Ontem, em entrevista dada à TVI24, o primeiro ministro usou e abusou da técnica do "se não tivéssemos feito/ decidido/ levado a cabo/ etc., então a situação ainda teria sido pior".
Creio que foi Pacheco Pereira quem, uma vez, alertou para a utilização desta técnica que é impossível de ser desmontada. Repare-se: quem é que pode, sustentadamente, dizer que se tivesse sido de outra maneira era menos mau ou mesmo melhor? Ter aumentado o défice (como o primeiro ministro diz que fez em 2009) foi mau porque nos levou a esta situação, mas quem em bom juízo pode afirmar que se tal não tivesse acontecido estaríamos melhor ou pior? Não ter tomado todas as medidas difíceis no PEC 1 foi bom porque na altura elas pareciam suficientes, mas quem no seu bom juízo pode afirmar que se se tivessem concentrado logo algumas medidas dos PEC 1 e 2 estaríamos melhor? E por aí adiante.
Mas o raciocínio mais interessante que o primeiro ministro teve foi relativamente à construção do TGV. Diz ele que seria ruinoso não aproveitar os 600 milhões de euros vindos do BEI a fundo perdido, que têm que ser utilizados num determinado prazo. Ora, isto faz-me lembrar aquela lógica por detrás dos saldos: é proveitoso porque está barato. Já saber se é necessário ou não, não interessa muito. É sempre bom negócio.
Não há nada mais falacioso do que isso! Já alguém disse ao primeiro ministro que existe uma outra opção - essa sim, com toda a certeza mais barata - que consiste pura e simplesmente em não construir?... Nós não queremos aproveitar os 600 milhões (endividando-nos em mais não-sei-quantos milhões) porque é melhor negócio não fazer o TGV. Será que o primeiro ministro já se lembrou que esta é uma opção legítima? Parece que não. Como dizia Miguel Sousa Tavares, o primeiro ministro anda a alimentar toda a gente (do sector público e privado) que vai ganhar com a construção de um elefante branco.
Pobre país o nosso.