18.8.12

Carta a um Amigo

Meu Querido,

Por ironia da vida, faz agora, respectivamente, 7 e 6 anos que o teu Pai e a minha Mãe partiram para o Céu. Assim acredito, tal como acredito que velam por nós mesmo quando parece que o não fazem.
Esta vida não tem sido demasiado simples nos últimos anos, pelo menos para mim e, pelo que sei, também tu tens andado um bocado à procura a ver onde te encaixas. Aquilo que vamos dando como adquirido não é adquirido e muda constantemente. Diz a que, para mim, é a melhor filosofia (ainda que seja discutível, como são discutíveis todas as filosofias) que temos de aceitar a impermanência das coisas e, por consequência, aceitar a mudança como algo de inevitável, tão inevitável como a própria vida. Porque é da vida que estamos a falar. A única coisa que ainda não compreendi foi em que medida essas mudanças constantes são, ou devem ser, obra nossa ou se, pura e simplesmente, vão acontecendo independentemente da nossa vontade. Isto não é novo: afinal de contas resume-se um pouco à gasta questão de saber se existe destino ou se o curso dos acontecimentos é completamente ou em grande parte decidido por nós. Que o é em parte não me restam muitas dúvidas, mas que parece haver um guião escrito previamente também me parece evidente, ou não estariam explicados tantos sofrimento e angústia entrincheirados no quotidiano. Fica a dúvida e o pensamento.

O que quero dizer-te sem filosofias baratas é que vou estando por aqui para o que precisares, querendo dizer-te que, do meu ponto de vista, deverias precisar mais do que o tens feito ao longo do tempo, talvez assim evitando alguns amargos de boca que tens tido.

Do meu lado critico-me pelo mesmo, pelo que nessa medida estaremos quites.

Um abraço fraterno, esperando que aí longe onde te encontras agora e vais permanecer no futuro próximo tudo se passe de acordo com os teus desejos e com o que mereces.

17.8.12

Perplexidades

Há um rapaz de 21 anos que mata o pai, tanto quanto se sabe em desespero de causa, para evitar uma desgraça maior (a morte dos quatro filhos) e, talvez também, num misto de raiva por longos anos de violência física familiar tendo por vítimas a mãe (mulher do morto) e os seus irmãos (filhos). No fim desta desgraça, o filho, acompanhado dos irmãos, entrega-se voluntariamente na esquadra e confessa o crime. Fica detido, é apresentado para primeiro interrogatório e fica em prisão preventiva.
Há para aí uns senhores que cometem crimes anos a fio. Crimes não de sangue mas de colarinho branco. Muitas vezes nem são eles que os cometem, apenas são mandantes ("transfere!", "paga!", "recebe!", etc.). Ao fim de anos de investigações e depois de ainda mais anos de lesão do país, a polícia detém-nos e são apresentados para primeiro interrogatório. Poucos, muito poucos deles, ficam em prisão preventiva.
Aquele pobre desgraçado que até agora viveu num autêntico pardieiro, no meio de porcos, electrodomésticos velhos e lixo, numa barraca feita de lata, viu ser-lhe aplicado o brocardo latino "dura lex sed lex". Já para os outros senhores há, chamemos-lhe assim, uma compreensão especial. Afinal vivem em boas casas, têm boas vidas, estão socialmente bem inseridos.
Desenganem-se todos os que pensam que o pobre rapaz de 21 anos é mais perigoso do que aqueles senhores. É, na verdade, muito menos perigoso. E mais, ao contrário daqueles, deve ser honesto: entregou-se depois de desgraçar a sua vida para protegê-le e às dos seus irmãos. Já aqueles delapidaram enquanto puderam o património alheio e mentiram (e continuam a mentir) com quantos dentes têm. E têm muitos porque, ao contrário do rapaz, têm bons e caros dentistas que lhes tratam da higiene oral.

16.8.12

Deamblogações matinais

A notícia é a seguinte:
"1,06 milhões de euros em notas depositados por funcionários na conta do CDS no final de 2004" e vem no Público.

