14.7.10

Marrocos I

Há umas semanas estive em Marrocos. Dessa, ou melhor, nessa viagem, foram feitos alguns relatos com um propósito muito definido que não vem ao caso. Resultam do labor diário do meu amigo Luís, viajante experiente e com queda para a pena. Seguem-se, tal qual foram escritos - sem acentos e poventura com alguns erros de escrita, alguns textos, creio que sete, que serão publicados au fur et à mesure. Sabor a férias. Que cheguem rápido. In šāʾ Allāh.





I

Casa. E assim que os Marroquinos chamam Casablanca. Embora so a uma hora de aviao de Lisboa, e uma porta de entrada para outro planeta. Aqui e Africa. Alugar um carro no aeroporto deixou isso bem claro. Aqui quase nada se compra sem uma corte de apertos de mao, gracejos mais ou menos sinceros, e muito regatear. Ja na cidade, chega a certeza de que a Europa ficou em casa. O transito e caotico, e ao som das buzinas, os carros, motas, bicicletas e peoes, fintam-se numa sucessao de desastres iminentes. Os gases de escape tornam o ar quente dificil de respirar, a atmosfera abafada. Edificios com fachadas coloniais emprestam a cidade um aspecto decadente, pesado, saudoso de glorias passadas, ecos dos tempos de intriga internacional. Ha uma camada de po cinzento, pegajoso, que parece cobrir tudo. Depois almoco entramos acidentalmente na medina, a parte velha da cidade. E outra cidade dentro da cidade. Aqui ha motas e bicicletas mas nao ha carros. E pessoas, muitas, numa azafama de formigueiro. As ruas parecem organizadas por temas, como na idade media. Ha o bairro dos dentistas, as ruas dos carpinteiros e dos mecanicos. Somos olhados como extra-terrestres. Finalmente, depois de atravessar o labirinto de ruas e vielas, alcancamos o mar e a mesquita Hassan II, a terceira maior do mundo. O ar torna-se mais leve e fresco, e traz-nos o aroma do mar. A mesquita de construcao recente ergue-se imponente a nossa frente, sobria e elegante, com o mar em pano de fundo. Na praca em volta ha pessoas a passear num ritmo domingueiro, fugindo do calor e do caos do centro. Dos paredoes as raparigas de lenco observam rapazes a tomar banho nas praias e nas rochas. Dos altifalantes vem o chamamento para as preces e a praca esvazia-se. Allah u akbar, deus e grande e requer que o adorem pelo menos 5 vezes por dia. O interior da mesquita esta vedado aos nao musulmanos e regressamos ao hotel. No caminho o taxista aposta que somos franceses. Liceu frances 1, casa 0. Depois de um breve descanso, saimos para jantar. A escolha do rstaurante nao e muito feliz. Jantamos entre homens de negocios e turistas de terceira idade um peixe grelhado sem graca nem carvao. Salva-se um robalo marinado. Seguimos para a noite para confirmar a reputacao da movida de Casa. O taxista leva-nos ao boulevard de la Corniche, uma especie de marginal. Apesar de lhe termos pedido expressamente o contrario, deixa-nos no Calypso, um autentico bar de marinheiros, cheio de mulheres duvidosas e homens a deriva. Depois de uma cerveja, partimos a procura de melhor sorte. Aterramos no Amstrong, um bar com uma banda de covers, algures entre os wham e os black eyed peas, versao magrebe. Vencida a nossa capacidade de suportar o assassinato de temas pop, seguimos para o Carre, a discoteca mais cool da Corniche. No interior ha um enorme privado, com mais gente do que o resto do espaco. A fauna e composta por marroquinos com dinheiro, roupas demasiado justas e pretensoes de estilo, as suas amigas, alguns expatriados e o que parece ser uma bailarina russa de calcoes curtos. Com alguma lata entramos no privado mas somos olimpicamente ignorados. Passam garrafas de champanhe e uma musica pouco interessante. E tarde, estamos exaustos decidimos regressar a base. Ainda vamos a tempo do momento alto da noite, cantar ao som de um blackberry o "Enola Gay" em coro com um taxista de 60 a quem por momentos roubamos o seu bone. Estamos em ferias em Marrocos! Amanha seguimos para Essaouira.