1.8.12

Rumo ao Sul - Apontamentos 4

Vive-se o Ramadão por estes lados, o que é em si uma experiência nova para nós. Nunca tínhamos visto - e vivido - essa altura do ano em que os muçulmanos não podem comer e beber desde o nascer até ao pôr-do-sol. Imagine-se, pois, o que deve ser estar sem beber água durante o dia com quase cinquenta graus de temperatura. Quase cinquenta graus são mesmo quase cinquenta graus, não se trata de qualquer eufemismo. É verdade que há muita gente que não faz literalmente nada durante o dia e vegeta pura e simplesmente, mas também é verdade que muita outra trabalha normalmente (sobretudo na área dos serviços) e aguenta firmemente até ao fim do dia. Por volta das 19h30 há um sinal audível na cidade, que pode ser desde um estrondo de canhão até uma sirene, que marca o fim do jejum. Nessa altura dizem os locais que o que mais desejam é poder beber água. Pudera. É de uma exigência absolutamente inumana.
Mas esta experiência mudou a forma como eu encaro o Islão. Uma das coisas que mais comentei com locais durante a viagem foi a de que devia ser duro estar o dia todo sem comer e beber. Em todas as vezes recebi respostas serenas sobre quais as vantagens do Ramadão para o corpo e para a mente e de que, passados os primeiros dias, estava tudo bem. Quase não parecia que estávamos a falar de 29 dias. Em todas essas respostas vi a fé inabalável a fazer compreender e aceitar o que à partida pareceria insuportável a qualquer ser humano. E mais: vi isso acontecer sem queixumes, nem caras de sofrimento, muitas vezes até com um sorriso de contentamento e orgulho. Isso mudou a forma como eu passei a encarar estas pessoas. Não descuro que essa mesma fé permite actos de uma violência bastarda e inumana, mas tem aspectos verdadeiramente impressionantes.