Não sou polícia, não sou político, não sou investigador, não tenho qualquer experiência particular em lidar com casos de corrupção, não tenho provas, não conheço o processo que está a ser investigado, não conheço o CDS-PP nem as pessoas que lá militam (com excepção de algumas que penso estarem à margem disto) e, finalmente, não tenho a mania da perseguição nem estou imbuído de um espírito malévolo que vê maldade em tudo o que mexe.

Mas não sou parvo. Nem eu nem as pessoas que sabem ler. É mesmo só preciso saber ler. Mais nada. Nem concluir, nem interpretar.
Senão, repare-se nisto:

"Em apenas quatro dias foram feitos 105 depósitos, todos em notas, de montantes sempre inferiores a 12.500 euros, quantia a partir da qual era obrigatória a comunicação às autoridades de combate à corrupção."

"Frisando que os 105 depósitos do CDS no BES foram feitos entre os dias 27 e 30 de Dezembro de 2004, "muitos deles com intervalos de minutos e a grande maioria em parcelas de 10 mil euros", os investigadores da PJ descobriram também que os recibos para justificar a entrada daquelas verbas nos cofres do partido teriam sido todos passados em datas posteriores aos depósitos. Os próprios livros com os talões de recibos teriam sido encomendados já em Janeiro de 2005."

"Outros dados curiosos são os que se referem à identificação dos doadores. Os funcionários da sede nacional do CDS emitiram um total de 4216 recibos, neles anotando apenas o montante e o nome do doador, notando a PJ tratar-se provavelmente de dados fictícios, exemplificando com o "sonante e anedótico nome de doador "Jacinto Leite Capelo Rego", no valor de 300 euros"

O dr. Portas, tomado por um cinismo que eu considero demasiado básico, veio dizer que o dr. Abel Pinheiro tinha sido absolvido, não havendo por isso quaisquer provas materiais de cometimento de qualquer crime. Mas quem julga o dr. Portas que engana? O reinado destes chicos espertos há de acabar. Tem de acabar.

13.8.12

Lower Dens - Candy

Deamblogações matinais II

Hoje o Google assinala o nascimento do arquitecto Cassiano Branco. Dele são conhecidas várias obras, mas há dele um estudo que sempre me fascinou: o da Costa Caparica, feito nos anos 30. É arrebatador.


