23.11.10

Deamblogações matinais

Esta pré-campanha presidencial é muito esquisita: Alegre diz que há um muro de silêncio relativamente à sua candidatura. Ainda não percebeu que poucos o levam a sério e que não entusiasma ninguém. Francisco Lopes, entre outros dislates, mantém o discurso alinhado e ortodoxo do "orgulhosamente sós" e que Portugal conseguirá manter-se à tona sem ajuda. Fernando Nobre não se ouve e quase não se vê (como seria de esperar). Defensor Moura e Pinto Coelho não se ouvem nem vêem. E por fim Cavaco.
É no mínimo uma desilusão, para não dizer pior. Cavaco está entalado na teia que ele próprio teceu: por um lado a famosa "cooperação estratégica" enleou-o num discurso que não podia ir contra o oficial do Governo, sob pena de criar rupturas; por outro, foi muitas vezes evidente que Cavaco não concordava com as opções que iam sendo tomadas, optando nesses casos por ir fazendo comunicações mais ou menos vagas ao país, ora directamente na televisão, ora através das fundamentações oficiais de Belém para cada vez que promulgava (ou não) um diploma. Foi visível que, pouco a pouco, Cavaco se foi afastando do Governo, mas sem nunca assumir esse movimento, como se precisasse, não do Governo, mas de uma parte importante dos seus apoiantes socialistas para garantir a sua reeleição.
E agora a campanha. Cavaco diz que lamenta que o Governo não o tenha escutado quando, atempadamente (segundo o próprio), foi avisando que a situação económica estava a descambar. Mas diz mais: alinha neste logro que é não assumir que, com a execução orçamental que estamos a ter, não existe qualquer possibilidade de evitar a entrada do FMI e do Fundo de Estabilização do euro. Esta não é a minha opinião, nem tão pouco a de alguns economistas. É a de todos os economistas. Há actualmente na sociedade portuguesa dois discursos: um político, para o qual o FMI está distante e mal se vê e outro económico, para o qual é uma inevitabilidade.
Portugal padece de um mal: nunca ter enfrentado a sua própria realidade, tendo tentado à outrance iludi-la. Isso explica muito do endividamento das empresas e famílias, assim como explica o recurso absolutamente desmesurado ao mecanismo mentiroso e hipócrita das PPP's. Com o actual discurso político mantemos exactamente esse mal e demonstramos que a classe política existente não vai conseguir tirar Portugal do fosso em que se encontra.
Cavaco podia ter sido essa pessoa. Ao optar pelo tacticismo político, mostrou-se. E já não tem volta: se for eleito e optar por enfrentar o Governo e revelar as suas opções erradas, confirma que o podia - e devia - tê-lo feito antes, com isso prestando um inestimável serviço ao país.
Uma imensa desilusão.