30.11.11

Deamblogações vespertinas


Defender a liberdade de expressão é um lugar-comum. Mas como genericamente acontece com os lugares-comuns, tem razão de ser. A liberdade de expressão é algo cuja não existência nunca vivi mas parece-me um bem demasiado precioso com que se brincar. Por isso o que vou dizer nada tem que ver com a liberdade de expressão, a qual jamais em circunstância alguma ponho em causa, excepção feita aos casos em que mesma ofende gravemente outros interesses fundamentais consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem (e mesmo assim, cum granu salis).
Tem-se falado demasiado de revoluções. Aliás, poderia ficar pela afirmação de que se tem falado de mais ultimamente, ponto. Toda a gente fala a toda a hora sobre tudo e todos, especialmente sobre a situação do país e da Europa e do Euro e dos Estados Unidos e da China, etc., etc..
Mas, convenhamos, há pessoas e pessoas e a mim o que começa a preocupar-me seriamente é ver pessoas cheias de responsabilidades, presentes ou passadas, falarem da necessidade de uma revolução, ainda que, segundo os próprios, o façam em sentido figurado. É como aquelas pessoas que, ao falarem, fazem um gesto com os dedos e dizem "entre aspas". Além de irritante, o que é facto é que dizem o que dizem e quanto a isso nada nem ninguém pode fazer o que quer que seja. Mas o caso que trato agora é bem mais do que simplesmente irritante. É grave e preocupante. Ouvir pessoas como Mário Soares dizerem que é necessário uma revolução (embora logo a seguir precise que é uma revolução «pacífica»), é grave e procupante. Já agora, o que é uma revolução pacífica? Ele disse-o ontem: é uma revolução como foi o 25 de Abril, sem feridos nem mortos (!). Mas será isto a sério?...
Soares não é, no entanto, o único. Nas alturas em que escasseiam soluções devido à complexidade da situação, o encontro das mesmas está ao alcance de poucos. Será, acredito eu, por isso normal que se ouçam coisas que normalmente não fariam qualquer sentido ditas por pessoas que normalmente não as diriam.
Não, não é preciso qualquer revolução nem é bom que sintamos essa necessidade porque o estado de emergência leva a espécie humana a cometer as maiores atrocidades, suspensos que estão a normalidade e o bom senso. O que é preciso é mudar de vida e de pressupostos de vida. Isso sim. Com consciência, sofrimento e a normalidade possível. Talvez, no final do dia, fosse dar ao mesmo, mas convenhamos que com menos tragédia e derrame de sangue. Mesmo que este fosse só em sentido figurado.

Inquietações matinais

Wolfgang Münchau é um reputado economista e cronista do Financial Times. No final da crónica de hoje, citado pelo Diário Económico, diz o seguinte: «O desastroso leilão de dívida pública italiana, na sexta feira, diz-nos que o tempo urge: restam dez dias à zona euro, no máximo».

29.11.11

Deamblogações matinais

Isto é o que vem escrito num boletim mensal informativo de uma instituição bancária de referência:

"A aceleração do PIB no terceiro trimestre poderá ter-se revelado uma moratória no reforço do cariz ultra-acomodatício da política monetária da Fed".

Hã? O quê?...


28.11.11

Deamblogações matinais

Vivemos numa época em que todos temos de dar opiniões e existem canais abertos para o fazer. Em bom rigor, este meio é também um canal para emitir uma opinião, a minha. No entanto, acede a ele pouca gente, apenas aquela que sabe e clica propositadamente no endereço do Peremptório. Assim não é, no entanto, com outros meios de comunicação, como nomeadamente a televisão. É evidente que podemos não ligá-la (atitude que eu reputo cada vez mais de inteligente), mas a partir do momento em que o fazemos, se queremos ver um canal de notícias, somos literalmente invadidos por opiniões alheias, dos mais diversos feitios e anunciadas das mais diversas formas. Não há cão nem gato que não opine.
Isto dito, o que me interessa é que na maior parte dos casos não existe nesta nova classe social (os comentadores/ comentaristas/ opinion makers/ etc., etc.) suficiente responsabilidade face às eventuais consequências daquilo que dizem. Parece-me evidente que nada de especial acontece se o comentador A ou B disser isto ou aquilo (excepção a alguns, como sucedeu recentemente com MRS e as acções do Millennium), mas em todo o caso se A e/ou B se multiplicarem por muitos (e são de facto muitos...), aquilo que disserem já terá consequências, sobretudo se for tudo num determinado sentido.
Sabemos que a coisa não está fácil e que Portugal e todos nós enfrentamos dificuldades tremendas que ainda se vão agravar. Incontornável. No entanto, começar a falar com regularidade na hecatombe do Euro, do resgate necessário a Itália e a Espanha, na contaminação do endividamente à Alemanha e aos países seus periféricos e numa crise várias vezes maior do que a de 2008, parece-me, assim dito, uma irresponsabilidade.
Mas é o que se vê, ouve e lê. Por muito que digam o contrário, todos os órgãos de comunicação social gostam disto, não porque sejam antipatriotas ou queiram mal ao país, mas porque se tornou no único assunto digno de destaque. É como um vício: sabe-se que faz mal mas não se consegue largá-lo.
Quem fala publicamente devia ter mais tento na língua e não resvalar para opiniões pessoais tranvestidas de prelecções técnicas, as quais podem, no seu conjunto, ter efeitos muito indesejáveis.