Deamblogações matinais

Há imensos anos ia para uma praia ao pé da Balaia, no Algarve, chamada Santa Eulália. Essa praia tinha uma particularidade curiosa que, de resto, vivi num outro ponto do país durante muitos anos: o facto de estar encurralada entre outras praias consideravelmente frequentadas, embora a própria estivesse longe de estar "ao barrote" (expressão fantástica que, em tom de gozo e dobrando o "r", tenho usado bastante nos últimos tempos) e mantivesse uma traquilidade e identidade muito particulares.
Assim sendo, embora para chegar à praia de Santa Eulália fosse preciso ir por onde toda a gente que queria ir para aqueles lados ia, a verdade é que, chegados à praia, logo se percebia que a confusão pairava relativamente longe.
Estamos a falar dos anos 70 e 80 e, portanto, é evidente que não existiam os agora assim denominados "apoios de praia", com excepção de um: o restaurante do "T'Chico", abreviatura óbvia de "Tio Chico". O T'Chico era um pescador que tinha esse restaurante, o qual nem sequer estava identificado como tal, e que, conjuntamente com a mulher e com uma filha (se não me falha a memória), vendia uns almoços às pessoas, melhor, a algumas pessoas (quase sempre as mesmas, de sempre) que lá iam. Mas, em bom rigor, nem era bem assim: o que ele fazia não era "vender" uns almoços, mas sim vender o peixe que havia pescado nessa madrugada, acompanhado das imutáveis batatas cozidas, pimentos e salada. Não havia mais nada. Outra particularidade era o facto de os clientes participarem na preparação do repasto, pondo eles próprios as mesas. As únicas coisas que não faziam eram os grelhados e as cozeduras, ficando essas a cargo, respectivamente, do T'Chico e da sua mulher. No final das refeições, as pessoas levantavam a mesa, indo colocar os pratos na cozinha, arrumando os galheteiros e pondo o lixo no lixo. Era assim e era bom. Lembro-me de lá estar às três da tarde, com o sol a queimar na praia mesmo em frente e o azul do mar a reluzir convidando ao mergulho. A modorra do fim do almoço empurrava para uma sesta da qual se acordava uma ou duas horas depois. Era assim e era bom.
Houve um ano que não fomos ao Algarve, não me lembro porquê. Mas, como sempre, regressámos no ano seguinte e, também como sempre, regressámos a Santa Eulália e ao T'Chico. A praia existia, bela e luzidia como sempre a tinha achado, talvez mais bela e luzidia que todas as outras do Algarve, mas isso é próprio da nossa subjectividade. O que tinha deixado de existir era o restaurante, o qual tinha sido destruído e dado lugar às fundações do que viria tempo mais tarde a ser o complexo turístico de Santa Eulália (actual hotel Real Santa Eulália). Foi o último ano que viajámos em família para o Algarve. Até hoje.
Anos mais tarde regressei ao Algarve após muito tempo sem lá ir e na euforia das noites grandes regressei àquele local porque funcionava lá a Locomia, então consideravelmente na moda. Detestei tudo: o ambiente, a música, o sítio. Senti algo que sinto com alguma frequência em locais onde de alguma forma fui feliz e que foram ocupados massivamente e que é o de que quase ninguém que ali está agora sabe quão belo era aquilo antes de ser o que se tornou. É algo arrogante, concedo, mas é assim.
Hoje o hotel Real Santa Eulália deve ser extraordinário e os seus hóspedes devem tecer-lhe os maiores elogios, deve aparecer em bons folhetos de propaganda sobre o Algarve como destino selecto. Se calhar mais ainda. Estou-me nas tintas. Para mim foi mais um sítio que morreu, morreu para mim e nasceu para as massas, foi vendido ao sabor dos tempos, da especulação imobiliária e da criação de "necessidades impreteríveis" para ajudar no "desenvolvimento sustentado da região". Não troco um T'Chico por um milhão destes "equipamentos hoteleiros", não troco o prato de plástico azul desbotado por um serviço Vista Alegre e o inevitável guardanapo de papel por um de pano. Não troco e cada vez troco menos. Ao tempo lembro-me bem de comer sargos, douradas, pargos, linguados, salmonetes, robalos e chernes na grelha bem inteiros (antes da moda do "escalado") e com um sabor de frescura que nem um americano do Mid West enganava. Lembro-me de estar descalço a almoçar, a ouvir o som do mar ao fundo, sem música "chill out" a interferir. Lembo-me de sair de lá a cheirar a grelha e a peixe. Lembro-me disso tudo muito bem. Isso é irrepetível para alguém que frequente o local actualmente. Tem outros confortos (sabor dos tempos...), mas quem disse que o conforto vale tudo o resto? Não vale, nem pensar.
Tenho medo que façam o mesmo à única zona que ainda não estragaram em Portugal. Todos os anos vou vendo mais porcaria "auto-sustentável e ambientalmente integrada" de interesse nacional e sem interesse nacional, mas o que sei é que se preparam para rebentar com o bom que ainda existe. Há uns anos dei dez anos para o fim. Agora dou menos. Este ano farei novo balanço.
É tristemente miserável.

