4.8.11

Deamblogações matinais


Já tudo se disse e redisse sobre o problema das dívidas soberanas: Grécia, Irlanda, Portugal e agora Itália e Espanha. É certo e sabido que por mais desmentidos que possam existir por parte dos dirigentes europeus, com Barroso à cabeça, estes dois últimos países vão lá bater com os costados. Certinho. Como certo é o facto de, uma vez mais, a UE andar a reboque dos acontecimentos, repetindo ad nauseam a linha que seguiu nos restantes casos: primeiro nega rotundamente, depois mostra-se preocupada, seguidamente admite o "ataque especulativo" e diz que não há motivos para tal, por fim aceita a necessidade de ajuda e, após algum tempo de surdina a preparar o "pacote", anuncia-o com pompa e circunstância, defendendo que é a cura de que aquela economia precisa para se revitalizar.
Quanto a este e outros problemas graves por que passa a Europa, ouvem-se dois grandes argumentos por parte de quem a pensa e conhece: um no sentido de que só o inevitável caminho para o federalismo, com o consequente aprofundamento do relacionamento político e sobretudo financeiro, permitiria à Europa ultrapassar esta crise que não é senão o resultado de um impasse por se ter ficado a meio caminho entre a união económica e a união política; o outro argumento defende precisamente o contrário, referindo que a única via é a marcha atrás, dando a Europa alguns passos atrás no processo de integração, permitindo que as instituições e os povos dos respectivos países membros respirem uns anos e reequacionem o projecto europeu, que, assim, avançaria mais calma e sustentadamente.
Ora, independentemente da bondade de qualquer das soluções, o que me parece inquestionável é que jamais a Europa dará passos atrás no processo de integração, uma vez que isso seria - mal - considerado um fracasso, bem como a assunção de muitos erros no caminho que tem sido seguido até agora. Por outro lado, existe ainda o não despiciendo argumento prático de saber o que fazer num caso desses a toda a legislação de uniformização e caracterização de um "modelo europeu" (seja lá isso o que for), que teria muito certamente de ser posto em causa e pelo menos congelado durante algum tempo. A questão, ainda, de saber o que fazer com os muitos milhares de funcionários e eurocratas que foram crescendo em número, acompanhando a voragem desmedida dos pensadores europeus, grandes responsáveis por todos estes passos em frente, talvez na direcção do abismo.
Não é nada fácil. Sobretudo numa altura em que, como se tem visto, os EUA começam a dar os primeiros sinais de fraqueza, mostrando que por detrás dos ratings (AAA) das agências de notação "governamentais" (Moody's e Fitch), existe um sistema financeiro bem menos sólido e que dá claros sinais de estar à beira da ruína. Perante isto, a Europa deveria mostrar-se um bloco coeso e sólido, assente talvez em menos (falsos) pressupostos de integração e partilha de interesses, mas mais fortes e eficazes. Em vez disso e pelo contrário, aparece como um bloco à deriva que pode ser a todo o momento abalroado por um super-petroleiro que não o vê, ou, melhor, que o vê e que propositadamente o quer esmagar. Efectivamente, quem anda à deriva corre esse risco, o que o mesmo é dizer, como ouvíamos quando éramos crianças, que quem anda à chuva molha-se.