26.7.10

Inquietações vespertinas

Reportagem do Público de hoje sobre a tragédia de Sábado no Love Parade. A certo passo, entrevista a uma raver, Anneke Kuypers, que diz o seguinte: "Como tenho formação em socorrismo, tentei ajudar um bocadinho. As pessoas estavam desidratadas, algumas tinham bebido de mais, ou tomado drogas... No fim fui dançar porque queria descomprimir. Mas perdi o rasto aos meus amigos.". Números oficiais: 19 mortos e 342 feridos. Muitos classificam o cenário de "inferno".
Não me choca demasiado que a organização tenha decidido continuar o evento porque, a dar-se por confirmada a presença de 1,6 milhões de pessoas, imagina-se facilmente a catástrofe que teria ocorrido em caso de pânico generalizado. Eu parto do princípio de que os organizadores de um evento que ia na sua 19.ª edição deixaram há muito de ser amadores e meros apreciadores de música de dança, tendo, por força da organização anual reiterada e do facto de terem nacionalidade alemã (que tem por base rigor e exigência), ganho experiência suficiente para tomar decisões rápidas em casos de emergência como este. É, por isso, fácil criticar a organização por ter decidido manter a festa, mas quem o faz não imaginará quais as possíveis consequências de uma decisão diferente.
Muito pior do que essa decisão é, no entanto, a da rapariga acima citada que, depois de dar "um bocadinho" de ajuda, decidiu partir para a festa, ignorando, voluntária e conscientemente, o horror que estava a ser vivido (e que ela bem presenciou). Este espírito egoísta e hedonista (o prazer momentâneo é o que conta acima de tudo) é que choca e tem que ser contrariado. Não existem causas, mesmo que elas tenham directamente que ver com o salvamento de vidas humanas. Numa tragédia como a que se viveu no Sábado passado, todos os relatos são unânimes em afirmar que existiam poucos recursos humanos e técnicos para acorrer às pessoas afectadas. Isso é possível de verificar a olho nu. Basta lá estar. Ainda assim, houve quem decidisse ignorar a formação em socorrismo e preferisse ir "descontrair" dançando ao som do house, enquanto a escassos metros de distância morria gente. É a (nova) lógica: não é meu?... Então não interessa.

22.7.10

21.7.10

E por falar em Aretha Franklin...

Inquietações matinais

"O polvo que adivinhava os resultados dos jogos do Mundial de Futebol é um trágico exemplo na nossa miséria existencial." João Lopes in sound&vision
Só no outro dia é que soube da existência desta estupidez. Um dos meus filhos contava-me sem que conseguisse fazer-me perceber exactamente do que se tratava. Não liguei. Até que há dias liguei a televisão, o que não fazia há muitos dias, e vi que uma instituição financeira (?) qualquer quereria comprar o dito animal adivinho. Francamente, não há pachorra. Desliguei aquela porcaria e fui ouvir Aretha Franklin.

19.7.10

Deamblogações vespertinas II

Deamblogações vespertinas

Isto devia ser um mantra decorado e repetido por todas as crianças:

Good books, good times
Good stories
Good rhymes
Good beginnings
Good ends
Good people
Good friends
Good fiction
Good facts
Good adventures
Good acts
Good stories
Good rhymes
GOOD books
GOOD times

(Lee Bennett Hopkins)

Deamblogações matinais

"The world, you see, no longer has any tolerance for — let alone fascination with — people who aren’t willing to publicize themselves. Figures swathed in shadows are démodé in a culture in which the watchword is transparency.