12.8.12

Inquietações vespertinas

Na caixa do supermercado a senhora idosa, com uma muleta no braço direito, conta os trocos para tentar pagar sem notas grandes as parcas compras que fez. Por pouco não dá e a senhora tem que ir à carteira, diferente do porta-moedas, buscar o dinheiro. Logo pega num maço fino, diria demasiado fino, de notas de vinte euros e retira uma das notas com a qual paga as compras. À pergunta sobre se tinha onze cêntimos, responde que sim. É evidente que teria que ter onze cêntimos. Volta ao porta-moedas, com a muleta no braço direito sempre a incomodar, e conta as moedas para perfazer a quantia pedida pelo caixa. Quase que se ia embora sem o troco, que, sem eu perceber ao certo quanto era, sempre tinha ainda uma nota de dez euros. Tendo voltado costas como se estivesse absorta em pensamentos que a levavam para longe dali, vi-me tentado a chamá-la quando percebi que não estava a considerar receber o troco. Mas logo se virou e os seus olhos até brilharam quando percebeu que vinha de lá uma nota de dez euros. Não estou a romancear, os olhos brilharam mesmo e ela disse: "E eu que já me ia embora sem tanto dinheiro a que ainda tinha direito!", o caixa sorrindo e eu pensando na pobreza e dificuldades por que deve passar aquela senhora. Passado um pouco voltou e perguntou ao caixa se podia deixar ali o saco durante um bocadinho, tendo o mesmo respondido de forma terna que podia deixar mas que ele não podia vigiar o saco. A senhora deu então uma risada talvez descabida para aquela situação e balbuciou qualquer coisa incompreensível, tendo-se afastado.
Chegada a minha vez de pagar, usei o cartão, tendo demorado não mais de trinta segundos até eu próprio me ir embora depois de ter feito mais umas compras. Não peguei em qualquer maço de notas, nem fino nem grosso, nem procurei ou fui instado a procurar alguns cêntimos para perfazer um montante exacto para o troco. Voltei então a pensar naquela senhora e em todas as pessoas no lugar daquela senhora, e são muitas e cada vez mais, que têm à sua disposição um magro maço de notas - e tão magro que é para a altura do mês em que nos encontramos - e usam cada moeda de cêntimo com a mesma cautela com que nós, todos os outros, lidamos com as notas de cinquenta. Essas mesmas moedas que me enervam e que eu não quero as mais das vezes ter na carteira. Carteira, não porta-moedas.

10.8.12

Deamblogações matinais

Subtle voices in the wind,
Hear the truth they're telling
A world begins where the road ends
Watch me leave it all behind

Far behind, Eddie Vedder

9.8.12


Rumo ao Sul - Apontamentos 9

O papel das mulheres nas sociedades islâmicas é objecto das mais diversas leituras e opiniões por parte dos ocidentais. Não tenho competência nem conhecimento suficientes para falar sobre o tema. Ainda assim, há aspectos que me interessam. Em primeiro lugar, há que distinguir os países muçulmanos de que se fala. Marrocos não tem nada a ver com a Arábia Saudita, que por sua vez nada tem que ver com a Turquia ou a Tunísia e por aí fora. Dentro do próprio Islão, existem diferenças muito assinaláveis na forma como as mulheres vivem e se relacionam em sociedade. Ou seja, dentro do próprio Islão existem diversas interpretações e consequentes aplicações da Sharia, que é o código de leis islâmico. Desde o uso do Shador ao desempenho profissional, as mulheres têm uma missão que creio ser muito difícil no mundo árabe. Um dos aspectos que me fascinam em Marrocos é a convivência aparentemente pacífica entre diferentes vivências da Sharia: mulheres muçulmanas de tailleur cruzam-se com outras completamente tapadas, o que inclui as mãos e os pés (só os olhos aparecem por detrás de uma fresta pequena). É certo que não se vêem mini-saias nem mulheres com roupa de Verão e que, na sua grande maioria, há sempre uma ligação visível ao Islão - seja porque têm uma túnica, seja porque têm um lenço, seja porque não cruzam o seu olhar com homens -, mas nota-se uma abertura, ainda que ligeira, a costumes menos rigorosos. Mas ao mesmo tempo que vemos muitas mulheres nas ruas, não vemos todas as que estão em casa e de lá pouco ou nada saem, porque o seu papel na economia familiar é o tratamento do lar.
Ao falar com um marroquino upper class e tendo-o questionado sobre uma aparente subalternização da mulher relativamente ao homem, o mesmo respondeu-me que assim não era e que a Sharia colocava ambos os sexos em igualdade de circunstâncias, embora defendendo papéis distintos na sociedade. Frisou que ambos têm direitos e obrigações que se entrecruzam e que devem ser praticados, dando como exemplo que uma mulher não deve olhar nos olhos outro homem porque pode estar a dar um sinal errado (tem, pois, como obrigação não olhar), mas o homem também não deve procurar que a mulher se sinta tentada a olhar para ele (tem, também, assim a obrigação de não olhar). Não desenvolvemos o tema, mas tenho dúvidas sobre as consequências desta regra ser quebrada, sobretudo sobre quem seria culpado. Quer-me parecer que não seria o homem...
Por outro lado, falei sobre o mesmo tema com uma estrangeira casada com um marroquino que me assegurou que a sociedade islâmica trata diferentemente ambos os sexos, diminuindo o papel e importância da mulher relativamente ao homem. Admito que é visível essa diferenciação (na rua vêem-se muito mais homens, nos cafés só se vêem homens e não podem entrar mulheres, etc., etc.), mas não estou seguro acerca da generalização. Até porque - e sobretudo porque - percebi que a Sharia permite diversas interpretações.
A propósito disso, vi uma entrevista de Nuno Rogeiro a um professor de Direito Islâmico na Sociedade das Nações (que não me parece ainda estar disponível on-line) que permite concluir isso mesmo.
Para aprofundar.

