Reportagem do Público de hoje sobre a tragédia de Sábado no Love Parade. A certo passo, entrevista a uma raver, Anneke Kuypers, que diz o seguinte: "Como tenho formação em socorrismo, tentei ajudar um bocadinho. As pessoas estavam desidratadas, algumas tinham bebido de mais, ou tomado drogas... No fim fui dançar porque queria descomprimir. Mas perdi o rasto aos meus amigos.". Números oficiais: 19 mortos e 342 feridos. Muitos classificam o cenário de "inferno".
Não me choca demasiado que a organização tenha decidido continuar o evento porque, a dar-se por confirmada a presença de 1,6 milhões de pessoas, imagina-se facilmente a catástrofe que teria ocorrido em caso de pânico generalizado. Eu parto do princípio de que os organizadores de um evento que ia na sua 19.ª edição deixaram há muito de ser amadores e meros apreciadores de música de dança, tendo, por força da organização anual reiterada e do facto de terem nacionalidade alemã (que tem por base rigor e exigência), ganho experiência suficiente para tomar decisões rápidas em casos de emergência como este. É, por isso, fácil criticar a organização por ter decidido manter a festa, mas quem o faz não imaginará quais as possíveis consequências de uma decisão diferente.
Muito pior do que essa decisão é, no entanto, a da rapariga acima citada que, depois de dar "um bocadinho" de ajuda, decidiu partir para a festa, ignorando, voluntária e conscientemente, o horror que estava a ser vivido (e que ela bem presenciou). Este espírito egoísta e hedonista (o prazer momentâneo é o que conta acima de tudo) é que choca e tem que ser contrariado. Não existem causas, mesmo que elas tenham directamente que ver com o salvamento de vidas humanas. Numa tragédia como a que se viveu no Sábado passado, todos os relatos são unânimes em afirmar que existiam poucos recursos humanos e técnicos para acorrer às pessoas afectadas. Isso é possível de verificar a olho nu. Basta lá estar. Ainda assim, houve quem decidisse ignorar a formação em socorrismo e preferisse ir "descontrair" dançando ao som do house, enquanto a escassos metros de distância morria gente. É a (nova) lógica: não é meu?... Então não interessa.