31.5.11

Deamblogações matinais

Sócrates já não tem fôlego. Já nem ele nem os seus apoiantes (serão mesmo apoiantes?...) mais directos (leia-se, alguns ilustres do PS) conseguem disfarçar a convicção de uma derrota eleitoral no próximo domingo. É verdade que as sondagens são o que são, mas não acho, ao contrário do que se ouve muito, sobretudo do dr. Portas, que as há para todos os gostos. Até agora, pelo menos, vão todas no mesmo sentido, embora existam divergências menores, designadamente quanto à questão da maioria ou não do PSD. Em nenhuma delas o PS ganha as eleições, em nenhuma delas o CDS ultrapassa os 15% (sendo esse o melhor cenário até agora traçado), em nenhuma delas o BE fica à frente da CDU. Trata-se, pois, de afinação dos resultados finais, mais do que saber se existirá alguma surpresa. A única (boa) supresa seria a vitória retumbante do PSD, com 40 ou mais por cento dos votos. Isso sim, poderá acontecer, quando milhares de pessoas, no silêncio que precede imediatamente o voto, tomarem consciência que o PSD é o único partido capaz de liderar seriamente o país, quando perceberem que a equipa que tem estado por detrás das ideias apresentadas é, na sua maioria, séria e com vontade de mudar realmente as coisas, quando, finalmente, perceberem que não existe memória em Portugal de um político tão mentiroso e prepotente quanto Sócrates. Por esta última razão, não basta que o PSD ganhe por pouco, porque se assim for, Sócrates, que se está absolutamente nas tintas para o país e o que quer é apenas poder, quererá vingar-se. Ele que disse há dias que o que motiva o PSD é a sede de vingança das eleições de 2009 (até faz rir depois do que se passou com a aprovação dos sucessivos PEC's!), mais não fez do que transpor para esse partido aquilo que não hesitará em fazer se ficar em segundo e a poucos votos.
Não basta a vitória. Tem que ser uma vitória clara e inequívoca. Para que, se preciso for, venha um novo dirigente do PS e possamos ter responsabilidade, seriedade e credibilidade no governo do nosso país.

24.5.11

Deamblogações matinais

É verdade que o debate Sócrates-Passos Coelho foi decisivo. Mas também é verdade que a sondagem publicada ontem da Intercampus foi, parte dela, feita antes do debate. A diferença entre PSD e PS começa a sentir-se. Na rua, nas conversas, no "ambiente", nos lugares vazios nos comícios do PS, na desmobilização (ainda que ténue) das hostes do PS, no discurso riscado de Sócrates e, finalmente, nos números das sondagens. Há um único partido capaz de travar o PS e de o tirar do Governo e esse partido é o PSD. Talvez tarde, mas - talvez - os portugueses tenham começado a sentir que assim é e que têm que mobilizar o seu voto no PSD. Ninguém é perfeito e o PSD está pejado de imperfeições. Mas a questão não é verdadeiramente essa. Porque os outros partidos também estão. A questão é escolher entre uma equipa dotada de gente que quer de facto mudar alguma coisa ou insistir na aldrabice como forma de vida. Não se pode deixar a escolha à sorte dos dados.

21.5.11

Deamblogações nocturnas

Passos encostou Sócrates às cordas. Foi evidente e só uma análise tendenciosa pode defender o contrário. Foi mais assertivo, respondeu a todas as questões, mesmo as que lhe eram lançadas por Sócrates, mandou neste e obrigou-o a calar-se. Sócrates foi reduzido ao mínimo, utilizando vezes sem conta os slogans que estão previamente elaborados, pensados, estudados para fazer passar uma mensagem as mais das vezes sem conteúdo. Passos não se deixou enredar nisto e contra-atacou sempre, de forma séria e competente. Assumindo as suas fraquezas (o que só lhe fica bem), como por exemplo não ter experiência governativa, tornando-as forças. Foi, do meu ponto de vista, e para lá da relativa surpresa, um grande debate. Pena é que não tenha estado neste registo com Portas.

