22.3.13

Deamblogações matinais

Entre optimismo e realismo, entre cepticismo e crença, entre cinismo e boa vontade, eis a fronteira que separa quem olha para a realidade de Portugal e da Europa e antecipa consequências divergentes. Eu sou assumidamente céptico e cínico, considerando-me realista. Reconheço, no entanto, que essas características podem toldar uma visão integrada, logo realista, da realidade. Passo a explicar.
Não consigo vislumbrar saída para esta espiral negativa em que nos encontramos, pelo menos com a manutenção das políticas que têm vindo a ser seguidas. É também verdade, que também assumo, que não sou capaz de encontrar uma alternativa congruente. Todas as soluções têm um downside, mas a realidade é tão intrincada que se torna extremamente difícil identificar uma saída ou diversas possíveis saídas.
A propósito disto vem a questão das oportunidades. Dizer que a crise profunda em que nos encontramos e em que cada vez mais gente se encontra, afectada pelo desemprego e sem considerar como plausível um regresso breve (ou mesmo um regresso algum dia) ao mercado de trabalho, é uma oportunidade para se reinventar e começar a mudar o paradigma talvez seja visionário, mas eu confesso que tenho alguma (para não dizer muita) dificuldade em perceber as coisas deste modo.
Não tenho quaisquer dúvidas que essa é uma realidade para muita gente. Existem pessoas para quem a crise foi o gatilho que permitiu mudarem de vida. Lê-se nos jornais e é um pouco do senso comum. Mas a questão parece-me a mim um pouco mais complexa porque isso por si só seria relevante se estivéssemos a falar de 300 ou 400 mil desempregados. O problema é que estamos a falar de cerca de 1 milhão (mais, se contarmos com o desemprego real), muitos dos quais já não voltarão ao mercado de emprego e não têm sequer idade ou energia para recomeçar do zero. Já para não dizer que, ainda que a tivessem, têm uma esteira de dívidas e responsabilidades a que pura e simplesmente não podem virar costas. E esta é, por muito que custe, a dura realidade deste nosso país.
Assim sendo, compreendo a boa vontade (sem sentido pejorativo) de quem vê na crise uma oportunidade de mudança deste paradigma que - já vimos - atingiu o seu fim, mas não acredito (ou se se quiser, numa versão menos radical, custa-me a acreditar) que esse movimento seja comum à maioria de quem está a ser profundamente afectado pela crise e pelos problemas dela decorrentes. Para que se mudasse de paradigma seria preciso que a maior parte dessas pessoas adoptasse uma nova forma de relacionamento com a própria vida. Ora, não creio que isso vá suceder. E, deste modo, voltamos ao mesmo: a continuar-se por esta via estão prestes a ser queimadas duas ou três gerações de portugueses.
Lamento, mas não consigo ver de outro modo.