«Aprendi cedo, e este é o meu credo, que um tijolo não são
apenas alguns cêntimos, mas antes do mais uma alteração do mundo em que
existimos. Podes alterar para melhor, ou para pior. Podes até destruir uma
paisagem e uma comunidade. Por estas razões, o meu trabalho é da maior
responsabilidade e no meu escritório faço por conseguir fazer Arquitectura, e
nunca falo de "construção", a não ser enquanto a arte de saber
construir. A história da estupidez e da
ganância é a mesma que urbanizou o Lumiar até Santarém, deixando o centro de
Lisboa vazio, a IC19 entupida todos os dias e pessoas sem qualidade de vida. É
a história dos chicos espertos, dos labregos e dos que até sabiam no que isto
ia dar mas faziam vista grossa porque a corrida à guita era o que interessava.
Se hoje o nosso território está esgotado, é porque o especularam de maneira
canibal. Os bancos distribuíram crédito de maneira irresponsável e as
autarquias aprovaram a ocupação do território de maneira irresponsável. Foram
todos incompetentes, no mínimo. A falta de respeito pelo país, pela sua forma e
pelo futuro dos seus habitantes, foi total. Como a demolição não dá dinheiro,
vamos ter de gramar com o lixo que atirámos para o nosso quintal durante muito
tempo, e levar os amigos estrangeiros a Sintra pelo caminho da Malveira da
Serra, para não nos envergonharmos com as maravilhas da IC19. Não se queixem os
bancos de estarem descapitalizados e de terem clientes que não lhes conseguem
pagar os empréstimos. Não se queixem os autarcas de terem de manter arruamentos
de loteamentos onde não mora ninguém. Comeram a carne, agora vamos todos ter de
roer os ossos.»
De um outro amigo meu, uma vez mais com imensa sabedoria.