Na caixa do supermercado a senhora idosa, com uma muleta no braço direito, conta os trocos para tentar pagar sem notas grandes as parcas compras que fez. Por pouco não dá e a senhora tem que ir à carteira, diferente do porta-moedas, buscar o dinheiro. Logo pega num maço fino, diria demasiado fino, de notas de vinte euros e retira uma das notas com a qual paga as compras. À pergunta sobre se tinha onze cêntimos, responde que sim. É evidente que teria que ter onze cêntimos. Volta ao porta-moedas, com a muleta no braço direito sempre a incomodar, e conta as moedas para perfazer a quantia pedida pelo caixa. Quase que se ia embora sem o troco, que, sem eu perceber ao certo quanto era, sempre tinha ainda uma nota de dez euros. Tendo voltado costas como se estivesse absorta em pensamentos que a levavam para longe dali, vi-me tentado a chamá-la quando percebi que não estava a considerar receber o troco. Mas logo se virou e os seus olhos até brilharam quando percebeu que vinha de lá uma nota de dez euros. Não estou a romancear, os olhos brilharam mesmo e ela disse: "E eu que já me ia embora sem tanto dinheiro a que ainda tinha direito!", o caixa sorrindo e eu pensando na pobreza e dificuldades por que deve passar aquela senhora. Passado um pouco voltou e perguntou ao caixa se podia deixar ali o saco durante um bocadinho, tendo o mesmo respondido de forma terna que podia deixar mas que ele não podia vigiar o saco. A senhora deu então uma risada talvez descabida para aquela situação e balbuciou qualquer coisa incompreensível, tendo-se afastado.
Chegada a minha vez de pagar, usei o cartão, tendo demorado não mais de trinta segundos até eu próprio me ir embora depois de ter feito mais umas compras. Não peguei em qualquer maço de notas, nem fino nem grosso, nem procurei ou fui instado a procurar alguns cêntimos para perfazer um montante exacto para o troco. Voltei então a pensar naquela senhora e em todas as pessoas no lugar daquela senhora, e são muitas e cada vez mais, que têm à sua disposição um magro maço de notas - e tão magro que é para a altura do mês em que nos encontramos - e usam cada moeda de cêntimo com a mesma cautela com que nós, todos os outros, lidamos com as notas de cinquenta. Essas mesmas moedas que me enervam e que eu não quero as mais das vezes ter na carteira. Carteira, não porta-moedas.