Entre optimismo e realismo, entre cepticismo e crença, entre cinismo e boa vontade, eis a fronteira que separa quem olha para a realidade de Portugal e da Europa e antecipa consequências divergentes. Eu sou assumidamente céptico e cínico, considerando-me realista. Reconheço, no entanto, que essas características podem toldar uma visão integrada, logo realista, da realidade. Passo a explicar.
Não consigo vislumbrar saída para esta espiral negativa em que nos encontramos, pelo menos com a manutenção das políticas que têm vindo a ser seguidas. É também verdade, que também assumo, que não sou capaz de encontrar uma alternativa congruente. Todas as soluções têm um downside, mas a realidade é tão intrincada que se torna extremamente difícil identificar uma saída ou diversas possíveis saídas.
A propósito disto vem a questão das oportunidades. Dizer que a crise profunda em que nos encontramos e em que cada vez mais gente se encontra, afectada pelo desemprego e sem considerar como plausível um regresso breve (ou mesmo um regresso algum dia) ao mercado de trabalho, é uma oportunidade para se reinventar e começar a mudar o paradigma talvez seja visionário, mas eu confesso que tenho alguma (para não dizer muita) dificuldade em perceber as coisas deste modo.
Não tenho quaisquer dúvidas que essa é uma realidade para muita gente. Existem pessoas para quem a crise foi o gatilho que permitiu mudarem de vida. Lê-se nos jornais e é um pouco do senso comum. Mas a questão parece-me a mim um pouco mais complexa porque isso por si só seria relevante se estivéssemos a falar de 300 ou 400 mil desempregados. O problema é que estamos a falar de cerca de 1 milhão (mais, se contarmos com o desemprego real), muitos dos quais já não voltarão ao mercado de emprego e não têm sequer idade ou energia para recomeçar do zero. Já para não dizer que, ainda que a tivessem, têm uma esteira de dívidas e responsabilidades a que pura e simplesmente não podem virar costas. E esta é, por muito que custe, a dura realidade deste nosso país.
Assim sendo, compreendo a boa vontade (sem sentido pejorativo) de quem vê na crise uma oportunidade de mudança deste paradigma que - já vimos - atingiu o seu fim, mas não acredito (ou se se quiser, numa versão menos radical, custa-me a acreditar) que esse movimento seja comum à maioria de quem está a ser profundamente afectado pela crise e pelos problemas dela decorrentes. Para que se mudasse de paradigma seria preciso que a maior parte dessas pessoas adoptasse uma nova forma de relacionamento com a própria vida. Ora, não creio que isso vá suceder. E, deste modo, voltamos ao mesmo: a continuar-se por esta via estão prestes a ser queimadas duas ou três gerações de portugueses.
Lamento, mas não consigo ver de outro modo.
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22.3.13
18.3.13
Deamblogações vespertinas II
Previsões do Governo para 2013: 19,8% de taxa de desemprego no final do ano. Mentira. Já é mais do que isso (os números mentem a sério por causa de um número cada vez maior de desempregados que está à margem do sistema e já nem sequer se encontra inscrito nos centros de emprego) e vai ser ainda mais.
Eu não posso duvidar da competência técnica de Vítor Gaspar. É evidente que ele a tem e eu, pelo contrário, não tenho competência técnica nesse domínio para questionar devidamente muitas das decisões que são tomadas (não significa que concorde com elas, apenas que não as posso questionar devidamente). Isso é uma coisa. Mas, bem diferente é assistir ao ministro a dizer que se encontra desapontado (sic) com os números do desemprego, dando a impressão de que os mesmos não eram previsíveis.
Será que ouvi bem?!
Estará acaso o ministro a tentar enganar o comum dos portugueses, querendo perpassar a ideia de que a subida do desemprego é algo com vida própria, independente das condições económicas que o Governo ajudou a criar com as suas políticas? Quererá perpassar a ideia de que era algo impossível de prever?
É lamentável, é irresponsável e demonstra uma de duas: ou uma total falta de respeito para com os portugueses (porque mente descaradamente, querendo dar a impressão de que está surpreendido quando, na verdade, não está) ou uma total incompetência técnica (porque qualquer pessoa medianamente informado anteciparia, como aqui se fez por muitas vezes, que isto iria acontecer mais tarde ou mais cedo). Qualquer das duas é caso para demissão. Já.
