5.8.12

Rumo ao Sul - Apontamentos 6

Apesar de ter sido uma viagem pouco "turística", no sentido de que visitámos locais e gentes fora das rotas massificadas, existem sempre coisas a ver que se encontram nessas rotas e não há nada de mal nisso. Quando tal acontece, talvez ajude pensar numa forma alternativa de olhar e viver o que se está a visitar, seja porque se faz a uma hora pouco habitual, seja porque se começa do "fim", seja ainda porque se olha para pequenos pormenores em vez do todo ou vice-versa. É com cada um.
Existe, contudo, um sítio onde tudo isto é muito relativo. É um sítio indiscutivelmente turístico e simultaneamente muito frequentado pelos locais, é um sítio enorme para onde confluem milhares de pessoas ao mesmo tempo mas onde cada um tem um propósito e uma visão distintos dos demais e é um sítio onde tudo, literalmente tudo, pode acontecer. Esse sítio é Jemaa el-Fna.
Em Jemaa el-Fna existem ladrões, carteiristas, burlões, palhaços, acrobatas, prostitutas, charlatães, loucos, excêntricos, médicos, curandeiros, feiticeiros, leitores da sina, encantadores de serpentes, encantadores de carteiras, encantadores de turistas mais incautos, contadores de histórias, artistas dos sete ofícios, "o homem mais forte do mundo" com uma figura patética e enfezada de tanta fome que passa e que se limita a dar uns murros numa caixa vazia de fruta sem, no entanto, a partir, "o melhor dançarino do mundo" que a única coisa que faz é dar uns passos descordenados de dança ao alcance de qualquer criança de cinco anos, rodas de mulheres a pintar a pele e os cabelos de clientes, homens que levam os seus gramofones e amplificadores e que decidem tocar e projectar o som dos seus instrumentos, bandas de música (a maioria muito má e desafinada) que tocam instrumentos por vezes desconhecidos de todos e inexistentes nos compêndios musicais, vendedores da banha da cobra que prometem milagres sexuais para quem lhes comprar ovos de avestruz, raízes de árvores ou algum outro produto que tenham para venda em caixas mais ou menos sugestivas, domadores de cobras, macacos e lagartos, vendedores de galinhas, patos e ovos, centenas de bancas de sumos e comida, curiosos que se passeiam para ver o que morde, interessados que se passeiam para morder, enfim, um sem-número de utilizadores (o termo é mesmo este) neste lugar mágico.
Neste regresso a Jemaa el-Fna, houve dois episódios que me fascinaram: o primeiro foi o de um homem que explicava com uma convicção absolutamente arrebatadora a uma pequena plateia de homens que assistia alguma coisa (era em árabe) sobre o órgão sexual masculino. Para isso tinha na mão uma caneta BIC que, segundo percebi, simulava o falo e em cima da banca duas páginas de um livro com o referido órgão devidamente desenhado acompanhado de uma explicação qualquer  em jeito de livro de biologia. Todos o escutavam atentamente e eu dei por mim fascinado com a força e convicção da palestra. Por vezes é melhor não compreender tudo o que se escuta (acontece, por exemplo, com as letras das canções), porque talvez me tivesse desinteressado se percebesse o que ele dizia (embora, reconheço, isso fosse pouco provável...). O segundo episódio aconteceu logo de seguida ao deambular pela praça: um homem negro vestido de feiticeiro empunhava um lagarto numa das mãos (a forma era a de um dragão do Komodo, embora muito mais pequeno) e uma faca de cozinha pequena na outra. Falava igualmente com uma convicção fora do comum e eu, bem mais do que aconteceu com o outro, fiquei com enorme pena por não conseguir compreender. Para além de falar, gesticulava, levantava-se, sentava-se, prendia o lagarto com o pé, voltava a pegar-lhe com a mão, invocava Alá e o deserto do Sahara. Às tantas, começou a afiar a faca no chão, enquanto prendia o lagarto com o joelho, isto tudo ao mesmo tempo que gesticulava muito e berrava que nem um desalmado, dando a sensação de que ia cortar o pescoço ao bicho. Estava uma meia-lua muito considerável de pessoas absolutamente em suspenso a ver quando é que ia haver sangue. Mas, de repente, nós os dois começámos a rir às gargalhadas, num misto de nervos e porque tudo aquilo era demasiado excêntrico para ser verdade, tendo quebrado um pouco a atmosfera de suspense que se tinha criado, porque toda a gente nos seguiu rindo alto e bom som, assim aliviando um pouco a tensão do momento (que, no entanto, recomeçou no segundo a seguir). Não sei se o lagarto sobreviveu. Provavelmente sim (e havia mais um dentro do saco do homem), mas na verdade nada disso interessa porque o lagarto era apenas um dos motivos, e nem sequer o principal, para as pessoas estarem a ver o feiticeiro a actuar. Nós viemos embora, mas o resto da gente ficou lá a ver como é que aquilo ia acabar.
Jemaa el-Fna é isto e é muito mais. É único.
Como diz um grande amigo, é o sítio onde os coxos dançam e os cegos riem. Nem mais.