16.7.10

Marrocos III

III

Depois de mais uma noite mal dormida, cortesia da discoteca do nosso "hotel de charme", partimos a descoberta de Essaouira, baptizada Mogador pelos portugueses, que por aqui tiveram uma passagem fugaz. Tal como a noite, ha um vento forte e fresco que fustiga a cidade. A Medina e grande e fortificada, com muralhas altas sobre o mar, e ameias e torres em bom estado. Hollywood filmou aqui parte do "Reino dos Ceus". Ao lado ha um pequeno porto e um areal interminavel por onde passamos na vespera. Passeamos despreocupados pelas muralhas ventosas e contemplamos um mar encrespado a perder de vista. Entramos depois por vielas quase desertas e protegidas do sol. Os ombrais redondos, as portas azuis rebitadas, as paredes caiadas de branco e as janelas pequenas conferem a cidade um ar inconfundivelmente arabe. As aventuras de Sinbad podiam passar-se aqui. Desembocamos numa rua principal, e regressamos a mesma confusao de gente, a mesma profusao de lojas de chinelos, de especiarias, artigos de couro, roupas, colares e pulseiras, sobretudo para turistas. Paramos numa esplanada e do nada surge um grupo de musicos vestidos com djelabas brancas e turbantes garridos. Fazem-nos rir com o seu ar tosco, a musica folclorica que soltam dos seus estranhos instrumentos, e os seus saltos no ar. Entregue a merecida moeda, seguimos para o porto. Passamos ao lado do mercado do peixe, onde trabalham homens em ritmo descontraido. Alguns amanham peixe e o ar e invadido por um cheiro fetido, intenso e acido, que o torna quase irrespiravel. Fugimos para a frente em direccao aos barcos azuis onde ja se respira melhor. Algumas bancas ainda vendem despojos arrancados ao mar na madrugada anterior. Conseguimos identificar sardinhas, raias, moreias, e safios. Subimos depois ao torreao que defendia o porto. Lancamos um ultimo olhar sobre a cidade e vemos divertidos o interminavel desfilar de gaivotas que num voo sem esforco apanham boleia do vento que sobe junto a torre. Mesmo ao lado do porto ha um restaurante com uma esplanada que da para a baia e o extenso areal. Almocamos sem pressa camaroes e sardinhas que desiludem pelo sabor e falta de frescura. A tarde avanca, Marraquexe chama e fazemo-nos a estrada. Uma vez mais somos traidos e o que tinhamos previsto ser um trajecto facil afinal e uma sucessao de estradas em obras, nuvens de po e camioes dificeis de ultrapassar. Ao principio a paisagem faz lembrar o interior do Algarve. Mais a frente, a auto-estrada em construcao esta mais adiantada e entramos numa especie de Alentejo que por sua vez da lugar a um deserto de pedras e calhaus. Nova cidade e regressam os infernais camioes em estradas estreitas. Somos salvos por mais um troco de auto-estrada. Entramos por fim em Marraquexe por entre grandes suburbios com predios modernos de tons ocre.

 Passamos por uma gigantesca lixeira da qual se eleva uma enorme nuvem de fumo intoxicante. A aproximacao ao centro de Marraquexe comeca a assemelhar-se a saida de Casa e resolvemos contratar um taxi para nos guiar pelos labirintos da cidade ate ao nosso hotel. Por tras de uma porta discreta numa ruela sem graca, o nosso hotel revela-se um pequeno grande achado, este sim com muito charme, art deco e uma frescura de oasis. Somos recompensados com um mergulho na pequena piscina azul que existe num dos patios interiores. 

No patio principal, ha um rumor constante de agua a correr, e uma enorme variedade de arvores, flores e plantas que filtram o sol e o calor. Ja sem o po da estrada no corpo subimos ao terraco onde esta o nosso quarto. La de cima contemplamos os telhados e minaretes de Marraquexe, bebemos um excelente gin tonico e fumamos alguns cigarros pensativos. O sol poe-se devagar e a noite abate-se sobre a cidade. O ar arrefece mas o chao e as paredes libertam devagar o calor acumulado durante o dia. Depois de um banho morno saimos para a rua e atravessamos uma Medina mal iluminada mas transbordante de movimento, cheiros e sons. Jantamos no terraco do elegante Foundouq um optimo couscous de borrego. O ambiente de mil e uma noites a luz de velas pedia uma companhia feminina que nao temos... Helas! Apesar do cansaco das noites anteriores seguimos o conselho do taxista e vamos ao Paxa. 
No bar ha varios grupos de congressistas europeus com a habitual excitacao da hora dos copos e do recreio. Na pista de danca o crowd local agita-se ao som de uma musica electronica e pouco interessante. Cansados damos o dia por concluido e regressamos ao hotel. Amanha ha mais Marraquexe para viver.