Passos fica, uma vez mais, demonstrado como incompetente para chefiar o Governo.
Eu não posso duvidar da competência técnica de Vítor Gaspar. É evidente que ele a tem e eu, pelo contrário, não tenho competência técnica nesse domínio para questionar devidamente muitas das decisões que são tomadas (não significa que concorde com elas, apenas que não as posso questionar devidamente). Isso é uma coisa. Mas, bem diferente é assistir ao ministro a dizer que se encontra desapontado (sic) com os números do desemprego, dando a impressão de que os mesmos não eram previsíveis.
Será que ouvi bem?!
Estará acaso o ministro a tentar enganar o comum dos portugueses, querendo perpassar a ideia de que a subida do desemprego é algo com vida própria, independente das condições económicas que o Governo ajudou a criar com as suas políticas? Quererá perpassar a ideia de que era algo impossível de prever?
É lamentável, é irresponsável e demonstra uma de duas: ou uma total falta de respeito para com os portugueses (porque mente descaradamente, querendo dar a impressão de que está surpreendido quando, na verdade, não está) ou uma total incompetência técnica (porque qualquer pessoa medianamente informado anteciparia, como aqui se fez por muitas vezes, que isto iria acontecer mais tarde ou mais cedo). Qualquer das duas é caso para demissão. Já.
Passos fica, uma vez mais, demonstrado como incompetente para chefiar o Governo.
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Vítor Gaspar
5.3.13
Deamblogações matinais
Passos ou a vã glória de mandar podia muito bem ser o título alegórico dado ao consulado do primeiro ministro. Ele que finge que manda mas não manda, ele que finge que resolve mas não resolve, ele que finge que percebe mas não percebe. Ele que só não finge que não é teimoso, porque é-o e muito e por sê-lo é que ainda prossegue este caminho como se não houvesse outro, como se tudo dependesse e apenas dele.
Passos não ouve o povo, mas não é apenas o povo que ele não ouve. Ele não ouve ninguém, não escuta o que lhe dizem os sinais, cada vez estes mais evidentes da erosão que grassa por esta nossa sociedade.
As manifestações como a de Sábado passado são boas para aliviar a pressão, mas esta sobe mais depressa do que a panela consegue libertar. Chegará o dia em que rebenta e tem muitas formas de rebentar.
Este caminho não dá. A actividade económica até pode retomar em patamares mínimos, de forma menos que tímida, mas o desemprego vai continuar a aumentar porque com estas medidas, com este caminho pôs-se definitivamente de lado uma parte importante da sociedade portuguesa, a mesma que ficou definitivamente segregada em nome da saúde financeira do país.
Disso Passos não se livrará, mas, pior, não nos livraremos nós que teremos uma nova realidade neste canto à beira mar plantado que terá de conviver e saber conviver com uma horda enorme de desempregados profissionais que outra coisa não poderá fazer que não ficar inactiva oficialmente. E isso é uma absoluta desgraça. Não tarda em termos reais teremos 25% da população portuguesa nessa condição. Dirão que é exagero. Mas não é. Só nunca aparecerá esse número porque o mesmo é mascarado quer pelos que já não estão no sistema e abandonaram as listas do IEFP, quer pelos que emigraram e voltaram costas a isto.
Mas, verdadeiramente, não é essa a forma de tratar da saúde de um país. Ou é?
Passos não ouve o povo, mas não é apenas o povo que ele não ouve. Ele não ouve ninguém, não escuta o que lhe dizem os sinais, cada vez estes mais evidentes da erosão que grassa por esta nossa sociedade.
As manifestações como a de Sábado passado são boas para aliviar a pressão, mas esta sobe mais depressa do que a panela consegue libertar. Chegará o dia em que rebenta e tem muitas formas de rebentar.