20.5.11

Deamblogações vespertinas

O Banco de Portugal vem hoje destruir, repito, destruir todas as (milhares de) afirmações de Sócrates no sentido de a vinda da ajuda externa se dever a uma crise política gerada pelos partidos da oposição e em particular pelo PSD. O que o Banco de Portugal diz é que o pacote de medidas se deve, essencialmente, ao facto de não terem sido tomadas medidas concretas e suficientemente determinantes durante o ano de 2010. É o respectivo presidente, Carlos Costa, que o diz, não se trata de uma qualquer interpretação tendenciosa.
Mais um desmentido oficial e consubstanciado (como se isso não fosse evidente aos olhos de muitos) vindo de uma entidade que, aparentemente, tem uma direcção séria e independente do poder político (o que foi objecto de algumas dúvidas durante a presidência de Vítor Constâncio).
A ver se Passos Coelho esfrega estas conclusões em Sócrates e a ver qual a reacção deste.

18.5.11

Deamblogações matinais

O problema destas eleições é o Medo. O Medo grassa por toda a parte, em toda a gente, da mais pequena porque não tem poder e teme os mais poderosos, até à mais graúda porque tem favores a pagar e está comprometida. O Medo condiciona a cabeça e as opções que deviam ser tomadas livremente e sem constrangimentos. Tudo isto ainda é pior pelo facto de vivermos num país ridiculamente pequeno, em que existe um fosso enorme entre os "conhecidos" e todos os outros, o que torna tudo ainda mais insuportável.
Há medo de votar contra Sócrates (não é contra o PS), há medo de votar em Passos Coelho, há medo que isto tome um caminho esquisito, que não se consegue bem antecipar qual seja. Há medo. Medo, com maiúscula. Esse Medo paralisa, entope, não deixa avançar, não deixa evoluir, não deixa arriscar, não deixa falhar (e é tão importante poder falhar...). Medo de ficar sem ordenado, medo de não conseguir manter o emprego, de não conseguir manter o estatuto, de não conseguir comprar o carro novo, de não conseguir ir de férias. Medo.
Ponham à venda dúzias de cães, de preferência Dobermanns, porque quem tem medo compra um cão. Mas pode comprar mais do que um, se aqueles que se puserem à venda forem baratos. Cada medroso devia era comprar um par de animais para lhe fazer companhia e protegê-lo do Medo. Talvez assim o Medo fugisse, fosse embora, desaparecesse para sempre e descomprometesse as pessoas tornando-as mais livres e permitindo que esta nossa sociedade evoluísse definitivamente tal como precisa. Já agora, os cães podiam vir formatados para não gostar de aldrabões e caciques, assim desempenhando dois papéis: ao mesmo tempo que protegiam os medrosos, atacavam os poderosos.
Começava assim uma nova Era.

16.5.11

Deamblogações matinais

Ontem Marcelo disse tudo o que Pedro Passos Coelho devia ter dito (e não disse bem) no final do debate com Portas: que a disputa é apenas (sublinhe-se, apenas) entre o PSD e o PS; que os únicos (sublinhe-se, únicos) candidatos a primeiro ministro são Passos e Sócrates; que não é de todo indiferente que o PSD tenha 30 ou 40% e o CDS, respectivamente, 20 ou 10%. Transformar em simples o aparentemente complicado. Falar para toda a gente ouvir e perceber. Criar uma espécie de mantra como, de resto, o candidato Sócrates tão bem faz.
Faltou rasgo a Passos Coelho. Deixou que Portas o dominasse com um ar insuportavelmente superior e magnânime. Ora, Portas não é nem superior nem magnânime, e o que está a fazer agora não é mais do que puro e simples cálculo político. Aliás, eu fui dos poucos que não ficou logo convencido que ele tenha fechado a porta a um entendimento pós-eleitoral com o PS. A sede de poder do CDS (e de Portas e da sua entourage, antes de mais) é mais do que evidente e não creio que o, ainda, candidato Sócrates, eventualmente noutro papel num futuro muito próximo, obstaculize esse desiderato.

