O que tem acontecido no Rio de Janeiro é absolutamente extraordinário, e a diversos níveis. Um deles consiste num aspecto impensável em Portugal, na Europa e francamente não sei se no mundo ocidental, e que é a exposição pública dos detidos nas favelas. Nesta reportagem da GloboNews, um elemento do BOPE não se coíbe de tocar no preso, mostrar as suas tatuagens, falar dele e do comparsa em termos pejorativos. Os dois presumíveis traficantes - que são comummente designados por "bandidos" (terminologia usada por todos os intervenientes nas reportagens feitas) - estão literalmente em exposição, sem qualquer protecção da sua dignidade, sem qualquer respeito pelos direitos mais elementares.
Reconheço que é impossível sentir alguma pena por aquela gente. Gente que mata, tortura, rouba, extorque e destrói. Mas não é verdadeiramente disso que se trata. Numa sociedade civilizada, existem direitos básicos que não podem e não devem ser ignorados, um deles a da presunção da inocência até julgamento em contrário com sentença transitada em julgado, com tudo o que isso pressupõe até lá, nomeadamente a preservação da identidade. Uma versão moderna do pelourinho. Nem mais.
29.11.10
Inquietações matinais
Pior do que o mal-estar, do que a irritação, do que a revolta, é a indiferença. Ganhou Marinho e Pinto as eleições para Bastonário da Ordem dos Advogados, o que significa mais três anos de populismo, demagogia e ataques constantes como forma de argumentação (?). Questionados vários amigos advogados, todos manifestaram indiferença. O pior de tudo.
23.11.10
Deamblogações matinais
Esta pré-campanha presidencial é muito esquisita: Alegre diz que há um muro de silêncio relativamente à sua candidatura. Ainda não percebeu que poucos o levam a sério e que não entusiasma ninguém. Francisco Lopes, entre outros dislates, mantém o discurso alinhado e ortodoxo do "orgulhosamente sós" e que Portugal conseguirá manter-se à tona sem ajuda. Fernando Nobre não se ouve e quase não se vê (como seria de esperar). Defensor Moura e Pinto Coelho não se ouvem nem vêem. E por fim Cavaco.
É no mínimo uma desilusão, para não dizer pior. Cavaco está entalado na teia que ele próprio teceu: por um lado a famosa "cooperação estratégica" enleou-o num discurso que não podia ir contra o oficial do Governo, sob pena de criar rupturas; por outro, foi muitas vezes evidente que Cavaco não concordava com as opções que iam sendo tomadas, optando nesses casos por ir fazendo comunicações mais ou menos vagas ao país, ora directamente na televisão, ora através das fundamentações oficiais de Belém para cada vez que promulgava (ou não) um diploma. Foi visível que, pouco a pouco, Cavaco se foi afastando do Governo, mas sem nunca assumir esse movimento, como se precisasse, não do Governo, mas de uma parte importante dos seus apoiantes socialistas para garantir a sua reeleição.
E agora a campanha. Cavaco diz que lamenta que o Governo não o tenha escutado quando, atempadamente (segundo o próprio), foi avisando que a situação económica estava a descambar. Mas diz mais: alinha neste logro que é não assumir que, com a execução orçamental que estamos a ter, não existe qualquer possibilidade de evitar a entrada do FMI e do Fundo de Estabilização do euro. Esta não é a minha opinião, nem tão pouco a de alguns economistas. É a de todos os economistas. Há actualmente na sociedade portuguesa dois discursos: um político, para o qual o FMI está distante e mal se vê e outro económico, para o qual é uma inevitabilidade.
Portugal padece de um mal: nunca ter enfrentado a sua própria realidade, tendo tentado à outrance iludi-la. Isso explica muito do endividamento das empresas e famílias, assim como explica o recurso absolutamente desmesurado ao mecanismo mentiroso e hipócrita das PPP's. Com o actual discurso político mantemos exactamente esse mal e demonstramos que a classe política existente não vai conseguir tirar Portugal do fosso em que se encontra.
