em que vivo, desatento (por muito que ache que não) das misérias do mundo, com um sentimento de impotência para mudá-las por pouco que seja. Essa consciência gera desconforto e simultaneamente um sentimento de culpa por não querer olhar, não querer saber, não querer perceber como ajudar a resolver.
Afinal de contas, talvez esta imagem tenha contribuído com alguma coisa positiva. Talvez ajude, de facto, a despertar consciências e a mudar alguma coisa. Ainda assim, mantenho uma reserva relativamente a tudo isto e tenho para mim que, na voragem dos dias, isto não passa de uma imagem de choque e pavor que rapidamente será esquecida.
28.4.14
In memoriam
Do Vasco Graça Moura lembro a erudição, a serenidade, a educação, a intransigência, a placidez, o vigor intelectual, o eclectismo, a disponibilidade, o interesse, a altivez, os bons modos, a inteligência, a superioridade, a arte, a consciência de tudo isso.
Morreu um dos últimos grandes intelectuais portugueses. Desta envergadura, restam muito poucos na calha.
7.4.14
Deamblogações vespertinas
Não conhecia o Manuel Forjaz, nem pessoalmente, nem sem o ser. Nunca tinha ouvido falar dele e só ontem é que percebi quem era, o que fazia, do que sofria. Perguntaram-me hoje em que mundo é que vivo, mas eu sei bem em que mundo vivo, um mundo que não é sempre compatível com conhecer a malta que as pessoas conhecem. Porque quase não vejo televisão, não leio revistas generalistas e apenas leio um jornal - o Público. E não tenho Facebook. Talvez, mesmo, o mais importante seja isto: não ter Facebook.
Não me interessa muito centrar a coisa no Manuel Forjaz, por quem tenho o imenso respeito que se deve ter por quem sofre de uma doença em princípio incurável e que, até ao fim, vai arrasando lentamente uma vida. Nessa medida, ele e todos os outros que padecem do mesmo mal são credores de um profundo respeito.
Houve, no entanto, algumas coisas que entretanto ouvi ditas pelo Manuel Forjaz que me fizeram reflectir, adensando uma inquietação que, crescentemente, tenho tido ao longo sobretudo dos últimos dois anos. Temos todos a (natural?) tendência para apenas dar valor às pequenas coisas quando uma qualquer tragédia se abate sobre nós. Eu sei que é um lugar comum, mas quem verdadeiramente de entre todos nós se encanta com um pássaro que chilreia num dia de sol, com as andorinhas a voar em fim de tarde de primavera, com o rio que brilha nesta cidade de Lisboa ou com o simples facto de estar vivo? Quem?... Quem de entre nós se lembra de telefonar a um amigo a dizer que tem saudades dele, a dizer que o ama e que a vida sem ele ou ela não era a mesma coisa? Quem de entre nós tem uma palavra de afecto para quem nos serve uma refeição ou quem nos vende uma coisa qualquer? Quem?...
Eu sei bem que é preciso que aconteça uma tragédia para que nós relativizemos aquilo que nos preocupa verdadeiramente no dia-a-dia e que absolutizemos o que, afinal de contas, é mesmo o mais importante que temos. Eu sei porque já vivi isso. E aí há uma estranha sensação de plenitude, de calma, de foco nas prioridades da vida. E elas não são muitas afinal de contas...
Cada vez mais acho que o sentido da vida está nas pequenas coisas e não nas grandes. Está nos outros e não em nós mesmos. Está na felicidade que conseguimos criar e partilhar e não no que conseguimos colher para nós próprios.
Se pensar dois minutos sei que não me falta nada. Nada de nada. E que tudo o que tenho e que sou chega para me sentir feliz. Podia ser melhor? Podia, pode sempre. Podia ser pior? Podia, pode sempre. Parar para olhar, para sentir, para escutar. Para pensar, para meditar. Para viver.
Não sei se um dia passarei por alguma experiência parecida com a de ter cancro ou outra doença do tipo. Mas sinto que a plenitude está em viver o presente de forma plena e atenta.
Ouvir o Manuel Forjaz fez-me pensar que, alguém que tem uma espada de Dâmocles em cima da cabeça que todos os dias desce um bocadinho e que opta por continuar a viver e a dar valor à vida, tem com toda a certeza muitos momentos felizes. Apesar da sua condição. E isso merece muito respeito e admiração.
E é, afinal, essa a grande lição de vida: não ser preciso uma tragédia para se viver feliz a vida que se tem e que é a nossa e que deve ser vivida plenamente e com regozijo.
Não me interessa muito centrar a coisa no Manuel Forjaz, por quem tenho o imenso respeito que se deve ter por quem sofre de uma doença em princípio incurável e que, até ao fim, vai arrasando lentamente uma vida. Nessa medida, ele e todos os outros que padecem do mesmo mal são credores de um profundo respeito.