Este caminho não dá. A actividade económica até pode retomar em patamares mínimos, de forma menos que tímida, mas o desemprego vai continuar a aumentar porque com estas medidas, com este caminho pôs-se definitivamente de lado uma parte importante da sociedade portuguesa, a mesma que ficou definitivamente segregada em nome da saúde financeira do país.
Disso Passos não se livrará, mas, pior, não nos livraremos nós que teremos uma nova realidade neste canto à beira mar plantado que terá de conviver e saber conviver com uma horda enorme de desempregados profissionais que outra coisa não poderá fazer que não ficar inactiva oficialmente. E isso é uma absoluta desgraça. Não tarda em termos reais teremos 25% da população portuguesa nessa condição. Dirão que é exagero. Mas não é. Só nunca aparecerá esse número porque o mesmo é mascarado quer pelos que já não estão no sistema e abandonaram as listas do IEFP, quer pelos que emigraram e voltaram costas a isto.
Mas, verdadeiramente, não é essa a forma de tratar da saúde de um país. Ou é?
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Pedro Passos Coelho
29.12.12
Deamblogações nocturnas
As empresas de telecomunicações devem estar a fazer contas à vida com a redução mais do que evidente do número de sms enviados este Natal. O mesmo irá seguramente passar-se daqui por dois dias, alturas em que, tipicamente e durante muitos anos, era habitual enviar-se e receber-se centenas de mensagens escritas e mms. Menos mensagens, menos compras, menos movimento nas ruas e nos centros comerciais. Menos gente a passear. Nem os Black Fridays da vida salvam o que deve ser o pior Natal comercial dos últimos vinte anos. Sê-lo-á verdadeiramente?
Houve uma coisa que reparei neste período e que é um fosso cada vez maior entre os ricos e todos os outros, já não apenas entre os primeiros e os pobres. Há gente que se vê não é afectada por esta crise, que continua a consumir como o fez em todos os outros anos, que se apresenta bem vestida, bem arranjada, com bons carros e aparentemente indiferente ao estado do país. Se calhar não está indiferente porque até se preocupa, mas comporta-se com uma aparente indiferença. Talvez esteja influenciado por aquilo que se diz de haver um fosso cada vez maior entre classes, mas pareceu-me mesmo isto que escrevo.
Estou curioso para ver os números relativos às vendas dos saldos, o que antecipo seja igualmente revelador da crise profunda em que nos encontramos e que, de resto, se vai agravar. O Governo esse continua profundamente convicto do seu autismo - o que é uma contradição nos seus próprios termos - e não parece querer perceber que esta receita não funciona. Agora virá com a bandeira do défice comercial que, pela primeira vez em muitos muitos anos, é neutro. Não é é por boas razões (porque não se fundamenta em aumento da produtividade e consumo internos e diminuição proporcional das importações, mas sim na diminuição drástica do consumo interno), mas isso parece irrelevante.
Quanto ao desemprego, esse continuará a aumentar criando uma horda absurda de desempregados crónicos que nunca mais voltará de forma consistente (e parte dela nem de forma inconsistente) ao mercado de trabalho. Isso é o principal problema e o que impedirá de forma mais veemente o país de retomar o rumo do crescimento económico.
E assim vai a vida.
Houve uma coisa que reparei neste período e que é um fosso cada vez maior entre os ricos e todos os outros, já não apenas entre os primeiros e os pobres. Há gente que se vê não é afectada por esta crise, que continua a consumir como o fez em todos os outros anos, que se apresenta bem vestida, bem arranjada, com bons carros e aparentemente indiferente ao estado do país. Se calhar não está indiferente porque até se preocupa, mas comporta-se com uma aparente indiferença. Talvez esteja influenciado por aquilo que se diz de haver um fosso cada vez maior entre classes, mas pareceu-me mesmo isto que escrevo.
Estou curioso para ver os números relativos às vendas dos saldos, o que antecipo seja igualmente revelador da crise profunda em que nos encontramos e que, de resto, se vai agravar. O Governo esse continua profundamente convicto do seu autismo - o que é uma contradição nos seus próprios termos - e não parece querer perceber que esta receita não funciona. Agora virá com a bandeira do défice comercial que, pela primeira vez em muitos muitos anos, é neutro. Não é é por boas razões (porque não se fundamenta em aumento da produtividade e consumo internos e diminuição proporcional das importações, mas sim na diminuição drástica do consumo interno), mas isso parece irrelevante.