Cavaco podia ter sido essa pessoa. Ao optar pelo tacticismo político, mostrou-se. E já não tem volta: se for eleito e optar por enfrentar o Governo e revelar as suas opções erradas, confirma que o podia - e devia - tê-lo feito antes, com isso prestando um inestimável serviço ao país.
Uma imensa desilusão.
É no mínimo uma desilusão, para não dizer pior. Cavaco está entalado na teia que ele próprio teceu: por um lado a famosa "cooperação estratégica" enleou-o num discurso que não podia ir contra o oficial do Governo, sob pena de criar rupturas; por outro, foi muitas vezes evidente que Cavaco não concordava com as opções que iam sendo tomadas, optando nesses casos por ir fazendo comunicações mais ou menos vagas ao país, ora directamente na televisão, ora através das fundamentações oficiais de Belém para cada vez que promulgava (ou não) um diploma. Foi visível que, pouco a pouco, Cavaco se foi afastando do Governo, mas sem nunca assumir esse movimento, como se precisasse, não do Governo, mas de uma parte importante dos seus apoiantes socialistas para garantir a sua reeleição.
E agora a campanha. Cavaco diz que lamenta que o Governo não o tenha escutado quando, atempadamente (segundo o próprio), foi avisando que a situação económica estava a descambar. Mas diz mais: alinha neste logro que é não assumir que, com a execução orçamental que estamos a ter, não existe qualquer possibilidade de evitar a entrada do FMI e do Fundo de Estabilização do euro. Esta não é a minha opinião, nem tão pouco a de alguns economistas. É a de todos os economistas. Há actualmente na sociedade portuguesa dois discursos: um político, para o qual o FMI está distante e mal se vê e outro económico, para o qual é uma inevitabilidade.
Portugal padece de um mal: nunca ter enfrentado a sua própria realidade, tendo tentado à outrance iludi-la. Isso explica muito do endividamento das empresas e famílias, assim como explica o recurso absolutamente desmesurado ao mecanismo mentiroso e hipócrita das PPP's. Com o actual discurso político mantemos exactamente esse mal e demonstramos que a classe política existente não vai conseguir tirar Portugal do fosso em que se encontra.
Cavaco podia ter sido essa pessoa. Ao optar pelo tacticismo político, mostrou-se. E já não tem volta: se for eleito e optar por enfrentar o Governo e revelar as suas opções erradas, confirma que o podia - e devia - tê-lo feito antes, com isso prestando um inestimável serviço ao país.
Uma imensa desilusão.
22.11.10
Inquietações matinais
"Não havendo autonomia na politica portuguesa, dependente nas suas decisões fundamentais do exterior, ou mais cruelmente dito, do estrangeiro, dos “mercados” e da Alemanha, e não querendo ou não podendo os principais actores políticos nacionais fazer alguma coisa para diminuir essa dependência, não vale a pena desperdiçar muito espaço com uma coisa que não há." JPP in Abrupto.
Portugal parece um daqueles doentes terminais. Eles sabem que vão morrer, a família sabe que eles vão morrer, os amigos sabem que eles vão morrer. A única coisa que se discute à boca pequena é o momento da morte e aí há certamente divergências. Uns consideram que o moribundo é mais resistente do que se julga, enquanto outros acham que o estado é já de pré-morte. Ainda assim, o moribundo não deixa de ser moribundo e disso todos têm consciência. No entanto, para o próprio, as pessoas fazer a melhor cara que conseguem e dizem que está com um pouco melhor aspecto, já não tão magro e debilitado, etc., etc.
Passa-se exactamente isto com a vinda do FMI para Portugal. Toda a gente - o Governo em primeiro lugar - sabe que ele vem aí e que não há volta a dar. Toda a gente sabe - o Governo em primeiro lugar - que Portugal não é viável sem a injecção maciça de dinheiro, muito dinheiro. Isto é tão inevitável quanto a morte do moribundo. No entanto, todos - o Governo em primeiro lugar - continuam a dizer que há condições para continuar com os PEC's que têm sido aprovados, que não é preciso estrangeiros cá dentro a mandar nas contas (como se já não mandassem) e a exigir soluções draconianas.
