"Nunca mais o vi. Ao longo da vida, quando olho o mar, sinto por vezes os seus braços e o seu corpo no meu. Não passa disto, nem vale mais do que isto a minha breve experiência com o rapaz mergulhador de El Grove. Porém, o facto de ter ficado tantos anos - setenta e cinco - esta recordação dentro de mim, que pode significar? Que estou recalcada, que o deveria ter procurado insistentemente, que me deveria ter oferecido? Às vezes quando ouvia certos psicólogos na televisão ou na rádio, era essa a impressão com que ficava. Que nestes tempos modernos, todos os desejos precisam de ser consumados, como se os instintos animais do nosso corpo devessem comandar a nossa razão; como se fôssemos seres desprovidos de pensamento, apenas revestidos de emoções caprichosas que mandariam em nós, desapiedadas, levando-nos a becos sem saída, a vidas desesperadas que trocaríamos por um breve momento, um breve encosto, um breve troca do mar que havia nele pelo mar que em mim havia."
Toda uma Vida, Henrique Monteiro