Houve, no entanto, algumas coisas que entretanto ouvi ditas pelo Manuel Forjaz que me fizeram reflectir, adensando uma inquietação que, crescentemente, tenho tido ao longo sobretudo dos últimos dois anos. Temos todos a (natural?) tendência para apenas dar valor às pequenas coisas quando uma qualquer tragédia se abate sobre nós. Eu sei que é um lugar comum, mas quem verdadeiramente de entre todos nós se encanta com um pássaro que chilreia num dia de sol, com as andorinhas a voar em fim de tarde de primavera, com o rio que brilha nesta cidade de Lisboa ou com o simples facto de estar vivo? Quem?... Quem de entre nós se lembra de telefonar a um amigo a dizer que tem saudades dele, a dizer que o ama e que a vida sem ele ou ela não era a mesma coisa? Quem de entre nós tem uma palavra de afecto para quem nos serve uma refeição ou quem nos vende uma coisa qualquer? Quem?...
Eu sei bem que é preciso que aconteça uma tragédia para que nós relativizemos aquilo que nos preocupa verdadeiramente no dia-a-dia e que absolutizemos o que, afinal de contas, é mesmo o mais importante que temos. Eu sei porque já vivi isso. E aí há uma estranha sensação de plenitude, de calma, de foco nas prioridades da vida. E elas não são muitas afinal de contas...
Cada vez mais acho que o sentido da vida está nas pequenas coisas e não nas grandes. Está nos outros e não em nós mesmos. Está na felicidade que conseguimos criar e partilhar e não no que conseguimos colher para nós próprios.
Se pensar dois minutos sei que não me falta nada. Nada de nada. E que tudo o que tenho e que sou chega para me sentir feliz. Podia ser melhor? Podia, pode sempre. Podia ser pior? Podia, pode sempre. Parar para olhar, para sentir, para escutar. Para pensar, para meditar. Para viver.
Não sei se um dia passarei por alguma experiência parecida com a de ter cancro ou outra doença do tipo. Mas sinto que a plenitude está em viver o presente de forma plena e atenta.
Ouvir o Manuel Forjaz fez-me pensar que, alguém que tem uma espada de Dâmocles em cima da cabeça que todos os dias desce um bocadinho e que opta por continuar a viver e a dar valor à vida, tem com toda a certeza muitos momentos felizes. Apesar da sua condição. E isso merece muito respeito e admiração.
E é, afinal, essa a grande lição de vida: não ser preciso uma tragédia para se viver feliz a vida que se tem e que é a nossa e que deve ser vivida plenamente e com regozijo.
9.5.13
Deamblogações matinais
Descobri recentemente o João Miguel Tavares. Tem graça e sobretudo inteligência no que diz e escreve. Bons artigos nos tempos recentes sobre a crise e o comportamento do Governo. É insuspeito porque é de direita e isso também é saudável. De resto, verdade seja dita, há cada vez mais assumpções de posição nos comentadores, à semelhança do que sucede nos países com os quais gostamos de nos comparar. Só falta os jornais assumirem frontalmente uma linha editorial mais à esquerda ou à direita.
Na sua crónica de hoje, o João Miguel Tavares reflecte com alguma incredulidade na javardice de comportamento da Federação Académica do Porto perante a morte (por homicídio, há que notar) de um estudante, ao ter decidido continuar com os festejos académicos (?) e não respeitar pelo menos um dia de luto. Entre outras coisas diz ele: "para quem anda à procura de exemplos da selvajaria capitalista, não vale a pena dar-se ao trabalho de esmiuçar as intervenções de Vítor Gaspar - basta olhar para a decisão de não suspender o programa da Semana Académica do Porto depois de um estudante ter sido assassinado a tiro no recinto. (...) O Lado Negro da cerveja é demasiado forte. E por isso os estudantes preferiram apostar em iniciativas simbólicas sem impacto orçamental, tipo bué minutos de silêncio comoventes, 'tão a ver? É claro que a rapaziada ficou tristíssima com o que aconteceu. E, para ultrapassar o trauma, decidiu afogar todas as noites a mágoa em bebida.". E depois de reflectir sobre o comportamento desta "malta", termina bem dizendo que "quando na cabecinha de tantos estudantes o direito à bebedeira se sobrepõe ao respeito pela morte, alguma coisa de muito errado se está a passar. Acordem meninos.".
Nem mais.
Na sua crónica de hoje, o João Miguel Tavares reflecte com alguma incredulidade na javardice de comportamento da Federação Académica do Porto perante a morte (por homicídio, há que notar) de um estudante, ao ter decidido continuar com os festejos académicos (?) e não respeitar pelo menos um dia de luto. Entre outras coisas diz ele: "para quem anda à procura de exemplos da selvajaria capitalista, não vale a pena dar-se ao trabalho de esmiuçar as intervenções de Vítor Gaspar - basta olhar para a decisão de não suspender o programa da Semana Académica do Porto depois de um estudante ter sido assassinado a tiro no recinto. (...) O Lado Negro da cerveja é demasiado forte. E por isso os estudantes preferiram apostar em iniciativas simbólicas sem impacto orçamental, tipo bué minutos de silêncio comoventes, 'tão a ver? É claro que a rapaziada ficou tristíssima com o que aconteceu. E, para ultrapassar o trauma, decidiu afogar todas as noites a mágoa em bebida.". E depois de reflectir sobre o comportamento desta "malta", termina bem dizendo que "quando na cabecinha de tantos estudantes o direito à bebedeira se sobrepõe ao respeito pela morte, alguma coisa de muito errado se está a passar. Acordem meninos.".
Nem mais.
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