Ao moribundo - os portugueses - continua a ser dito - pelo Governo em primeiro lugar - que tudo se resolverá de certa maneira, quando é evidente que tal é impossível. É preciso algum respeito por quem sofre e está prestes a receber a extrema-unção.
Portugal parece um daqueles doentes terminais. Eles sabem que vão morrer, a família sabe que eles vão morrer, os amigos sabem que eles vão morrer. A única coisa que se discute à boca pequena é o momento da morte e aí há certamente divergências. Uns consideram que o moribundo é mais resistente do que se julga, enquanto outros acham que o estado é já de pré-morte. Ainda assim, o moribundo não deixa de ser moribundo e disso todos têm consciência. No entanto, para o próprio, as pessoas fazer a melhor cara que conseguem e dizem que está com um pouco melhor aspecto, já não tão magro e debilitado, etc., etc.
Passa-se exactamente isto com a vinda do FMI para Portugal. Toda a gente - o Governo em primeiro lugar - sabe que ele vem aí e que não há volta a dar. Toda a gente sabe - o Governo em primeiro lugar - que Portugal não é viável sem a injecção maciça de dinheiro, muito dinheiro. Isto é tão inevitável quanto a morte do moribundo. No entanto, todos - o Governo em primeiro lugar - continuam a dizer que há condições para continuar com os PEC's que têm sido aprovados, que não é preciso estrangeiros cá dentro a mandar nas contas (como se já não mandassem) e a exigir soluções draconianas.
Ao moribundo - os portugueses - continua a ser dito - pelo Governo em primeiro lugar - que tudo se resolverá de certa maneira, quando é evidente que tal é impossível. É preciso algum respeito por quem sofre e está prestes a receber a extrema-unção.
17.11.10
9.11.10
Inquietações matinais
O que aconteceu ontem no jogo do Sporting é inadmissível. É inadmissível que o Maniche tenha pontapeado um adversário, mas isso ainda é o menos. Leva cartão encarnado e sai fora. Simples. Agora o que aconteceu depois é que é grave e não parece ter remédio. Em vez dos 10 jogadores que ficaram no campo se unirem e aguentarem a pressão mais do que previsível do Guimarães, em vez de lutarem para suster uma vitória que até aí era absolutamente indiscutível (e que nem o golo mal validado pôs em causa), perderam por completo a cabeça e ficaram desnorteados. Tão desnorteados que sofreram 3 golos em poucos minutos, transfigurando um jogo que, na primeira parte, tinha sido apenas e só o melhor do Sporting para o campeonato nacional.
Falta liderança, falta espírito de sofrimento, falta entrega. Se calhar faltam muitas mais coisas, mas de uma coisa eu tenho absoluta certeza: assim não se ganha nada. Nem campeonato (já foi há muito tempo), nem Taça, para já não falar de competições europeias onde, à mínima dificuldade, não resistiremos.
Não é fatalismo. É realismo. Triste, mas bem verdadeiro.
8.11.10
4.11.10
Deamblogações matinais
Ontem, em entrevista dada à TVI24, o primeiro ministro usou e abusou da técnica do "se não tivéssemos feito/ decidido/ levado a cabo/ etc., então a situação ainda teria sido pior".
Creio que foi Pacheco Pereira quem, uma vez, alertou para a utilização desta técnica que é impossível de ser desmontada. Repare-se: quem é que pode, sustentadamente, dizer que se tivesse sido de outra maneira era menos mau ou mesmo melhor? Ter aumentado o défice (como o primeiro ministro diz que fez em 2009) foi mau porque nos levou a esta situação, mas quem em bom juízo pode afirmar que se tal não tivesse acontecido estaríamos melhor ou pior? Não ter tomado todas as medidas difíceis no PEC 1 foi bom porque na altura elas pareciam suficientes, mas quem no seu bom juízo pode afirmar que se se tivessem concentrado logo algumas medidas dos PEC 1 e 2 estaríamos melhor? E por aí adiante.