23.11.11

Deamblogações matinais II


«Aprendi cedo, e este é o meu credo, que um tijolo não são apenas alguns cêntimos, mas antes do mais uma alteração do mundo em que existimos. Podes alterar para melhor, ou para pior. Podes até destruir uma paisagem e uma comunidade. Por estas razões, o meu trabalho é da maior responsabilidade e no meu escritório faço por conseguir fazer Arquitectura, e nunca falo de "construção", a não ser enquanto a arte de saber construir. A história da estupidez e da ganância é a mesma que urbanizou o Lumiar até Santarém, deixando o centro de Lisboa vazio, a IC19 entupida todos os dias e pessoas sem qualidade de vida. É a história dos chicos espertos, dos labregos e dos que até sabiam no que isto ia dar mas faziam vista grossa porque a corrida à guita era o que interessava. Se hoje o nosso território está esgotado, é porque o especularam de maneira canibal. Os bancos distribuíram crédito de maneira irresponsável e as autarquias aprovaram a ocupação do território de maneira irresponsável. Foram todos incompetentes, no mínimo. A falta de respeito pelo país, pela sua forma e pelo futuro dos seus habitantes, foi total. Como a demolição não dá dinheiro, vamos ter de gramar com o lixo que atirámos para o nosso quintal durante muito tempo, e levar os amigos estrangeiros a Sintra pelo caminho da Malveira da Serra, para não nos envergonharmos com as maravilhas da IC19. Não se queixem os bancos de estarem descapitalizados e de terem clientes que não lhes conseguem pagar os empréstimos. Não se queixem os autarcas de terem de manter arruamentos de loteamentos onde não mora ninguém. Comeram a carne, agora vamos todos ter de roer os ossos.»

De um outro amigo meu, uma vez mais com imensa sabedoria.

Deamblogações matinais

«O poeta americano Ralph Waldo Emerson escreveu:

"Que haja silêncio para podermos ouvir o murmúrio dos deuses", dizendo com estas palavras o que os homens antigos sugerem há milénios: o encanto do mundo só pode sobrevir no silêncio.

É certamente disso que o homem moderno tem horror: que no silêncio se oiça enfim o barulho do desencanto, se revele o vazio de um mundo reduzido à diminuta dimensão de todos os dias, se sinta a solidão com que cada um tem de lidar com a sua angústia.»


De um amigo meu, com muita verdade e sabedoria.

22.11.11

17.11.11

Deamblogações nocturnas

A magia é, vinte e tal anos depois de vê-los ao vivo pela primeira vez e depois de os ter visto diversas vezes ao longo dos anos, continuar a sentir a mesma emoção, antes, durante e depois. Continuar a sentir que há coisas que não são transmissíveis e que a música é um meio absolutamente único de veicular sentimentos. Vinte e tal anos depois, uma vez mais em Londres, desta feita num Royal Albert Hall magnífico, cheio de uma história feita de momentos destes, revi-os, agora a revisitarem os três primeiros albuns da carreira. Entre 1979 e 1981. Já lá vai, de facto, muito tempo, mas é como se fosse a primeira vez. Justiça seja feita a quem a merece: cinquentões a tocarem concertos de três horas e meia não é todos os dias. Inolvidável. Mais uma vez.

