Aquela nuvem que eu vi e em que quase toquei de dentro do avião parecia algodão doce, esse cliché que de tão cliché que é se torna verdade. Lá em cima quando nos dizem que estão menos não-sei-quantos graus e eu penso que não pode ser, que aquele azul celeste não pode existir com trinta e tal graus negativos, não é possível, enquanto olho para uma camada de branco onde apetece deitar e espreguiçar, exactamente o que não se pode fazer naqueles lugares minúsculos em que mal cabem as pernas e penso como é estranho porque à medida que o tempo foi andando e se foram fazendo mais coisas adaptadas a uma altura média maior do que a do passado os lugares dos aviões ficaram do mesmo tamanho, aliás parece que até mais pequenos. Nisto enquanto oiço a fabulosa versão do Glória da Sétima Legião, com letra do Miguel Esteves Cardoso, tocada pelos Cindy Kat, que diz: “e a glória será não esquecer memória de tanto te querer sem razão meu amor com paixão sem morrer”. Como se de súbito alguma coisa tivesse mudado, sinto os ouvidos a estalar e percebo que vamos entrar na cama de algodão imaginando como seria se pudesse sair dali e entrar noutra dimensão do espaço e ficar sustido nas nuvens, sem ruído, sem pessoas, sem confusão e sem tempo. Mas não é isso que acontece. Sem terem feito qualquer aviso, começo a ver o chão e casas, estradas, carros, montanhas e campos, tudo ordenado e limpo como se de facto fosse ordenado e limpo. Drain you dos Nirvana ajuda a descer e a pensar que se não correr tudo bem e, por exemplo, os trens de aterragem não saírem como é suposto ao menos acaba-se com isto rapidamente e com um som condizente. Haverá pior. Há ao lado quem ressone como uma locomotiva e eu penso no sistema respiratório do ser em causa e em como se farão as compensações necessárias à estabilização da pressão atmosférica sem intervenção do próprio. Realmente a máquina humana é demasiado perfeita. Arrumo o pensamento e lembro-me que hoje li um artigo no Público sobre a uniformização dos aeroportos pelo mundo, independentemente de se tratarem de países ricos ou pobres. Não será bem assim mas eu pensava nisto enquanto descia e em quanto adoro aeroportos e aquela gente toda que parece obedecer a uma organização de colmeia, cada um com um propósito bem definido: sair dali e ir para outra paragem, seja ela onde e para o que for. Os pneus tocam o chão ao som de Corduroy dos Pearl Jam, numa versão ao vivo bem melhor do que a original. Afinal não rebentou tudo como não devia. E por não dever é que não rebentou, pensarão os crentes no destino. Eu cá, reservo-me o direito de acreditar na manutenção técnica à mistura com um pouco de sorte, que sempre vai ajudando nestas coisas de jogar com o risco. Mais um bocado e estou safo. É tarde no dia e está um mild weather, ou seja nem carne nem peixe. Não chove mas também não faz sol. Óptimo para deambular por aí. Afinal de contas, o que se pretende. Entro no metro a ouvir You can’t always get what you want. Espero que não seja premonitório, mas lá que é uma grande verdade lá isso é.