"Não existe nada além do tempo. O tempo é a única coisa que acontece por si própria. Devíamos aprender a deixar que ele nos leve. (...) Fiquei imóvel. Senti que se aproximava um momento arrasador. Àquela luz fosca, a sombra que ela projectava devorou a minha. Eu sabia o que estava a acontecer e não me dei ao trabalho de discutir o assunto com os médicos da especialidade. Deixa andar. Dentro dela havia qualquer coisa estilhaçada e luminosa, qualquer coisa que podia ter sido deixada pela passagem em espiral do meu próprio corpo. Ela estava agora diante de mim, a olhar para cima, com as mãos nos meus ombros. A sensação de aperto que sentira no meu quarto começava a ceder à promessa de uma fantástica libertação. Ia acontecer. Fosse o que fosse. A gaiola ia abrir-se, o pássaro louco elevar-se-ia nos ares, e eu lançaria um grito de alegria épica e dor ao presenciar a libertação de um simples momento, o início do tempo. Depois ouvi os pés descalços do meu pai nas escadas. Foi tudo."
Americana, Don DeLillo