Increasingly, the perception is that everyone is knowable, everyone is accessible and that everyone is potentially a star. Facebook, YouTube, Twitter, blogs, personal Web sites with open-door chat rooms, the endlessly proliferating television reality shows are now commonplace forums for the famous who want to seem like ordinary people and for ordinary people who want to seem famous. Us magazine’s rubric “Stars, they’re just like us!” has now been inverted to “Us, we’re just like stars.” "
Ben Brantley, Whatever Happened to Mystery?, The NY Times

Marrocos IV


IV

O dia em Marraquexe comecou preguicoso, com um pequeno almoco no jardim interior, quase ao meio dia, possivel apenas em hoteis onde o servico e extraordinario. Apesar da hora, para alem do cafe com leite, somos presenteados com bolos, crepes, iogurtes, doces e um sumo de laranja acabado de fazer. Saimos entao para a rua com destino ao centro da Medina. Pouco depois entramos no souq, uma especie de galeria comercial versao milenar arabe. Para alem de nao nos trazer nada de novo, as primeiras ruas dao-nos a entender que esta e uma meca do turismo, com turistas, aldraboes e "tourist traps" ao virar de cada esquina. Conseguimos evadir-nos da visita a uma "genuina" oficina onde se tingem os tecidos dos tradicionais turbantes, mas nao conseguimos evitar a compra de um par de "souvenirs". Irritados pelos constantes "hey amigo!", "entrez, juste pour voir!", e "where are you from?", aceleramos pelo labirinto de lojas carregadas de tralha inutil e de mau gosto em busca da Djemma el-Fna, a praca principal. Encontramo-la enorme e quase vazia, e compreendemos que a hora, de maior calor, e errada para a visita. Ainda assim demoramo-nos junto a uns encantadores de serpentes. Apresentam duas cobras capelo "en guarde", algumas cascaveis apaticas, um lagarto e dois esquilos irrequietos. Quando, depois de uma discussao acesa entre si, tentam vender-nos a classica fotografia de serpente ao pescoco, resolvemos que esta na hora de seguir. Avancamos para Sul em direccao a Kasbah, o "quartier royal" onde se situa um palacio, mas ja sem a cobertura da sombra dos souqs. O sol a pique castiga-nos pela preguica da manha, e o calor comeca a tornar-se sufocante. Entramos na Kasbah por um portico imponente nas grandes muralhas de cor terrea. Mais a frente atravessamos uma rua de pequenos restaurantes que grelham comida ao ar livre, inundando a rua de nuvens de fumo e cheiros. Acossados pelo calor e pelos fumos fugimos outra vez para a frente. Encontramos uma cidade adormecida, escondida do sol. As lojas fecharam e quase nao se ve vivalma. Decidimos seguir o exemplo e refugiar-nos no hotel "Jardins de la Medina", onde achamos um buffet e um acolhedor jardim interior, refrescante mas sem o charme do nosso "Riad Malika". Depois do almoco regressamos ao hotel, onde tomamos um banho de piscina e outro de sol, a espera que chegue o fim da tarde. Com o dia a aproximar-se do fim, voltamos a uma praca principal irreconhecivel, coberta por um mar de gente.
No centro existe agora uma pequena cidade de bancas a servir todo o tipo de iguarias locais, feitas ao momento, iluminada pelo que parece ser um interminavel fio electrico carregado de lampadas. A volta dos restaurantes e das bancas de fruta e frutos secos, existe uma constelacao de aglomerados de gente de tamanho variavel. Os grupos mais pequenos ouvem os contadores de historias, um maior aguarda um combate de boxe amador, improvisando um ringue humano. Ha provas de forca, amestradores de macacos, musicos vestidos a rigor folclorico, charretes puxadas a cavalo e por todo lado um ambiente de feira popular. Mais a esquerda abre-se a zona dos curandeiros, sentados no chao com ar circunspecto. A sua frente, em cima de um tapete, estao dispostas as suas farmacias. Como seria de esperar, ha remedios para tudo: chifre de veado, lagartos secos, ovos de avestruz, peles de cobra, pos variados e frascos com pocoes magicas. Felizmente nao nos queixamos de nada. Com o apetite agucado pelas "barraquinhas" da praca regressamos ao hotel para banhos e "toilette". Vamos jantar ao "Le Comptoir", mais uma recomendacao do extraordinario Rashid, mordomo e "faz tudo" do nosso hotel, que parece saber tudo o que interessa sobre Marraquexe. Depois de mais algumas peripecias de taxi, somos recebidos por uma sala cheia e escura, que parece iluminada apenas por velas. Quando comecavamos a saborear um mojito, irrompe pela sala musica arabe com tambores, pandeiretas, guizos e sons de instrumentos de sopro e cordas. Pouco depois desce pela escadaria central um cortejo de cabaret oriental com bailarinas, mulheres com bandejas com velas a cabeca, e uma Cleopatra. As bailarinas tomam de assalto a sala, com barrigas e ancas trepidantes, movimentos ondulantes, corpos lancados para tras, e ate subidas as mesas. Ainda atordoados pelo espectaculo, jantamos e subimos ao bar do primeiro andar. A penumbra e a mesma mas a atmosfera e mais "cool" e sofisticada. Numa serie de mesas baixas fumam-se narguiles desprendendo baforadas de fumo adocicado. Sentamo-nos para uma shisha e um ultimo copo numa grande mesa redonda. Passado algum tempo junta-se a nos um grupo de negros de oculos escuros e relogios de brilhantes, acompanhado por duas loiras de minisaia. Menos de um minuto depois novo show de danca do ventre, desta vez em cima da nossa mesa.
Com um comboio para apanhar as 5 e sem andamento para o ritmo louco de Marraquexe, acabamos os nossos mojitos e batemos em retirada para o hotel.

