Há um rapaz de 21 anos que mata o pai, tanto quanto se sabe em desespero de causa, para evitar uma desgraça maior (a morte dos quatro filhos) e, talvez também, num misto de raiva por longos anos de violência física familiar tendo por vítimas a mãe (mulher do morto) e os seus irmãos (filhos). No fim desta desgraça, o filho, acompanhado dos irmãos, entrega-se voluntariamente na esquadra e confessa o crime. Fica detido, é apresentado para primeiro interrogatório e fica em prisão preventiva.
Há para aí uns senhores que cometem crimes anos a fio. Crimes não de sangue mas de colarinho branco. Muitas vezes nem são eles que os cometem, apenas são mandantes ("transfere!", "paga!", "recebe!", etc.). Ao fim de anos de investigações e depois de ainda mais anos de lesão do país, a polícia detém-nos e são apresentados para primeiro interrogatório. Poucos, muito poucos deles, ficam em prisão preventiva.
Aquele pobre desgraçado que até agora viveu num autêntico pardieiro, no meio de porcos, electrodomésticos velhos e lixo, numa barraca feita de lata, viu ser-lhe aplicado o brocardo latino "dura lex sed lex". Já para os outros senhores há, chamemos-lhe assim, uma compreensão especial. Afinal vivem em boas casas, têm boas vidas, estão socialmente bem inseridos.
Desenganem-se todos os que pensam que o pobre rapaz de 21 anos é mais perigoso do que aqueles senhores. É, na verdade, muito menos perigoso. E mais, ao contrário daqueles, deve ser honesto: entregou-se depois de desgraçar a sua vida para protegê-le e às dos seus irmãos. Já aqueles delapidaram enquanto puderam o património alheio e mentiram (e continuam a mentir) com quantos dentes têm. E têm muitos porque, ao contrário do rapaz, têm bons e caros dentistas que lhes tratam da higiene oral.