19.7.10

Marrocos IV


IV

O dia em Marraquexe comecou preguicoso, com um pequeno almoco no jardim interior, quase ao meio dia, possivel apenas em hoteis onde o servico e extraordinario. Apesar da hora, para alem do cafe com leite, somos presenteados com bolos, crepes, iogurtes, doces e um sumo de laranja acabado de fazer. Saimos entao para a rua com destino ao centro da Medina. Pouco depois entramos no souq, uma especie de galeria comercial versao milenar arabe. Para alem de nao nos trazer nada de novo, as primeiras ruas dao-nos a entender que esta e uma meca do turismo, com turistas, aldraboes e "tourist traps" ao virar de cada esquina. Conseguimos evadir-nos da visita a uma "genuina" oficina onde se tingem os tecidos dos tradicionais turbantes, mas nao conseguimos evitar a compra de um par de "souvenirs". Irritados pelos constantes "hey amigo!", "entrez, juste pour voir!", e "where are you from?", aceleramos pelo labirinto de lojas carregadas de tralha inutil e de mau gosto em busca da Djemma el-Fna, a praca principal. Encontramo-la enorme e quase vazia, e compreendemos que a hora, de maior calor, e errada para a visita. Ainda assim demoramo-nos junto a uns encantadores de serpentes. Apresentam duas cobras capelo "en guarde", algumas cascaveis apaticas, um lagarto e dois esquilos irrequietos. Quando, depois de uma discussao acesa entre si, tentam vender-nos a classica fotografia de serpente ao pescoco, resolvemos que esta na hora de seguir. Avancamos para Sul em direccao a Kasbah, o "quartier royal" onde se situa um palacio, mas ja sem a cobertura da sombra dos souqs. O sol a pique castiga-nos pela preguica da manha, e o calor comeca a tornar-se sufocante. Entramos na Kasbah por um portico imponente nas grandes muralhas de cor terrea. Mais a frente atravessamos uma rua de pequenos restaurantes que grelham comida ao ar livre, inundando a rua de nuvens de fumo e cheiros. Acossados pelo calor e pelos fumos fugimos outra vez para a frente. Encontramos uma cidade adormecida, escondida do sol. As lojas fecharam e quase nao se ve vivalma. Decidimos seguir o exemplo e refugiar-nos no hotel "Jardins de la Medina", onde achamos um buffet e um acolhedor jardim interior, refrescante mas sem o charme do nosso "Riad Malika". Depois do almoco regressamos ao hotel, onde tomamos um banho de piscina e outro de sol, a espera que chegue o fim da tarde. Com o dia a aproximar-se do fim, voltamos a uma praca principal irreconhecivel, coberta por um mar de gente.
No centro existe agora uma pequena cidade de bancas a servir todo o tipo de iguarias locais, feitas ao momento, iluminada pelo que parece ser um interminavel fio electrico carregado de lampadas. A volta dos restaurantes e das bancas de fruta e frutos secos, existe uma constelacao de aglomerados de gente de tamanho variavel. Os grupos mais pequenos ouvem os contadores de historias, um maior aguarda um combate de boxe amador, improvisando um ringue humano. Ha provas de forca, amestradores de macacos, musicos vestidos a rigor folclorico, charretes puxadas a cavalo e por todo lado um ambiente de feira popular. Mais a esquerda abre-se a zona dos curandeiros, sentados no chao com ar circunspecto. A sua frente, em cima de um tapete, estao dispostas as suas farmacias. Como seria de esperar, ha remedios para tudo: chifre de veado, lagartos secos, ovos de avestruz, peles de cobra, pos variados e frascos com pocoes magicas. Felizmente nao nos queixamos de nada. Com o apetite agucado pelas "barraquinhas" da praca regressamos ao hotel para banhos e "toilette". Vamos jantar ao "Le Comptoir", mais uma recomendacao do extraordinario Rashid, mordomo e "faz tudo" do nosso hotel, que parece saber tudo o que interessa sobre Marraquexe. Depois de mais algumas peripecias de taxi, somos recebidos por uma sala cheia e escura, que parece iluminada apenas por velas. Quando comecavamos a saborear um mojito, irrompe pela sala musica arabe com tambores, pandeiretas, guizos e sons de instrumentos de sopro e cordas. Pouco depois desce pela escadaria central um cortejo de cabaret oriental com bailarinas, mulheres com bandejas com velas a cabeca, e uma Cleopatra. As bailarinas tomam de assalto a sala, com barrigas e ancas trepidantes, movimentos ondulantes, corpos lancados para tras, e ate subidas as mesas. Ainda atordoados pelo espectaculo, jantamos e subimos ao bar do primeiro andar. A penumbra e a mesma mas a atmosfera e mais "cool" e sofisticada. Numa serie de mesas baixas fumam-se narguiles desprendendo baforadas de fumo adocicado. Sentamo-nos para uma shisha e um ultimo copo numa grande mesa redonda. Passado algum tempo junta-se a nos um grupo de negros de oculos escuros e relogios de brilhantes, acompanhado por duas loiras de minisaia. Menos de um minuto depois novo show de danca do ventre, desta vez em cima da nossa mesa.
Com um comboio para apanhar as 5 e sem andamento para o ritmo louco de Marraquexe, acabamos os nossos mojitos e batemos em retirada para o hotel.