8.11.11

Deamblogações vespertinas

Ontem seguia o veredicto do julgamento do médico de Michael Jackson, que está a decorrer no estado da Califórnia. Depois de ter sido considerado culpado, o advogado de defesa requereu que o mesmo pudesse aguardar a sentença (final deste mês) em liberdade, baseado, fundamentalmente, no facto de ele ter sempre estado em liberdade até agora, ser médico no activo, o que inspira confiança na comunidade e mais um ou dois argumentos deste tipo. Depois, o juíz enumerou os motivos que, em seu entender, deviam ser considerados para uma decisão sobre esse pedido e terminou concluindo que o médico devia aguardar a sentença na prisão. Pois nesse preciso momento, chegaram não um, nem dois, mas três polícias ao pé do médico, tendo-o rodeado e algemado. Nesse exacto minuto. Diga-se que o médico estava sentado ao lado dos seus advogados, de fato e gravata, com ar absolutamente calmo e controlado. Foi algemado, tendo um dos polícias, segundo pareceu, sussurado ao seu ouvido que deveria encostar-se para disfarçar o facto de se encontrar algemado.
Isto é, mais ou menos, a mesma coisa que vermos cá uma personalidade mediática ou importante da nossa vida social, política ou económica acontecer-lhe semelhante coisa. Tínhamos logo esse grande arauto da defesa dos oprimidos que é simultaneamente bastonário da Ordem dos Advogados, Dr. Marinho e Pinto, aos berros nos jornais e nas televisões, a dizer que estavam a atentar contra os direitos fundamentais do cidadão, etc., etc..
Não está em causa saber se se justificava algemar o homem. Muito provavelmente não. Mas, lá como cá (cá por péssimas razões), a justiça também vive das imagens e do que mostra. Há uma mensagem expressa naquele acto que é a seguinte: nós aqui não brincamos em serviço. O tribunal manda ir para a cadeia e portanto até lá ponham-se as algemas porque, se se vai para a cadeia, é porque se é potencialmente perigoso. Não há paninhos quentes nem contemplações. Nem mais.

7.11.11

Isto é a prova de que a economia real se está nas tintas para o que dizem os políticos

"Operador alemão exige contratos em dracmas a hotéis gregos", título do Jornal de Negócios on-line.
E desenvolve, valendo a pena citar duas passagens: "Exigência da TUI pretende precaver eventual saída da zona euro. (...) "Vamos ser realistas, a saída da zona euro é mais do que uma mera hipótese teórica", afirmou o porta-voz do grupo".

Anedota do ano (fiscal)

Segundo li num teaser da SIC-N (se calhar ainda bem que não ouvi), o Presidente desta nossa República veio dizer que a educação é uma aposta absolutamente fundamental (repito que não sei se foram estas as palavras utilizadas). Este nosso PR é um mimo. Consegue dizer as maiores banalidades com ar de quem está a dizer a coisa mais importante do mundo. Eu explico: de facto é a coisa mais importante do mundo (está há muito provado que existe uma relação directa de causa-efeito entre os níveis de educação de um país e os seus níveis de desenvolvimento e bem-estar), mas, vinda do PR, torna-se uma mera banalidade. Ou não foi ele primeiro ministro durante 10 anos, sendo PR há sete?
É que esta forma de fazer oposição em situações dramáticas para o nosso país como o que estamos a viver por vezes dá-me alguma comichão.

Deamblogações vespertinas

"Abstenção violenta mas construtiva" é, segundo parece, o que Seguro prometeu que o PS iria fazer ao OE apresentado pelo Governo.
Eu cá pus-me a pensar um bocado (mas não muito) sobre o que é que essa bizarra expressão poderia querer dizer. É que, ou mal percebo, ou o acto de abstenção é único e esgota-se nele próprio. Tanto quanto sei, não existe no nosso sistema uma abstenção com declaração de voto, o que seria uma contradição nos seus próprios termos, já que a abstenção é o não exercício deliberado da faculdade de voto. Assim sendo, pus-me de facto a pensar em que é que poderia traduzir-uma uma abstenção violenta: não voto com cara feia? Não voto com murros nas mesas? Não voto com impropérios aos parlamentares do PSD e do CDS e aos membros do Governo? Não voto com grunhidos de má disposição?
Enfim, não sei mesmo a que conclusão chegar.
Por outro lado, a mesma dúvida assola-me relativamente ao carácter construtivo da opção tomada pelos socialistas. Quer dizer, vão contribuir com soluções diferentes mas no final abstêm-se de votar mesmo que essas soluções sejam adoptadas? Ou estão derrotados à partida? É isso?
Bom, não quero contribuir para grandes interpretações sobre o que, muito provavelmente, nem sequer pode ser interpretado por falta absoluta de conteúdo, mas francamente ficou-me a tilintar de forma algo violenta e nada construtiva...