Mas o raciocínio mais interessante que o primeiro ministro teve foi relativamente à construção do TGV. Diz ele que seria ruinoso não aproveitar os 600 milhões de euros vindos do BEI a fundo perdido, que têm que ser utilizados num determinado prazo. Ora, isto faz-me lembrar aquela lógica por detrás dos saldos: é proveitoso porque está barato. Já saber se é necessário ou não, não interessa muito. É sempre bom negócio.
Não há nada mais falacioso do que isso! Já alguém disse ao primeiro ministro que existe uma outra opção - essa sim, com toda a certeza mais barata - que consiste pura e simplesmente em não construir?... Nós não queremos aproveitar os 600 milhões (endividando-nos em mais não-sei-quantos milhões) porque é melhor negócio não fazer o TGV. Será que o primeiro ministro já se lembrou que esta é uma opção legítima? Parece que não. Como dizia Miguel Sousa Tavares, o primeiro ministro anda a alimentar toda a gente (do sector público e privado) que vai ganhar com a construção de um elefante branco.
Pobre país o nosso.
Creio que foi Pacheco Pereira quem, uma vez, alertou para a utilização desta técnica que é impossível de ser desmontada. Repare-se: quem é que pode, sustentadamente, dizer que se tivesse sido de outra maneira era menos mau ou mesmo melhor? Ter aumentado o défice (como o primeiro ministro diz que fez em 2009) foi mau porque nos levou a esta situação, mas quem em bom juízo pode afirmar que se tal não tivesse acontecido estaríamos melhor ou pior? Não ter tomado todas as medidas difíceis no PEC 1 foi bom porque na altura elas pareciam suficientes, mas quem no seu bom juízo pode afirmar que se se tivessem concentrado logo algumas medidas dos PEC 1 e 2 estaríamos melhor? E por aí adiante.
Mas o raciocínio mais interessante que o primeiro ministro teve foi relativamente à construção do TGV. Diz ele que seria ruinoso não aproveitar os 600 milhões de euros vindos do BEI a fundo perdido, que têm que ser utilizados num determinado prazo. Ora, isto faz-me lembrar aquela lógica por detrás dos saldos: é proveitoso porque está barato. Já saber se é necessário ou não, não interessa muito. É sempre bom negócio.
Não há nada mais falacioso do que isso! Já alguém disse ao primeiro ministro que existe uma outra opção - essa sim, com toda a certeza mais barata - que consiste pura e simplesmente em não construir?... Nós não queremos aproveitar os 600 milhões (endividando-nos em mais não-sei-quantos milhões) porque é melhor negócio não fazer o TGV. Será que o primeiro ministro já se lembrou que esta é uma opção legítima? Parece que não. Como dizia Miguel Sousa Tavares, o primeiro ministro anda a alimentar toda a gente (do sector público e privado) que vai ganhar com a construção de um elefante branco.
Pobre país o nosso.
3.11.10
Inquietações vespertinas
nem aqui onde estás, onde sentes, onde vives, onde choras, nem aqui, dizia eu, te podes reconstituir como pessoa, como mãe, como mulher
acabou tudo por acabar, um dia sem aviso nem recado
ali então, ali, onde ficaste sem cara e sem alma, onde te despiram de tudo o que tinhas, ali, como o tempo teimava em não passar
era e foi assim a partir de então, sem mais regressos, sem maiores delongas
a vida recomeçou por fim sem sequer dares por isso
acabou tudo por acabar, um dia sem aviso nem recado
ali então, ali, onde ficaste sem cara e sem alma, onde te despiram de tudo o que tinhas, ali, como o tempo teimava em não passar
era e foi assim a partir de então, sem mais regressos, sem maiores delongas
a vida recomeçou por fim sem sequer dares por isso
2.11.10
Inquietações vespertinas
Embora o OE vá ser aprovado, fala-se da entrada do FMI como se já tivesse sido anunciado formalmente. É, pois, um dado adquirido que o FMI vai cá entrar. É como aqueles doentes terminais que sabem que vão morrer, só não quando. Dies certus an incertus quando.
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