3.7.13

Deamblogações matinais


Sempre fui social-democrata. O "sempre" é desde que tenho consciência cívica e política, desde que comecei a interessar-me pelas medidas de política que eram adoptadas pelos diversos Governos que iam dirigindo o país.
O PSD foi, certamente, o partido que melhor encaixava essa tendência, não apenas porque se definia como social democrata, mas porque tinha a social-democracia inscrito na sua carta constitutiva.
Mas, da mesma maneira que o nome de um qualquer contrato não se impõe ao seu conteúdo, o facto de o PSD se dizer social-democrata foi, com o passar do tempo, perdendo importância, chegando à irrelevância actual. Entre liberal, de direita, de centro e o que mais for, muita coisa se lhe pode chamar. Ou nada. Daí a necessidade de estarem sempre a invocar o nome de Sá Carneiro, como se este fosse o ferro que pudesse atestar a verosimilhança da social-democracia. É evidente que não pode. Até porque a social-democracia de Sá Carneiro tinha muito de socialismo, sendo necessário uma interpretação actualista que, ao que vejo, nunca ninguém soube (nem quis) fazer.
Lembro-me de, no passado, considerar que o CDS - quando era um partido de quadros com uma verdadeira inclinação democrata cristã - era essencial ao governo do país, como contrabalanço do PSD nesse mesmo governo, porque lhe dava um cunho personalista mais vincado. Não que o PSD não fosse personalista, porque o era (não sei se ainda é, creio que não...), mas porque o CDS tinha essa marca bem sulcada na sua génese. Adriano Moreira, Lucas Pires e Freitas do Amaral, este último até certo período, eram incontornáveis defensores de uma visão democrata-cristã da sociedade, onde o indivíduo solidário (um pouco diferentemente do PSD, para o qual o indivíduo era visto de forma mais egoísta e como propulsor, de per se, do movimento social) era central.
Manuel Monteiro e a sua deriva populista deram definitivamente cabo do CDS e, a meu ver, não apenas do CDS mas do próprio PSD, porque este vivia no já referido contra-balanço entre as duas tendências complementares acima ditas, tendo ficado sem o outro prato da balança e tendo sentido uma atracção vertiginosa pela real politik do betão armado e do "progresso" do país. Foram os anos de ouro de Cavaco. Quando se fizer a história política do século XX português, espero que não esqueçam o papel desgraçadamente central de Monteiro. Ele foi bem mais importante do que a sua irrelevância presente o revela.
Ao longo dos anos, existiram opções do CDS com as quais me identifiquei e que para mim faziam (e fazem) sentido, enquanto crente no valor da pessoa humana solidária como centro do bem-estar e da evolução sociais. Coisas como a diminuição da carga fiscal, a tendencial eliminação das barreiras ao investimento interno e externo, a diminuição do peso do Estado em sectores da economia (divirjo relativamente ao SNS e à educação), a valorização do investimento, etc., etc. Apesar de assim ser, nunca consegui votar CDS. Nunca. Isso para mim tem hoje uma razão de ser muito evidente: por mais que eu pudesse acreditar nas opções políticas anunciadas, não conseguia acreditar nas pessoas que as anunciavam e que demonstrariam responsabilidade pela sua concretização. Paulo Portas, em concreto, era e sempre foi o rosto da minha desconfiança. Desde os tempos d'O Independente que eu seguia com atenção, senti o quão pouco fiável Portas era e, nessa medida, eu seria incapaz de lhe dar o meu voto.
Com o correr do tempo, foram, assim, desaparecendo os partidos políticos em que eu, mais ou menos, me revia ideologicamente. O CDS porque, no essencial, não acreditava nos seus dirigentes, o PSD porque foi deixando pura e simplesmente de ter ideologia. Isso está, de resto, muito bem retratado em várias obras que se dedicam a explicar, sobretudo este último fenómeno.
Chegamos aqui e ao facto de termos Cavaco como presidente, Passos como primeiro-ministro e Portas como (ainda) ministro de Estado e dos negócios estrangeiros. Para fechar o quadrado (e não acho que seja assim tão irrelevante quanto o querem fazer crer), temos Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia.
O que se tem passado nestes tempos em Portugal parece surreal, mas infelizmente é bem real. E é tão real quanto irresponsável, negligente e não sei mesmo se doloso.
Com o que se passou ontem, fiquei decidida e intemporalmente arredado dos dois partidos com os quais sempre mais me identifiquei. PSD e CDS foram postergados das minhas intenções de voto nos próximos anos, a menos que veja que alguma coisa muda radicalmente. E incluo nessa possibilidade o aparecimento de alguém em quem confie (por enquanto, não vejo ninguém nem perto disso). E faço-o também (mas não só) por protesto. Porque quero mesmo que estes dois partidos tenham menos votos do que no passado, quero que os caciques e todos os que à volta deles gravitam sintam na pele que perderam o poder que tiveram durante anos e anos a fio e que tanto mal nos fez. Quero que estes dois partidos percam representatividade e se sintam humilhados e envergonhados perante o país eleitor. Quero mesmo. O que aconteceu nestes dias (e ainda está a acontecer) é uma absoluta pouca vergonha. Como ontem dizia Pedro Adão e Silva (e estou-me nas tintas para o facto de ser socialista, porque o que ele disse é óbvio e nada tem que ver com partidos), passou-se da tragédia ao drama.
Esta gente devia ter vergonha, a mesma vergonha que ontem senti ao ouvir Passos pateticamente a invocar uma coragem que eu não lhe reconheço, a mesma vergonha que vou sentir ao ouvir Portas a justificar o seu abandono e, finalmente, a mesma exacta vergonha que vou sentir ao ouvir Cavaco a não conseguir colocar os interesses do país à frente dos seus próprios interesses. Por uma vez ele deveria fazê-lo. Mas não consegue. E não sabe.
Seria tudo cómico, não fosse real e bem real.