16.7.10

Marrocos III

III

Depois de mais uma noite mal dormida, cortesia da discoteca do nosso "hotel de charme", partimos a descoberta de Essaouira, baptizada Mogador pelos portugueses, que por aqui tiveram uma passagem fugaz. Tal como a noite, ha um vento forte e fresco que fustiga a cidade. A Medina e grande e fortificada, com muralhas altas sobre o mar, e ameias e torres em bom estado. Hollywood filmou aqui parte do "Reino dos Ceus". Ao lado ha um pequeno porto e um areal interminavel por onde passamos na vespera. Passeamos despreocupados pelas muralhas ventosas e contemplamos um mar encrespado a perder de vista. Entramos depois por vielas quase desertas e protegidas do sol. Os ombrais redondos, as portas azuis rebitadas, as paredes caiadas de branco e as janelas pequenas conferem a cidade um ar inconfundivelmente arabe. As aventuras de Sinbad podiam passar-se aqui. Desembocamos numa rua principal, e regressamos a mesma confusao de gente, a mesma profusao de lojas de chinelos, de especiarias, artigos de couro, roupas, colares e pulseiras, sobretudo para turistas. Paramos numa esplanada e do nada surge um grupo de musicos vestidos com djelabas brancas e turbantes garridos. Fazem-nos rir com o seu ar tosco, a musica folclorica que soltam dos seus estranhos instrumentos, e os seus saltos no ar. Entregue a merecida moeda, seguimos para o porto. Passamos ao lado do mercado do peixe, onde trabalham homens em ritmo descontraido. Alguns amanham peixe e o ar e invadido por um cheiro fetido, intenso e acido, que o torna quase irrespiravel. Fugimos para a frente em direccao aos barcos azuis onde ja se respira melhor. Algumas bancas ainda vendem despojos arrancados ao mar na madrugada anterior. Conseguimos identificar sardinhas, raias, moreias, e safios. Subimos depois ao torreao que defendia o porto. Lancamos um ultimo olhar sobre a cidade e vemos divertidos o interminavel desfilar de gaivotas que num voo sem esforco apanham boleia do vento que sobe junto a torre. Mesmo ao lado do porto ha um restaurante com uma esplanada que da para a baia e o extenso areal. Almocamos sem pressa camaroes e sardinhas que desiludem pelo sabor e falta de frescura. A tarde avanca, Marraquexe chama e fazemo-nos a estrada. Uma vez mais somos traidos e o que tinhamos previsto ser um trajecto facil afinal e uma sucessao de estradas em obras, nuvens de po e camioes dificeis de ultrapassar. Ao principio a paisagem faz lembrar o interior do Algarve. Mais a frente, a auto-estrada em construcao esta mais adiantada e entramos numa especie de Alentejo que por sua vez da lugar a um deserto de pedras e calhaus. Nova cidade e regressam os infernais camioes em estradas estreitas. Somos salvos por mais um troco de auto-estrada. Entramos por fim em Marraquexe por entre grandes suburbios com predios modernos de tons ocre.