Deamblogações matinais

A guerra civil na Síria e os massacres que tudos os dias ali acontecem têm sido a prova viva de que a comunidade internacional, e a ONU em particular, está profundamente doente e a precisar de mudanças profundas e rápidas.

7.8.12

E houve um dia alguém que tocou assim...


Rumo ao Sul - Apontamentos 8

Lá fora o calor, a sujidade, a amálgama por vezes incómoda de pessoas, os carros, o barulho. Dentro, a frescura, a higiene, o silêncio sincopado por uns toques de trompete, por vezes, outras de piano, mas sempre bem e ao sabor do momento do dia.
É essa a sensação do Riad. Ninguém o adivinha da porta para fora, o paraíso que ali está dentro, o bom gosto, o art-déco oportuno e com sentido, a ausência de maneirismos inúteis e que só complicam, os recantos para estar, o verde das árvores e plantas, a eterna arara que é muda, a fonte que dá de beber a tantos pássaros que por lá passam.
Foi com sorte que, um dia, este Riad nos apareceu à frente sem sabermos exactamente ao que íamos. Haverá muitos mais, provavelmente melhores, ou porque têm uma gastronomia excelente ou porque têm um luxo imbatível ou porque têm camas ultra king size ou por isto ou por aquilo. A mim nada disso me importa. Cada vez mais me importa a escolha em função dos afectos e este Riad é, para mim, imbatível. Porque me sinto lá muito bem, porque me revejo em muitas das escolhas que foram feitas por quem decidiu a sua forma final, porque quero sempre lá voltar. Afinal de contas, o que muitos procuram e quase nenhuns conseguem. Por isso, os outros, com todo o respeito, que se lixem. Ali encontrei o sítio onde, se puder, regressarei sempre.

6.8.12

Rumo ao Sul - Apontamentos 7


 