11.5.11

Inquietações matinais

"(...) Não é a reivindicação que marca este dia estranho, é a perda. Mil pessoas passam por mim na rua, mil pequenas derrotas pessoais, mil coisas perdidas que todos pensavam poder fazer, mil pequenos contratos que cada um pensava ter com o Estado, com o patrão, com a família, consigo próprio, perdidos. Descontei toda a vida à espera de ter mil euros de reforma e agora tiram-ma. Pensava ter esta reforma e já não a vou ter. Não vai dar, a minha filha vai ter que me ajudar. Mas como é que o pode fazer, agora que o marido a deixou e o infantário é mais caro? Pensava ganhar seiscentos e afinal vou ganhar apenas quatrocentos. Onde é que vou cortar? Como é possível que este remédio que tenho que tomar todos os dias custe agora mais dez euros? Será que posso tomá-lo apenas dia sim, dia não? Fará o mesmo efeito? É melhor não comprar esta carne, mas sim o frango, para poupar oito euros. Tenho que começar outra vez a pensar em escudos, oito euros é um conto e seiscentos. Como é possível esta carne custar tanto? Vou dizer à minha mulher que é melhor só ir uma semana de férias, vai ficar furiosa e dizer que as crianças precisam de sol, de iodo e ela chega a Agosto tão cansada. Mas não pode ser. Não gostei de ver a cara do patrão hoje. Já não vejo o patrão há um mês, o que é que estará a acontecer? O Alberto disse-me que há um problema com os fornecedores. Onde é que eu vou buscar seiscentos euros para o condomínio arranjar o elevador? Como é que vou todos os dias subir quatro andares? Já me faltam só três meses para acabar o subsídio de desemprego, não sei como vai ser. O comboio subiu, o autocarro subiu, o barco do Barreiro subiu. Já viste esta factura da electricidade? Como é possível? O rapaz pediu-me dinheiro para sair à noite. Pediu-me ontem, pede-me hoje. Dei-lhe dez euros, queria vinte. Não pode ser. Como é que vou pagar a prestação da casa? Este mês são mais cinquenta euros. A Carris acabou com a linha do autocarro, como é que eu chego ao emprego? A Maria contou-me que já não suporta ter que estar na mesma casa com o João, mas ele não tem para onde ir. O meu "ex" deixou de pagar para os filhos, a minha prima não paga o que me deve e o meu marido está furioso porque bem me disse para não emprestar nada. Como é que vou pagar esta contribuição, já viste o que subiu? E agora querem penhorar-me a casa. Se me tiram a casa, para onde é que eu vou? Fiz aquele trabalho de electricidade para a Módulo - Informática e eles não me pagam, a loja está fechada e pela montra vê-se o correio no chão, é só cartas das Finanças. E agora que já paguei o material, como é que vai ser? Vou "arder" em mil euros? Etc., etc., etc.

É assim. Depois olha-se para os jornais e as sondagens funcionam como um indicador de inevitabilidade, mostrando o mesmo absurdo que é quanto mais se precisa de mudar, não há forças para a mudança, o conservadorismo da indiferença impera. Está tudo tão mal que mais vale manter-se tudo como está. Onde não há esperança, não há mudança."
 
JPP, in Abrupto

10.5.11

Deamblogações matinais

A cassete de Sócrates, do candidato Sócrates, é a seguinte: "O Memorando de Entendimento assinado com a Troika é rigorosamente igual ao PEC 4. Para isso, porque é que, irresponsavelmente, os partidos da oposição, com especial destaque para o PSD e o CDS, precipitaram o país para uma crise política?". Este é o mote que vai ser repetido ad nauseam, tal como o candidato Sócrates tão bem sabe fazer, distraindo do resto que é incomensuravelmente mais importante.
O que o PSD e CDS deviam fazer era, de forma clara e acessível a todos, explicar ao país alguns dos traços fundamentais distintivos entre o PEC 4 e o Memorando de Entendimento. Porque senão, há muito boa gente que vai na cantiga e que acredita nas mentiras que são propaladas aos sete ventos.

