13.8.12

Deamblogações matinais

Há imensos anos ia para uma praia ao pé da Balaia, no Algarve, chamada Santa Eulália. Essa praia tinha uma particularidade curiosa que, de resto, vivi num outro ponto do país durante muitos anos: o facto de estar encurralada entre outras praias consideravelmente frequentadas, embora a própria estivesse longe de estar "ao barrote" (expressão fantástica que, em tom de gozo e dobrando o "r", tenho usado bastante nos últimos tempos) e mantivesse uma traquilidade e identidade muito particulares.
Assim sendo, embora para chegar à praia de Santa Eulália fosse preciso ir por onde toda a gente que queria ir para aqueles lados ia, a verdade é que, chegados à praia, logo se percebia que a confusão pairava relativamente longe.
Estamos a falar dos anos 70 e 80 e, portanto, é evidente que não existiam os agora assim denominados "apoios de praia", com excepção de um: o restaurante do "T'Chico", abreviatura óbvia de "Tio Chico". O T'Chico era um pescador que tinha esse restaurante, o qual nem sequer estava identificado como tal, e que, conjuntamente com a mulher e com uma filha (se não me falha a memória), vendia uns almoços às pessoas, melhor, a algumas pessoas (quase sempre as mesmas, de sempre) que lá iam. Mas, em bom rigor, nem era bem assim: o que ele fazia não era "vender" uns almoços, mas sim vender o peixe que havia pescado nessa madrugada, acompanhado das imutáveis batatas cozidas, pimentos e salada. Não havia mais nada. Outra particularidade era o facto de os clientes participarem na preparação do repasto, pondo eles próprios as mesas. As únicas coisas que não faziam eram os grelhados e as cozeduras, ficando essas a cargo, respectivamente, do T'Chico e da sua mulher. No final das refeições, as pessoas levantavam a mesa, indo colocar os pratos na cozinha, arrumando os galheteiros e pondo o lixo no lixo. Era assim e era bom. Lembro-me de lá estar às três da tarde, com o sol a queimar na praia mesmo em frente e o azul do mar a reluzir convidando ao mergulho. A modorra do fim do almoço empurrava para uma sesta da qual se acordava uma ou duas horas depois. Era assim e era bom.
Houve um ano que não fomos ao Algarve, não me lembro porquê. Mas, como sempre, regressámos no ano seguinte e, também como sempre, regressámos a Santa Eulália e ao T'Chico. A praia existia, bela e luzidia como sempre a tinha achado, talvez mais bela e luzidia que todas as outras do Algarve, mas isso é próprio da nossa subjectividade. O que tinha deixado de existir era o restaurante, o qual tinha sido destruído e dado lugar às fundações do que viria tempo mais tarde a ser o complexo turístico de Santa Eulália (actual hotel Real Santa Eulália). Foi o último ano que viajámos em família para o Algarve. Até hoje.
Anos mais tarde regressei ao Algarve após muito tempo sem lá ir e na euforia das noites grandes regressei àquele local porque funcionava lá a Locomia, então consideravelmente na moda. Detestei tudo: o ambiente, a música, o sítio. Senti algo que sinto com alguma frequência em locais onde de alguma forma fui feliz e que foram ocupados massivamente e que é o de que quase ninguém que ali está agora sabe quão belo era aquilo antes de ser o que se tornou. É algo arrogante, concedo, mas é assim.
Hoje o hotel Real Santa Eulália deve ser extraordinário e os seus hóspedes devem tecer-lhe os maiores elogios, deve aparecer em bons folhetos de propaganda sobre o Algarve como destino selecto. Se calhar mais ainda. Estou-me nas tintas. Para mim foi mais um sítio que morreu, morreu para mim e nasceu para as massas, foi vendido ao sabor dos tempos, da especulação imobiliária e da criação de "necessidades impreteríveis" para ajudar no "desenvolvimento sustentado da região". Não troco um T'Chico por um milhão destes "equipamentos hoteleiros", não troco o prato de plástico azul desbotado por um serviço Vista Alegre e o inevitável guardanapo de papel por um de pano. Não troco e cada vez troco menos. Ao tempo lembro-me bem de comer sargos, douradas, pargos, linguados, salmonetes, robalos e chernes na grelha bem inteiros (antes da moda do "escalado") e com um sabor de frescura que nem um americano do Mid West enganava. Lembro-me de estar descalço a almoçar, a ouvir o som do mar ao fundo, sem música "chill out" a interferir. Lembo-me de sair de lá a cheirar a grelha e a peixe. Lembro-me disso tudo muito bem. Isso é irrepetível para alguém que frequente o local actualmente. Tem outros confortos (sabor dos tempos...), mas quem disse que o conforto vale tudo o resto? Não vale, nem pensar.
Tenho medo que façam o mesmo à única zona que ainda não estragaram em Portugal. Todos os anos vou vendo mais porcaria "auto-sustentável e ambientalmente integrada" de interesse nacional e sem interesse nacional, mas o que sei é que se preparam para rebentar com o bom que ainda existe. Há uns anos dei dez anos para o fim. Agora dou menos. Este ano farei novo balanço.
É tristemente miserável.