 Passamos por uma gigantesca lixeira da qual se eleva uma enorme nuvem de fumo intoxicante. A aproximacao ao centro de Marraquexe comeca a assemelhar-se a saida de Casa e resolvemos contratar um taxi para nos guiar pelos labirintos da cidade ate ao nosso hotel. Por tras de uma porta discreta numa ruela sem graca, o nosso hotel revela-se um pequeno grande achado, este sim com muito charme, art deco e uma frescura de oasis. Somos recompensados com um mergulho na pequena piscina azul que existe num dos patios interiores. 

No patio principal, ha um rumor constante de agua a correr, e uma enorme variedade de arvores, flores e plantas que filtram o sol e o calor. Ja sem o po da estrada no corpo subimos ao terraco onde esta o nosso quarto. La de cima contemplamos os telhados e minaretes de Marraquexe, bebemos um excelente gin tonico e fumamos alguns cigarros pensativos. O sol poe-se devagar e a noite abate-se sobre a cidade. O ar arrefece mas o chao e as paredes libertam devagar o calor acumulado durante o dia. Depois de um banho morno saimos para a rua e atravessamos uma Medina mal iluminada mas transbordante de movimento, cheiros e sons. Jantamos no terraco do elegante Foundouq um optimo couscous de borrego. O ambiente de mil e uma noites a luz de velas pedia uma companhia feminina que nao temos... Helas! Apesar do cansaco das noites anteriores seguimos o conselho do taxista e vamos ao Paxa. 
No bar ha varios grupos de congressistas europeus com a habitual excitacao da hora dos copos e do recreio. Na pista de danca o crowd local agita-se ao som de uma musica electronica e pouco interessante. Cansados damos o dia por concluido e regressamos ao hotel. Amanha ha mais Marraquexe para viver.

15.7.10

Marrocos II


II

Saimos de Casa ja a cidade fervilhava de movimento. Nao e cedo mas parece ser hora de ponta. O dia acordou cinzento mas o sol regressou entretanto com a mesma forca da vespera. O que esperavamos ser uma despedida breve rapidamente se transforma num processo lento e dificil. Cada vez que pedimos indicacoes para El Jadida, a nossa primeira paragem, surge o inevitavel "tout droit, monsieur, tout droit". Mesmo a direito ha que furar por entre a confusao, reclamar passagem nas rotundas, suportar o calor nos semaforos e, claro, perguntar aqui e ali aos taxistas onde virar... Mais de uma hora depois estamos finalmente fora da cidade. Nem por isso a coisa fica mais facil. Os primeiros quilometros estao pejados de camioes carregados ate acima, a estrada e estreita e movimentada, e cada ultrapassagem provoca uma forte descarga de adrenalina. La fora a paisagem oferece poucos motivos de interesse. Apesar de algumas arvores junto a estrada a vegetacao e rara, assim como as casas. O po omnipresente parece esbater as cores e cobrir tudo de tons secos e mate. A medida que nos afastamos de Casa o transito torna-se mais escasso e podemos respirar alguma tranquilidade. Chegamos por fim a El Jadida, antiga Mazagao, portuguesa quase tres seculos ate ha cerca de 200 anos. 


