15.7.10

Marrocos II


II

Saimos de Casa ja a cidade fervilhava de movimento. Nao e cedo mas parece ser hora de ponta. O dia acordou cinzento mas o sol regressou entretanto com a mesma forca da vespera. O que esperavamos ser uma despedida breve rapidamente se transforma num processo lento e dificil. Cada vez que pedimos indicacoes para El Jadida, a nossa primeira paragem, surge o inevitavel "tout droit, monsieur, tout droit". Mesmo a direito ha que furar por entre a confusao, reclamar passagem nas rotundas, suportar o calor nos semaforos e, claro, perguntar aqui e ali aos taxistas onde virar... Mais de uma hora depois estamos finalmente fora da cidade. Nem por isso a coisa fica mais facil. Os primeiros quilometros estao pejados de camioes carregados ate acima, a estrada e estreita e movimentada, e cada ultrapassagem provoca uma forte descarga de adrenalina. La fora a paisagem oferece poucos motivos de interesse. Apesar de algumas arvores junto a estrada a vegetacao e rara, assim como as casas. O po omnipresente parece esbater as cores e cobrir tudo de tons secos e mate. A medida que nos afastamos de Casa o transito torna-se mais escasso e podemos respirar alguma tranquilidade. Chegamos por fim a El Jadida, antiga Mazagao, portuguesa quase tres seculos ate ha cerca de 200 anos. 


Vamos direitos ao que nos trouxe, a "cite portugaise". Ha uma certa magia, um misto de espanto, orgulho e nostalgia ao encontrar as coisas que deixamos para tras, espalhadas e esquecidas pelo mundo fora. Na medina de Mazagao, uma pequena cidade dentro de uma fortaleza sobre o mar, ha nomes de rua portugueses, uma igreja e fachadas de traca familiar. Com alguma imaginacao conseguimos vislumbrar um tempo de caravelas e naus ancoradas na baia. Por aqui, o principal entreposto portugues na costa de Marrocos, passaram primeiro as especiarias das indias e depois o ouro e as pedras do Brasil. Por aqui passou o esplendor de Portugal. Depois da viagem no tempo almocamos numa pequena tasca em frente a muralha algo descaracterizada por um restauro. Apesar da simplicidade do restaurante e da escolha ao acaso dos pratos, somos surpreendidos por uma refeicao rica de sabores locais, picante mas temperada por um "te a la mente", doce e carregado de essencia de hortela. Recompostos e animados retomamos o caminho para o nosso destino do dia, Essaouira. Mais a frente a estrada encosta-se finalmente a costa, e o mar abre-se a nossa direita. Foi assim que imaginamos esta parte da viagem. Primeiro uma ria e dunas e depois rochas e falesias escarpadas. Em Ras Beddouza paramos para descer ate a praia local. Nao e uma praia de sonho mas temo-la so para nos. O sol e o vento convidam-nos a dormir um pouco na areia grossa e quente. De regresso a estrada, voltamos a afastar-nos do mar, a toda a velocidade, ansiosos por chegar ao nosso destino. Depois dos Ena Pa 2000 e dos GNR da manha, o radio do carro toca agora o melhor dos Xutos ao vivo. Cantamos a plenos pulmoes o "Homem do leme", "Longa se torna a espera", "Remar, remar", e outros classicos. Gracas a Ala pelo rock e pelo Ipod! Atravessamos algumas povoacoes em que a estrada se converte num mercado, com pessoas e burros, carrocas e camioes, e lojas e bancas a vender um pouco de tudo. Voamos pelo asfalto na habitual gincana de carros, camioes, e tractores. Somos parados em 3 operacoes stop e a terceira escapamos por pouco ao ditado popular. Ao por do sol cumprimos a etapa e chegamos a Essaouira. Amanha visitamos a cidade e partimos para Marraquexe.