O que acontecia era uma tarde surreal. O ar tinha aí uns 30 graus de temperatura e naquele sítio o vento soprava com invulgar intensidade. Disseram 100 km/h. Não provei. Não sei. Mas sei que o fenómeno era pouco habitual, pelo menos para mim. Vento, grande vento, quente e forte. A acompanhar uma singela imperial. Duas singelas imperiais. Três singelas imperiais... And counting. Nada de novo e tudo novo. Ouvia-se um som, com batida mas sem exagero e adequado ao momento. Ali, quase à mercê, o mar. O mar. A ser arrastado pelo vento quente, para oeste. Nada na mão, nada na manga. Lembrei-me logo de outras paragens mais continentais e menos oceânicas. Difícil perceber porquê. Talvez do castelhano que pairava à volta. Talvez. O vento partia e levava tudo. Copos, cadeiras, mesas. E, mesmo assim, estava grudado lá fora. Sem mais. No meio disto veio um tango batido muito fora. O sol punha-se leve e envergonhadamente. No fim, quase no fim, um mergulho no Amado, a amar o momento. Com vento, muito vento, como que a trazer uma companhia muito própria. Muito própria e solitária, como solitário foi aquele momento. É sempre.
Disse eu, pensaram eles.
22.8.11
12.8.11
Deamblogações vespertinas
Ali não há férias, nem Agosto, nem patuscadas, nem praia, nem sol, nem bom ou mau tempo. Muito menos há amigos, brincadeiras ou descontracção. Ali há a vontade nuns casos, o compromisso noutros, quem sabe também o dever, de ir visitar quem está preso.
O ritual segue-se dia após dia, num arrastar de sacos cheios. Sempre me perguntei cheios de quê. Comida? Mas é permitido levar quilos de comida de cada vez que se visita um familiar preso? Roupa não pode ser e droga e outras coisas não poderiam ser tão visíveis. Enfim, os sacos cheios, os olhares ansiosos ou costumados com a rotina, dependendo de haver ou não experiência no processo. Ali não há crise, nem troika, nem ministro das finanças. Também não há governo, nem crise da economia mundial. Ali fecham-se as portas e passa a existir o que se vê e ouve, nada mais. É como se a existência, de repente, ficasse confinada a um espaço circundado por muros altos de onde não se pode sair. E fica. E fica não apenas para os que estão dentro, na verdadeira acepção do termo, mas também para os que estão fora mas que têm alguém dentro. Também esses têm parte de si mesmos enclausurada nos muros da prisão.
Ali o que há é pouco e o pouco que há é mau.
O ritual segue-se dia após dia, num arrastar de sacos cheios. Sempre me perguntei cheios de quê. Comida? Mas é permitido levar quilos de comida de cada vez que se visita um familiar preso? Roupa não pode ser e droga e outras coisas não poderiam ser tão visíveis. Enfim, os sacos cheios, os olhares ansiosos ou costumados com a rotina, dependendo de haver ou não experiência no processo. Ali não há crise, nem troika, nem ministro das finanças. Também não há governo, nem crise da economia mundial. Ali fecham-se as portas e passa a existir o que se vê e ouve, nada mais. É como se a existência, de repente, ficasse confinada a um espaço circundado por muros altos de onde não se pode sair. E fica. E fica não apenas para os que estão dentro, na verdadeira acepção do termo, mas também para os que estão fora mas que têm alguém dentro. Também esses têm parte de si mesmos enclausurada nos muros da prisão.
Ali o que há é pouco e o pouco que há é mau.