Vamos direitos ao que nos trouxe, a "cite portugaise". Ha uma certa magia, um misto de espanto, orgulho e nostalgia ao encontrar as coisas que deixamos para tras, espalhadas e esquecidas pelo mundo fora. Na medina de Mazagao, uma pequena cidade dentro de uma fortaleza sobre o mar, ha nomes de rua portugueses, uma igreja e fachadas de traca familiar. Com alguma imaginacao conseguimos vislumbrar um tempo de caravelas e naus ancoradas na baia. Por aqui, o principal entreposto portugues na costa de Marrocos, passaram primeiro as especiarias das indias e depois o ouro e as pedras do Brasil. Por aqui passou o esplendor de Portugal. Depois da viagem no tempo almocamos numa pequena tasca em frente a muralha algo descaracterizada por um restauro. Apesar da simplicidade do restaurante e da escolha ao acaso dos pratos, somos surpreendidos por uma refeicao rica de sabores locais, picante mas temperada por um "te a la mente", doce e carregado de essencia de hortela. Recompostos e animados retomamos o caminho para o nosso destino do dia, Essaouira. Mais a frente a estrada encosta-se finalmente a costa, e o mar abre-se a nossa direita. Foi assim que imaginamos esta parte da viagem. Primeiro uma ria e dunas e depois rochas e falesias escarpadas. Em Ras Beddouza paramos para descer ate a praia local. Nao e uma praia de sonho mas temo-la so para nos. O sol e o vento convidam-nos a dormir um pouco na areia grossa e quente. De regresso a estrada, voltamos a afastar-nos do mar, a toda a velocidade, ansiosos por chegar ao nosso destino. Depois dos Ena Pa 2000 e dos GNR da manha, o radio do carro toca agora o melhor dos Xutos ao vivo. Cantamos a plenos pulmoes o "Homem do leme", "Longa se torna a espera", "Remar, remar", e outros classicos. Gracas a Ala pelo rock e pelo Ipod! Atravessamos algumas povoacoes em que a estrada se converte num mercado, com pessoas e burros, carrocas e camioes, e lojas e bancas a vender um pouco de tudo. Voamos pelo asfalto na habitual gincana de carros, camioes, e tractores. Somos parados em 3 operacoes stop e a terceira escapamos por pouco ao ditado popular. Ao por do sol cumprimos a etapa e chegamos a Essaouira. Amanha visitamos a cidade e partimos para Marraquexe.


14.7.10

Marrocos I

Há umas semanas estive em Marrocos. Dessa, ou melhor, nessa viagem, foram feitos alguns relatos com um propósito muito definido que não vem ao caso. Resultam do labor diário do meu amigo Luís, viajante experiente e com queda para a pena. Seguem-se, tal qual foram escritos - sem acentos e poventura com alguns erros de escrita, alguns textos, creio que sete, que serão publicados au fur et à mesure. Sabor a férias. Que cheguem rápido. In šāʾ Allāh.