 Tooth Puller at Djemaa el Fna, Marrakesh; dentistry, toothache
 

5.8.12

Rumo ao Sul - Apontamentos 6

Apesar de ter sido uma viagem pouco "turística", no sentido de que visitámos locais e gentes fora das rotas massificadas, existem sempre coisas a ver que se encontram nessas rotas e não há nada de mal nisso. Quando tal acontece, talvez ajude pensar numa forma alternativa de olhar e viver o que se está a visitar, seja porque se faz a uma hora pouco habitual, seja porque se começa do "fim", seja ainda porque se olha para pequenos pormenores em vez do todo ou vice-versa. É com cada um.
Existe, contudo, um sítio onde tudo isto é muito relativo. É um sítio indiscutivelmente turístico e simultaneamente muito frequentado pelos locais, é um sítio enorme para onde confluem milhares de pessoas ao mesmo tempo mas onde cada um tem um propósito e uma visão distintos dos demais e é um sítio onde tudo, literalmente tudo, pode acontecer. Esse sítio é Jemaa el-Fna.
Em Jemaa el-Fna existem ladrões, carteiristas, burlões, palhaços, acrobatas, prostitutas, charlatães, loucos, excêntricos, médicos, curandeiros, feiticeiros, leitores da sina, encantadores de serpentes, encantadores de carteiras, encantadores de turistas mais incautos, contadores de histórias, artistas dos sete ofícios, "o homem mais forte do mundo" com uma figura patética e enfezada de tanta fome que passa e que se limita a dar uns murros numa caixa vazia de fruta sem, no entanto, a partir, "o melhor dançarino do mundo" que a única coisa que faz é dar uns passos descordenados de dança ao alcance de qualquer criança de cinco anos, rodas de mulheres a pintar a pele e os cabelos de clientes, homens que levam os seus gramofones e amplificadores e que decidem tocar e projectar o som dos seus instrumentos, bandas de música (a maioria muito má e desafinada) que tocam instrumentos por vezes desconhecidos de todos e inexistentes nos compêndios musicais, vendedores da banha da cobra que prometem milagres sexuais para quem lhes comprar ovos de avestruz, raízes de árvores ou algum outro produto que tenham para venda em caixas mais ou menos sugestivas, domadores de cobras, macacos e lagartos, vendedores de galinhas, patos e ovos, centenas de bancas de sumos e comida, curiosos que se passeiam para ver o que morde, interessados que se passeiam para morder, enfim, um sem-número de utilizadores (o termo é mesmo este) neste lugar mágico.
Neste regresso a Jemaa el-Fna, houve dois episódios que me fascinaram: o primeiro foi o de um homem que explicava com uma convicção absolutamente arrebatadora a uma pequena plateia de homens que assistia alguma coisa (era em árabe) sobre o órgão sexual masculino. Para isso tinha na mão uma caneta BIC que, segundo percebi, simulava o falo e em cima da banca duas páginas de um livro com o referido órgão devidamente desenhado acompanhado de uma explicação qualquer  em jeito de livro de biologia. Todos o escutavam atentamente e eu dei por mim fascinado com a força e convicção da palestra. Por vezes é melhor não compreender tudo o que se escuta (acontece, por exemplo, com as letras das canções), porque talvez me tivesse desinteressado se percebesse o que ele dizia (embora, reconheço, isso fosse pouco provável...). O segundo episódio aconteceu logo de seguida ao deambular pela praça: um homem negro vestido de feiticeiro empunhava um lagarto numa das mãos (a forma era a de um dragão do Komodo, embora muito mais pequeno) e uma faca de cozinha pequena na outra. Falava igualmente com uma convicção fora do comum e eu, bem mais do que aconteceu com o outro, fiquei com enorme pena por não conseguir compreender. Para além de falar, gesticulava, levantava-se, sentava-se, prendia o lagarto com o pé, voltava a pegar-lhe com a mão, invocava Alá e o deserto do Sahara. Às tantas, começou a afiar a faca no chão, enquanto prendia o lagarto com o joelho, isto tudo ao mesmo tempo que gesticulava muito e berrava que nem um desalmado, dando a sensação de que ia cortar o pescoço ao bicho. Estava uma meia-lua muito considerável de pessoas absolutamente em suspenso a ver quando é que ia haver sangue. Mas, de repente, nós os dois começámos a rir às gargalhadas, num misto de nervos e porque tudo aquilo era demasiado excêntrico para ser verdade, tendo quebrado um pouco a atmosfera de suspense que se tinha criado, porque toda a gente nos seguiu rindo alto e bom som, assim aliviando um pouco a tensão do momento (que, no entanto, recomeçou no segundo a seguir). Não sei se o lagarto sobreviveu. Provavelmente sim (e havia mais um dentro do saco do homem), mas na verdade nada disso interessa porque o lagarto era apenas um dos motivos, e nem sequer o principal, para as pessoas estarem a ver o feiticeiro a actuar. Nós viemos embora, mas o resto da gente ficou lá a ver como é que aquilo ia acabar.
Jemaa el-Fna é isto e é muito mais. É único.
Como diz um grande amigo, é o sítio onde os coxos dançam e os cegos riem. Nem mais.