9.8.11
Inquietações matinais
"Não existe nada além do tempo. O tempo é a única coisa que acontece por si própria. Devíamos aprender a deixar que ele nos leve. (...) Fiquei imóvel. Senti que se aproximava um momento arrasador. Àquela luz fosca, a sombra que ela projectava devorou a minha. Eu sabia o que estava a acontecer e não me dei ao trabalho de discutir o assunto com os médicos da especialidade. Deixa andar. Dentro dela havia qualquer coisa estilhaçada e luminosa, qualquer coisa que podia ter sido deixada pela passagem em espiral do meu próprio corpo. Ela estava agora diante de mim, a olhar para cima, com as mãos nos meus ombros. A sensação de aperto que sentira no meu quarto começava a ceder à promessa de uma fantástica libertação. Ia acontecer. Fosse o que fosse. A gaiola ia abrir-se, o pássaro louco elevar-se-ia nos ares, e eu lançaria um grito de alegria épica e dor ao presenciar a libertação de um simples momento, o início do tempo. Depois ouvi os pés descalços do meu pai nas escadas. Foi tudo."
Americana, Don DeLillo
Americana, Don DeLillo
4.8.11
Deamblogações matinais
Já tudo se disse e redisse sobre o problema das dívidas soberanas: Grécia, Irlanda, Portugal e agora Itália e Espanha. É certo e sabido que por mais desmentidos que possam existir por parte dos dirigentes europeus, com Barroso à cabeça, estes dois últimos países vão lá bater com os costados. Certinho. Como certo é o facto de, uma vez mais, a UE andar a reboque dos acontecimentos, repetindo ad nauseam a linha que seguiu nos restantes casos: primeiro nega rotundamente, depois mostra-se preocupada, seguidamente admite o "ataque especulativo" e diz que não há motivos para tal, por fim aceita a necessidade de ajuda e, após algum tempo de surdina a preparar o "pacote", anuncia-o com pompa e circunstância, defendendo que é a cura de que aquela economia precisa para se revitalizar.
Quanto a este e outros problemas graves por que passa a Europa, ouvem-se dois grandes argumentos por parte de quem a pensa e conhece: um no sentido de que só o inevitável caminho para o federalismo, com o consequente aprofundamento do relacionamento político e sobretudo financeiro, permitiria à Europa ultrapassar esta crise que não é senão o resultado de um impasse por se ter ficado a meio caminho entre a união económica e a união política; o outro argumento defende precisamente o contrário, referindo que a única via é a marcha atrás, dando a Europa alguns passos atrás no processo de integração, permitindo que as instituições e os povos dos respectivos países membros respirem uns anos e reequacionem o projecto europeu, que, assim, avançaria mais calma e sustentadamente.
Ora, independentemente da bondade de qualquer das soluções, o que me parece inquestionável é que jamais a Europa dará passos atrás no processo de integração, uma vez que isso seria - mal - considerado um fracasso, bem como a assunção de muitos erros no caminho que tem sido seguido até agora. Por outro lado, existe ainda o não despiciendo argumento prático de saber o que fazer num caso desses a toda a legislação de uniformização e caracterização de um "modelo europeu" (seja lá isso o que for), que teria muito certamente de ser posto em causa e pelo menos congelado durante algum tempo. A questão, ainda, de saber o que fazer com os muitos milhares de funcionários e eurocratas que foram crescendo em número, acompanhando a voragem desmedida dos pensadores europeus, grandes responsáveis por todos estes passos em frente, talvez na direcção do abismo.
Não é nada fácil. Sobretudo numa altura em que, como se tem visto, os EUA começam a dar os primeiros sinais de fraqueza, mostrando que por detrás dos ratings (AAA) das agências de notação "governamentais" (Moody's e Fitch), existe um sistema financeiro bem menos sólido e que dá claros sinais de estar à beira da ruína. Perante isto, a Europa deveria mostrar-se um bloco coeso e sólido, assente talvez em menos (falsos) pressupostos de integração e partilha de interesses, mas mais fortes e eficazes. Em vez disso e pelo contrário, aparece como um bloco à deriva que pode ser a todo o momento abalroado por um super-petroleiro que não o vê, ou, melhor, que o vê e que propositadamente o quer esmagar. Efectivamente, quem anda à deriva corre esse risco, o que o mesmo é dizer, como ouvíamos quando éramos crianças, que quem anda à chuva molha-se.
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