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5.3.18

Escritos

OLHE AQUI, MR. BUSTER *

Rio de Janeiro , 1962

* Este poema é dedicado a um americano simpático, extrovertido e podre de rico, em cuja casa estive poucos dias antes de minha volta ao Brasil, depois de cinco anos de Los Angeles, EUA. Mr. Buster não podia compreender como é que eu, tendo ainda o direito de permanecer mais um ano na Califórnia, preferia, com grande prejuízo financeiro, voltar para a "Latin America", como dizia ele. Eis aqui a explicação, que Mr. Buster certamente não receberá, a não ser que esteja morto e esse negócio de espiritismo funcione. 

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo 
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills. 
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue 
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood 
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia 
Está muito certo que em ambas as residências 
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial 
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo 
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar 
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da 
Coréia. 
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas 
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo 
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho 
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi 
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros. 
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell 
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do 
ano. 
Está tudo muito certo, Mr. Buster - o Sr. ainda acabará governador do seu estado 
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas. 
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster 
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster: 
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha? 
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal? 
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?
Vinicius de Moraes

8.5.17

Escritos

Receita de Mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.


Vinicius de Moraes

23.8.16


12.1.16


All day I think about it, then at night I say it.
Where did I come from, and what am I supposed to be doing?
I have no idea.
My soul is from elsewhere, I'm sure of that,
and I intend to end up there. 

This drunkenness began in some other tavern.
When I get back around to that place,
I'll be completely sober. Meanwhile,
I'm like a bird from another continent, sitting in this aviary.
The day is coming when I fly off,
but who is it now in my ear who hears my voice?
Who says words with my mouth? 

Who looks out with my eyes? What is the soul? 
I cannot stop asking.
If I could taste one sip of an answer,
I could break out of this prison for drunks.
I didn't come here of my own accord, and I can't leave that way.
Whoever brought me here, will have to take me home. 

This poetry. I never know what I'm going to say.
I don't plan it.
When I'm outside the saying of it,
I get very quiet and rarely speak at all.


Rumi

2.12.15

Escritos


Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já têm a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos
Que nos levam sempre aos mesmos lugares

É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos

Fernando Pessoa

11.8.15

Escritos

PRINCIPADO EXTINTO

Isto é um poema
fala de amor
ou do medo do amor
Fala da morte
ou do fim da amálgama
rosto voz alma e cheiro
que é a morte
Isto é um poema
tenha medo
Fala dos peregrinos
que atravessam avenidas
de sobretudo e óculos
carregando flores invisíveis
e chorando mudos
Isto aqui é um poema
fala da permanência inútil
de um coração devastado
de uma floresta devastada
de uma corrida devastada
logo depois do disparo
da arma de 40 peças
que soltou a bandeirinha
e assim mesmo se desfez
Isto é um poema
fala da aparição do inverno
fala da fuga dos albatrozes
fala do punhal sobre a mesa
e do absurdo do punhal
feito de madeira e pedra
sobre a mesa do jantar
Fala do poder da erosão
que afinal incide sobre
pele e nervo e osso e olho
Fala do desaparecimento
Fala do desaparecimento
Fala do desaparecimento
Claro que é um poema
fala do toque de saída
no colégio de Île de France
e das 39 saias das meninas
esvoaçando sem vontade
na direcção do cais de ferro
Fala do pânico do corpo
que esbarra em si mesmo
no espelho pela manhã
e do urro silencioso
que nenhum vizinho
escuta mas que ainda
assim reverbera sem dó
até à hora final
fala do vómito que advém
dos gestos repetidos
Fala do vómito que advém
dos gestos gastos
prolongados assim ad astra
até que o sono apague tudo
Fala da palavra saudade
ou da palavra terramoto
fala do olho que tudo via
deixando lentamente de ver
até mesmo a cara de Jack Steam
o porteiro da loja de discos
onde toca a canção de Chavela
Nada mais no mundo importa
Isto é que é um poema
Fala do cheiro das flores
e da injustiça da existência
das flores na cidade
Fala da dor excruciante
meu bem excruciante
o que faz até desejar
o fim do poema
o fim da palavra amor
que após o disparo
se espelha apenas
na palavra loucura.

Matilde Campilho, Jóquei

28.4.15

Autobiografia em cinco capítulos

a) Ando pela rua.
Há um buraco fundo no passeio.
Caio nele.
Estou perdido...
Sem esperança.
Não é culpa minha.
Demoro uma eternidade para encontrar uma saída.

b) Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo no passeio.
Faço de conta que não o vejo.
Caio nele outra vez.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda demoro muito tempo a sair.

c) Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo no passeio.
Vejo que está lá.
Ainda caio nele...
É um hábito.
Os meus olhos estão abertos.
Sei onde estou.
É culpa minha.
Saio imediatamente.

d) Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo no passeio.
Contorno--‐o.

e) Ando por outra rua.


Partia Nelson, in "There's a hole in my sidewalk: The romance of self discovery", Beyond Words Publishing Company, 1994

22.1.15

Escritos

"Par délicatesse, j'ai perdu ma vie"

Arthur Rimbaud

19.12.14

Escritos

Faith

I want to write about faith,
     about the way the moon rises
        over cold snow, night after night,
faithful even as it fades from fullness,
     slowly becoming that last curving and impossible
          sliver of light before the final darkness.
But I have no faith myself
      I refuse it even the smallest entry.
Let this then, my small poem,
     like a new moon, slender and barely open,
          be the first prayer that opens me to faith.

 -- David Whyte

11.12.14

Escritos


There is a way between voice and presence
where information flows.
In disciplined silence it opens.
With wandering talk it closes.

Rumi

2.9.14

Deamblogações matinais

This Poem Belongs to You

This poem
  belongs to you
    and is already finished,
it was begun years ago
     and I put it away
knowing it would come
   into the world
     in its own time.
In fact
   you have already read it,
     and closing the pages
       of the book,
you are now
  abandoning the projects
     of the day and putting on
       your shoes and coat
         to take a walk.
It has been long years
   since you felt like this.
You have remembered
   what I remembered,
     when I first began to write.

David Whyte

8.1.14



The Opening of Eyes

That day I saw beneath dark clouds
the passing light over the water
and I heard the voice of the world speak out,
I knew then, as I had before
life is no passing memory of what has been
nor the remaining pages in a great book
waiting to be read.

It is the opening of eyes long closed.
It is the vision of far off things
seen for the silence they hold.
It is the heart after years
of secret conversing
speaking out loud in the clear air.

It is Moses in the desert
falling to his knees before the lit bush.
It is the man throwing away his shoes
as if to enter heaven
and finding himself astonished,
opened at last,
fallen in love with solid ground.

David Whyte

6.1.14

Deamblogações matinais



Peace is This Moment Without Judgment

Do you think peace requires an end to war?
Or tigers eating only vegetables?
Does peace require an absence from
your boss, your spouse, yourself? …
Do you think peace will come some other place than here?
Some other time than Now?
In some other heart than yours?

Peace is this moment without judgment.
That is all. This moment in the Heart-space
where everything that is is welcome.
Peace is this moment without thinking
that it should be some other way,
that you should feel some other thing,
that your life should unfold according to your plans.

Peace is this moment without judgment,
this moment in the heart-space where
everything that is is welcome.

Dorothy Hunt

14.8.13

Deamblogações matinais

You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert, repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calling to you like the wild geese, harsh and exciting
over and over announcing your place in the family of things.

Mary Oliver

23.7.13

Deamblogações matinais

Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflecte, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.

A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.


Rumi