29.8.10
Deamblogações matinais
Há dias passou na RTP 2 um programa sobre Carlos Paredes, inserido numa série de programas sobre o fado. Não sei se Carlos Paredes tocava fado. Talvez, mas não é isso que verdadeiramente interessa. Carlos Paredes é único. Não conheço mais nenhum guitarrista que toque como ele tocava. Em boa verdade, não conheço um outro instrumentista que me toque tanto a alma. O documentário que passou na televisão foi o filme de Edgar Pêra que há uns anos, creio que em 2006, estreou nos cinemas. É fantástica a forma como o realizador capta a profunda melancolia presente na música de Paredes. E depois há a cidade, sempre a cidade. Coimbra, Porto e Lisboa, especialmente esta última. A tristeza, a solidão e a nostalgia da vida na cidade e a vida moderna como o paradigma desses sentimentos. Foi isso que Carlos Paredes captou como ninguém e ele próprio afirmava esse desejo. Interessava-lhe a melancolia das pessoas, sobretudo das que vinham de longe e viam na cidade a selva de oportunidades que não tinham nos seus lugares de origem. Ainda assim, uma selva, sem amigos, sem relações, sem apoios. Pus-me a pensar que, de facto, em todos nós, por mais relacionais que sejamos, por mais amigos e família que tenhamos, temos uma dose elevada de solidão, que é fomentada pela vida que levamos, cada vez mais egoísta e ensimesmada. Há uns anos li uma entrevista a um autor que dizia que o dia-a-dia era uma batalha desde que acordava até que se deitava. Exageros à parte, não deixa de ser em boa parte verdade. A agressividade que nos assalta e que, ao fim e ao cabo, nós próprios acabamos por manifestar é profundamente desgastante e transporta-nos para um mundo desequilibrado no qual somos nós contra todos os outros. Quando ouço Carlos Paredes tremo de sentimento, de nostalgia, de saudade de não sei bem o quê. Fico arrepiado com aqueles acordes tocados a uma velocidade estonteante que, encadeados, perfazem um (o) movimento perpétuo. É uma música intemporal que não tem idade nem geração, ainda que não para todos os espíritos. Volto à essência, ao que importa verdadeiramente. É uma música terapêutica que anda contra a corrente. Paredes é eterno, como eterna é a sua música. O filme de Edgar Pêra deixou-me completamente absorto do princípio ao fim e fez-me perceber que, afinal, embora muito de vez em quando, ainda há qualquer coisa que preste na programação da nossa televisão.