9.5.11

5.5.11

Deamblogações vespertinas

Click here to find out more!Título do Público on-line: Troika diz que pedir ajuda mais cedo poderia ter suavizado medidas

Quem é que ainda não estava convencido disso? Nem sequer o primeiro-ministro, que, eufemismos à parte, é mentiroso quando afirma o contrário. Nem ele crê no que diz. Por isso é que é mentiroso.

4.5.11

Corto Maltese em Paris

3.5.11

Inquietações matinais

Enquanto os membros da troika terminam o seu trabalho e se preparam para apresentar publicamente as suas conclusões, o país político parece continuar a viver na sua própria realidade, a qual, de resto, não tem nada que ver com a realidade do país. O Governo aproveita o momento, e o primeiro-ministro confunde propositadamente essa sua qualidade com a de secretário-geral do PS, vagueando (a expensas nossas) pelo país para fazer anúncios e inaugurações. Ainda tem a lata de mandar dizer que não se trata de campanha eleitoral porque não se está ainda em período de campanha eleitoral. Pelo meio, são mais do que muitas as farpas que espeta no PSD, desacreditando que ainda não chegou o momento dessa campanha.
Quanto ao PSD, não se percebe bem o que tem andado a fazer. O Dr. Catroga ganhou um inesperado (?) protagonismo e parece um "ser vivo e com vontade própria", actuando um pouco (pelo que parece) à margem do próprio partido. Não se percebe se tudo aquilo é devidamente concertado ou se existe alguma loucura à mistura. É verdade que a posição do PSD é extraordinariamente difícil: tem que se demarcar (e quer fazê-lo) das asneiras que foram cometidas ao longo dos últimos anos, mas não só sabe que o que tem pela frente é espartilhado pelas medidas impostas de fora, como o amadorismo que por ali pulula (por contraposição com a máquina bem oleada do PS) não permite fazer melhor. Ainda assim, continuo convicto na posição de que o capital de que o PSD dispunha à entrada para este cenário de crise (mais por demérito do PS do que por qualquer outra razão) era suficiente para ir mantendo o barco à tona (leia-se, ganhar eleições) sem grandes apuros. O que tem feito é, no entanto, dar tiros nos pés (v.g. Nobre, desmentidos e correcções constantes, falta de apresentação do programa eleitoral, falta de um cenário claro, falta de comunicação transparente e a uma voz), o que, evidentemente, compromete o desfecho deste acto.
Já Paulo Portas tem aproveitado, e bem, a onda para tentar ganhar protagonismo.  No outro dia ouvi qualquer coisa como isto: "se o Portas não fosse tão Portas, era capaz de lá chegar". O problema é esse: Portas é muito Portas. É o Portas de há 15 ou 20 anos e há qualquer coisa que não passa, nunca percebi bem o quê.
Entretanto, no meio disto tudo, nunca se viu tanta azáfama na chamada sociedade civil, com iniciativas, discussões, debates e tomadas de posição. De facto, têm vindo a terreiro pessoas que andavam mais ou menos enredadas nas suas vidas profissionais e que se sentiram chamadas pela situação urgente em que o país se encontra. É muito fácil criticar essa gente e dizer que são liberais, abastados, instalados e comprometidos com uma certa agenda. Nunca como hoje, no entanto, se viu a sociedade mexer tanto e isso é indiscutivelmente bom.
O que me preocupa é que a classe política parece continuar a falar uma linguagem própria, como se o seu país não fosse o país de todos os outros. Isso é que me preocupa.