Enquanto os membros da troika terminam o seu trabalho e se preparam para apresentar publicamente as suas conclusões, o país político parece continuar a viver na sua própria realidade, a qual, de resto, não tem nada que ver com a realidade do país. O Governo aproveita o momento, e o primeiro-ministro confunde propositadamente essa sua qualidade com a de secretário-geral do PS, vagueando (a expensas nossas) pelo país para fazer anúncios e inaugurações. Ainda tem a lata de mandar dizer que não se trata de campanha eleitoral porque não se está ainda em período de campanha eleitoral. Pelo meio, são mais do que muitas as farpas que espeta no PSD, desacreditando que ainda não chegou o momento dessa campanha.
Quanto ao PSD, não se percebe bem o que tem andado a fazer. O Dr. Catroga ganhou um inesperado (?) protagonismo e parece um "ser vivo e com vontade própria", actuando um pouco (pelo que parece) à margem do próprio partido. Não se percebe se tudo aquilo é devidamente concertado ou se existe alguma loucura à mistura. É verdade que a posição do PSD é extraordinariamente difícil: tem que se demarcar (e quer fazê-lo) das asneiras que foram cometidas ao longo dos últimos anos, mas não só sabe que o que tem pela frente é espartilhado pelas medidas impostas de fora, como o amadorismo que por ali pulula (por contraposição com a máquina bem oleada do PS) não permite fazer melhor. Ainda assim, continuo convicto na posição de que o capital de que o PSD dispunha à entrada para este cenário de crise (mais por demérito do PS do que por qualquer outra razão) era suficiente para ir mantendo o barco à tona (leia-se, ganhar eleições) sem grandes apuros. O que tem feito é, no entanto, dar tiros nos pés (v.g. Nobre, desmentidos e correcções constantes, falta de apresentação do programa eleitoral, falta de um cenário claro, falta de comunicação transparente e a uma voz), o que, evidentemente, compromete o desfecho deste acto.
Já Paulo Portas tem aproveitado, e bem, a onda para tentar ganhar protagonismo. No outro dia ouvi qualquer coisa como isto: "se o Portas não fosse tão Portas, era capaz de lá chegar". O problema é esse: Portas é muito Portas. É o Portas de há 15 ou 20 anos e há qualquer coisa que não passa, nunca percebi bem o quê.
Entretanto, no meio disto tudo, nunca se viu tanta azáfama na chamada sociedade civil, com iniciativas, discussões, debates e tomadas de posição. De facto, têm vindo a terreiro pessoas que andavam mais ou menos enredadas nas suas vidas profissionais e que se sentiram chamadas pela situação urgente em que o país se encontra. É muito fácil criticar essa gente e dizer que são liberais, abastados, instalados e comprometidos com uma certa agenda. Nunca como hoje, no entanto, se viu a sociedade mexer tanto e isso é indiscutivelmente bom.
O que me preocupa é que a classe política parece continuar a falar uma linguagem própria, como se o seu país não fosse o país de todos os outros. Isso é que me preocupa.