Penso mesmo (a sério que penso) que boa parte das pessoas do governo já se está nas tintas para o futuro do país. Se noutros tempos havia quem assim estivesse mas andasse entretido a tratar da sua vida (leia-se, a garantir o seu próprio futuro), agora acho que isso não deve acontecer na maioria dos casos porque não há dinheiro nem ninguém minimamente coerente pode prometer o que, já hoje, não existe.
Mas, entretanto, parte da gente que por lá anda ocupa-se a fazer coisas inteligentes e úteis, como, por exemplo, o diploma que sairá em breve sobre os licenciamentos para os grafittis. A acreditar no Público, a coisa é da seguinte forma: eu sou graffiter e quero exercer a minha arte. Pois bem, tenho de me deslocar à câmara municipal da localidade em que o quero fazer e preencher um requerimento no qual tenho de pedir autorização à câmara. Nesse requerimento tenho de desenhar (mero esboço? Desenho pormenorizado?) o grafitti que pretendo fazer. Simultaneamente, o proprietário do espaço (muro, parede) tem de autorizar o desenho, sob pena de tal não ser possível. Depois tudo vai para análise por um técnico camarário, que averiguará da pertinência do projecto. O que não se sabe (entre muitas outras coisas) é como é que se analisa a pertinência de uma coisa destas...
Quem teve esta ideia decerto não compreende a génese dos grafittis, o carácter marcadamente clandestino, intrusivo, repentino e pontual que graffiters e suas obras (muitas delas mero lixo urbano) têm. Passa pela cabeça de alguém pedir licença à câmara para fazer um graffiti? Passa pela cabeça de alguém tornar o processo num intrincado vai-e-vem de requerimentos, vinhetas, autorizações, caducidades e o diabo a sete?
Eu acho que isto é uma manifestação do puro delírio que grassa nesta coisa informe e desforme que temos e que dá pelo nome de governo, que de governo tem muito pouca coisa, a não ser o nome, mas que esse também devia ir à aprovação do povo, devidamente acompanhado de, mais do que um mero esboço, uma pintura fina e detalhada do respectivo programa. Com uma condição: não apenas lhes era cassada a licença se o não cumprissem, como ficavam impedidos de participar na coisa pública durante um período de tempo suficientemente lato.
Disto ninguém se lembra por lá.