I

Casa. E assim que os Marroquinos chamam Casablanca. Embora so a uma hora de aviao de Lisboa, e uma porta de entrada para outro planeta. Aqui e Africa. Alugar um carro no aeroporto deixou isso bem claro. Aqui quase nada se compra sem uma corte de apertos de mao, gracejos mais ou menos sinceros, e muito regatear. Ja na cidade, chega a certeza de que a Europa ficou em casa. O transito e caotico, e ao som das buzinas, os carros, motas, bicicletas e peoes, fintam-se numa sucessao de desastres iminentes. Os gases de escape tornam o ar quente dificil de respirar, a atmosfera abafada. Edificios com fachadas coloniais emprestam a cidade um aspecto decadente, pesado, saudoso de glorias passadas, ecos dos tempos de intriga internacional. Ha uma camada de po cinzento, pegajoso, que parece cobrir tudo. Depois almoco entramos acidentalmente na medina, a parte velha da cidade. E outra cidade dentro da cidade. Aqui ha motas e bicicletas mas nao ha carros. E pessoas, muitas, numa azafama de formigueiro. As ruas parecem organizadas por temas, como na idade media. Ha o bairro dos dentistas, as ruas dos carpinteiros e dos mecanicos. Somos olhados como extra-terrestres. Finalmente, depois de atravessar o labirinto de ruas e vielas, alcancamos o mar e a mesquita Hassan II, a terceira maior do mundo. O ar torna-se mais leve e fresco, e traz-nos o aroma do mar. A mesquita de construcao recente ergue-se imponente a nossa frente, sobria e elegante, com o mar em pano de fundo. Na praca em volta ha pessoas a passear num ritmo domingueiro, fugindo do calor e do caos do centro. Dos paredoes as raparigas de lenco observam rapazes a tomar banho nas praias e nas rochas. Dos altifalantes vem o chamamento para as preces e a praca esvazia-se. Allah u akbar, deus e grande e requer que o adorem pelo menos 5 vezes por dia. O interior da mesquita esta vedado aos nao musulmanos e regressamos ao hotel. No caminho o taxista aposta que somos franceses. Liceu frances 1, casa 0. Depois de um breve descanso, saimos para jantar. A escolha do rstaurante nao e muito feliz. Jantamos entre homens de negocios e turistas de terceira idade um peixe grelhado sem graca nem carvao. Salva-se um robalo marinado. Seguimos para a noite para confirmar a reputacao da movida de Casa. O taxista leva-nos ao boulevard de la Corniche, uma especie de marginal. Apesar de lhe termos pedido expressamente o contrario, deixa-nos no Calypso, um autentico bar de marinheiros, cheio de mulheres duvidosas e homens a deriva. Depois de uma cerveja, partimos a procura de melhor sorte. Aterramos no Amstrong, um bar com uma banda de covers, algures entre os wham e os black eyed peas, versao magrebe. Vencida a nossa capacidade de suportar o assassinato de temas pop, seguimos para o Carre, a discoteca mais cool da Corniche. No interior ha um enorme privado, com mais gente do que o resto do espaco. A fauna e composta por marroquinos com dinheiro, roupas demasiado justas e pretensoes de estilo, as suas amigas, alguns expatriados e o que parece ser uma bailarina russa de calcoes curtos. Com alguma lata entramos no privado mas somos olimpicamente ignorados. Passam garrafas de champanhe e uma musica pouco interessante. E tarde, estamos exaustos decidimos regressar a base. Ainda vamos a tempo do momento alto da noite, cantar ao som de um blackberry o "Enola Gay" em coro com um taxista de 60 a quem por momentos roubamos o seu bone. Estamos em ferias em Marrocos! Amanha seguimos para Essaouira.


13.7.10

Inquietações matinais

"Nunca mais o vi. Ao longo da vida, quando olho o mar, sinto por vezes os seus braços e o seu corpo no meu. Não passa disto, nem vale mais do que isto a minha breve experiência com o rapaz mergulhador de El Grove. Porém, o facto de ter ficado tantos anos - setenta e cinco - esta recordação dentro de mim, que pode significar? Que estou recalcada, que o deveria ter procurado insistentemente, que me deveria ter oferecido? Às vezes quando ouvia certos psicólogos na televisão ou na rádio, era essa a impressão com que ficava. Que nestes tempos modernos, todos os desejos precisam de ser consumados, como se os instintos animais do nosso corpo devessem comandar a nossa razão; como se fôssemos seres desprovidos de pensamento, apenas revestidos de emoções caprichosas que mandariam em nós, desapiedadas, levando-nos a becos sem saída, a vidas desesperadas que trocaríamos por um breve momento, um breve encosto, um breve troca do mar que havia nele pelo mar que em mim havia."

Toda uma Vida, Henrique Monteiro

12.7.10

8.7.10

Inquietações matinais

Estou completamente viciado neste gajo e em particular na música que dá pelo estranho nome de "Barbarella e barba rala". Completamente. Não consigo parar de ouvir.

