15.8.10

Deamblogações nocturnas

Naquela imagem que eu tinha há muitos anos tu olhavas fixamente o sol, em o dia sendo infindo como infindo era então o tempo. Tu procuraste quem querias, quem olhavas, quem vias. Não te distraíste com pormenores de quem andava a brincar com a vida. A brincar com a vida... Nessa imagem que guardo na memória, na mesma memória que é minha mas que tem vida própria e que tantas vezes comanda o que sinto e penso, lembro-te inocente. Consigo imaginar, mesmo saber, o que sentias e pensavas. Ali, imóvel, congelada no momento, eras tu no mais inocente olhar. É essa a traição da memória, feita da fantasia em que queremos acreditar. Tu olhavas e eu via. E vejo. Na viagem que iniciei então e durante a qual percorri um caminho solitário, sempre cada vez mais solitário, houve muitas vezes em que recordei essa imagem transportando para o presente, passado, o sentido que dei a esse percurso. Esses dias que resgatei com uma insistência masoquista e cruel são um capítulo no meio de tantos outros. Mas não são resgatáveis, tal como não é resgatável o percurso que não se fez, as opções que não se tomaram, as palavras que não foram ditas. Tal como não se pode mudar o capítulo anterior mantendo a história como até ali foi escrita. É isso em que acredito. Não por acreditar, mas porque a história já foi escrita numa espécie de tinta da china que não se pode apagar. O sulco da caneta que vincou demasiado o papel, que de tão marcado que ficou deixou de poder ser reescrito. O correr da pena tem destas coisas. Nada ficou no mesmo lugar porque nada podia ficar no mesmo lugar. As palavras que foram escritas encarregaram-se friamente de contar a própria história, quase que por magia negra, tão negra como a tinta da china que as escreveu. Os teus olhos continuam lá como no longínquo ano em que a máquina congelou aquele momento. Mas não são os mesmos olhos de hoje. Viram mais coisas, viveram mais coisas, choraram mais coisas. Assim é o que só a ilusão pode mudar.