Quanto ao desemprego, esse continuará a aumentar criando uma horda absurda de desempregados crónicos que nunca mais voltará de forma consistente (e parte dela nem de forma inconsistente) ao mercado de trabalho. Isso é o principal problema e o que impedirá de forma mais veemente o país de retomar o rumo do crescimento económico.
E assim vai a vida.
30.11.12
Deamblogações vespertinas
Segundo os últimos dados do Eurostat publicados hoje, o desemprego em Portugal está oficialmente nos 16,3%. Ontem, o antigo ministro das finanças, Teixeira dos Santos, disse o que é óbvio mas que ninguém diz: o desemprego estrutural é o mais preocupante de tudo. Ou seja, Portugal, perante a falta de crescimento da sua economia, não conseguirá nunca mais reabsorver os desempregados actuais, ficando assim com uma taxa de desemprego "normal" na ordem dos 12%. Não vejo ninguém do Governo assumir este dado como irrefutável, com o simples argumento de que isto não passa de uma estatística. Só que não é bem uma mera estatística: se tivermos em conta que a economia só cria emprego a partir de um crescimento na ordem dos 2% e que Portugal cresceu em média 1,2% nos últimos 10 anos (talvez esse número seja actualmente ainda inferior), a que acresce o facto de o desemprego continuar a crescer sem dar mostras de parar, rapidamente concluímos como Teixeira dos Santos. Mas eu ainda sou mais pessimista: acho que o desemprego estrutural de Portugal é (será) superior a 12% e que até que esse limite inferior seja atingido, teremos uma taxa de desemprego de mais de 20%, que é, aliás, a que existe não-oficialmente hoje em dia.
29.10.12
Deamblogações matinais
No Público de ontem, mais uma reportagem sobre a crise, desta feita, sobre jovens desempregados que perderam os empregos e que não têm a expectativa de voltar a ganhá-los tão cedo. Embora seja penoso e de algum modo destruidor da esperança no país e na nossa vida colectiva, sinto como que uma obrigação em ler estas notícias, não apenas para me aperceber o melhor possível do que se passa, mas para agradecer ao divino a incomensurável sorte que tenho por trabalhar e conseguir mais do que sustentar-me.
Já li, pois, inúmeros "relatos da crise", mas estas linhas vêm a propósito de algo que me perturbou particularmente no que li ontem, tendo chegado mesmo a sentir quase um murro no estômago de tão forte que foi a afirmação. Uma desempregada com cerca de 30 anos de idade e duas filhas que dizia que, muitas vezes a seguir a ir pôr as crianças à escola, voltava para a cama para poder dormir mais, porque ao menos enquanto dorme sofre menos.
Nunca me tinha sequer lembrado que isto podia ser encarado como opção. Mas infelizmente é e é uma desgraça absoluta.
Já li, pois, inúmeros "relatos da crise", mas estas linhas vêm a propósito de algo que me perturbou particularmente no que li ontem, tendo chegado mesmo a sentir quase um murro no estômago de tão forte que foi a afirmação. Uma desempregada com cerca de 30 anos de idade e duas filhas que dizia que, muitas vezes a seguir a ir pôr as crianças à escola, voltava para a cama para poder dormir mais, porque ao menos enquanto dorme sofre menos.
Nunca me tinha sequer lembrado que isto podia ser encarado como opção. Mas infelizmente é e é uma desgraça absoluta.
11.9.12
Deamblogações vespertinas
A declaração do Governo de que a recessão será de 1% em 2013 e o desemprego se ficará pelos 16% (neste último caso, com Gaspar a dizer em tom absolutamente concêntrico e inextrincável que não será maior porque "os efeitos da deterioração da actividade económica serão contidos pelos efeitos positivos da desvalorização fiscal prevista"), é a coisa mais mentirosa que ouvi nos últimos tempos, não contando com a existência do Tio Patinhas e respectivos sobrinhos que o meu filho de 4 anos jura que vê todos os dias a sair da escola.
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