7.7.10

Barbarella e barba rala

Barbarella e barba rala by Samuel Úria - Teimoso (novo single)

Samuel Úria

Deamblogações matinais

"(...) conhecendo-se bem os nossos costumes, até podemos vir a sair da crise, ou pelo menos do mais agudo da crise, mas os maus hábitos de um estado espoliador, permanecerão como critérios normais de controlo do cidadão."

"Há no estado português uma pulsão para uma espécie de Big Brother pobre, que se torna cada vez mais absoluto sem verdadeiramente querer ser absoluto, movido pela necessidade e pelos maus hábitos e por uma imensa, gigantesca falta de cultura de liberdade e de respeito pelos cidadãos. A que se soma a apatia generalizada dos cidadãos."

JPP, in Abrupto

5.7.10

Deamblogações vespertinas

Nos jornais fala-se de Cristiano Ronaldo e do facto de ter anunciado "nas redes sociais" (leia-se, Twitter e o inevitável Facebook) que tinha sido pai. Por estranho que seja, o facto, em si, já não causa qualquer estranheza. Uma figura pública anunciar nas ditas redes a sua paternidade. Porém, Ronaldo fez mais: anunciou que iria assumir sozinho a custódia da criança que, segundo ouvi na rádio, já se encontra aos cuidados da família. A mãe, essa, das duas uma: ou foi contratada ab initio para ser barriga de aluguer, ou o que aconteceu foi fruto de um encontro casual que teve efeitos indesejados (ainda assim, parcialmente assumidos). De qualquer modo, a quantia para dar à luz e nunca vir à cena, recusando, provavelmente, voltar a ver o filho que saiu do seu ventre depois de lá ter sido concebido, deve ter sido elevada. A ver vamos se o futuro não nos revela surpresas quanto a "diversas mães" do filho de Ronaldo que deverão surgir como cogumelos atrás de um hipotético filão...
Mas a notícia também me espantou por outro facto. Claro que isto é uma oportunidade de ouro para a imprensa encontrar um álibi para as más prestações da selecção portuguesa no mundial da África do Sul. Fiquei atónito quando ouvi na rádio uma especulação (porque não se trata de jornalismo, mas sim de especulação pura e dura) sobre o momento do nascimento do filho de Ronaldo (alegadamente, dois dias antes do jogo contra a Coreia do Norte) e dos efeitos que isso poderá ter tido no seu desempenho. Tal afirmação foi logo suportada por opiniões de psicólogos (um? mais? quais?) que, alegadamente, vieram a terreiro dizer que a prestação futebolística do craque poderá ter sido afectada por toda esta situação. Nada mais conveniente. Afinal, a equipa portuguesa - e especialmente Queiroz - não tem culpa absolutamente nenhuma para o que aconteceu. Não foram falhas técnicas e tácticas. Não foram más substituições. Não foram diversos casos que (não) ocorreram ao longo do estágio e do mundial. Nada disso. Foi tão-só a preocupação de Ronaldo com o nascimento do filho. Percebe-se.
Para além de toda esta lamentável história (Ronaldo, o filho, o Facebook, a barriga de aluguer, etc.), só nos faltava mais uma oportunidade para nos atirarem com mais areia para os olhos, como se fôssemos todos estúpidos, como se não conseguíssemos ter algum, por pouco que seja, sentido crítico e perceber que tudo isto são distracções face ao que interessa, que nada disto interessa verdadeiramente, que nada disto justifica o que se pagou e vai continuar a pagar aos jogadores da selecção e à equipa técnica, com destaque para o treinador (treinador?!).
E daí talvez não. Ronaldo fez muito bem e, afinal, apenas quis o bem pátrio. Arcou sozinho com a culpa dos resultados, das exibições e do desfecho da campanha da África do Sul. Foi tudo culpa dele e do facto de andar stressado por causa do nascimento do filho. Ora, nem mais.
Tudo isto é demasiado triste, tudo isto é demasiado fado.

4.7.10

Deamblogações matinais




They only want u when your're 17
When your're 21 your're no fun
They take a polaroid and let u go
Say they'll let you know
So come on

2.7.10