3.8.12

Reminiscências de viajante


2.8.12

Rumo ao Sul - Apontamentos 5

Queríamos entrar numa discoteca. À porta havia um balcão onde estava escrito que os muçulmanos não podiam beber álcool, just in case se esquecessem. À nossa frente um local foi relembrado desse facto, ao que se apressou a dizer que sim com ar convicto. Chegada a nossa vez percebi que me tinha esquecido do passaporte e de que não tinha qualquer documento de identificação comigo. Pas de problème monsieur, mas não vai poder beber álcool. Como quem diz: não podes garantir que não és muçulmano, por isso estás proibido de beber álcool. Não tive por isso direito a uma pulseira que colocavam nas pessoas com direito a esse alterador de consciência e, talvez pela primeira vez na vida, senti-me algo discriminado. Ainda assim, não imagino como seja com coisas verdadeiramente importantes. Esta sociedade não tem pejo em diferenciar publicamente e aos olhos de todos em nome da religião. Mas nós somos portugueses e, para além disso, eu não sou de facto muçulmano. Como tal, não há pulseirinha para mim?, pas de problème, on fait un petit détour aux règles. Não vou pedir qualquer bebida ao bar e vai haver quem peça por mim. E assim foi. Bebi o que teria bebido se tivesse pulseirinha. Acabou pois por ser um negócio win-win: eles ficaram contentes porque mantiveram as regras e eu fiquei contente porque estraguei um pouco mais o fígado.
Claro que isto levanta uma questão bem mais profunda e que tem que ver com a validade real das regras, mas isso é coisa que fica para outra vez.

1.8.12

Rumo ao Sul - Apontamentos 4

Vive-se o Ramadão por estes lados, o que é em si uma experiência nova para nós. Nunca tínhamos visto - e vivido - essa altura do ano em que os muçulmanos não podem comer e beber desde o nascer até ao pôr-do-sol. Imagine-se, pois, o que deve ser estar sem beber água durante o dia com quase cinquenta graus de temperatura. Quase cinquenta graus são mesmo quase cinquenta graus, não se trata de qualquer eufemismo. É verdade que há muita gente que não faz literalmente nada durante o dia e vegeta pura e simplesmente, mas também é verdade que muita outra trabalha normalmente (sobretudo na área dos serviços) e aguenta firmemente até ao fim do dia. Por volta das 19h30 há um sinal audível na cidade, que pode ser desde um estrondo de canhão até uma sirene, que marca o fim do jejum. Nessa altura dizem os locais que o que mais desejam é poder beber água. Pudera. É de uma exigência absolutamente inumana.
Mas esta experiência mudou a forma como eu encaro o Islão. Uma das coisas que mais comentei com locais durante a viagem foi a de que devia ser duro estar o dia todo sem comer e beber. Em todas as vezes recebi respostas serenas sobre quais as vantagens do Ramadão para o corpo e para a mente e de que, passados os primeiros dias, estava tudo bem. Quase não parecia que estávamos a falar de 29 dias. Em todas essas respostas vi a fé inabalável a fazer compreender e aceitar o que à partida pareceria insuportável a qualquer ser humano. E mais: vi isso acontecer sem queixumes, nem caras de sofrimento, muitas vezes até com um sorriso de contentamento e orgulho. Isso mudou a forma como eu passei a encarar estas pessoas. Não descuro que essa mesma fé permite actos de uma violência bastarda e inumana, mas tem aspectos verdadeiramente impressionantes.

Rumo ao Sul - Apontamentos 3

Há coisas que não estão no sítio. Que deviam ser diferentes do que são. Neste país, neste momento não estão no sítio. Há um vazio que me sufoca quase como a temperatura estupidamente alta que está. Mas é mesmo assim. A ausência é substituída pela memória do que podia ter sido e não foi. Resta a esperança. Que a haja. Minha querida, meu querido, que a haja.

Rumo ao Sul - Apontamentos 2




Coisas muito importantes.