Quando entrei vi um tipo meio desgrenhado, com óculos sujos, barba por fazer, camisola por cima de uma camisa branca com o colarinho por fora daquela, aspecto de uma certa intelectualidade que se via com alguma frequência nos idos de oitenta. Os dedos finos e longos. Tudo a não condizer com a função.
Passado um tempo diz-me do nada: «Hoje estive e pensar nas hipóteses reduzidíssimas, quasi-ínfimas (sic), de se ganhar o euromilhões. Diz-se, e talvez seja verdade, que são ainda mais reduzidas do que nos cair um meteorito em cima. Há muito que penso sobre se será possível comprimir (sic) essas hipóteses, no sentido de facilitar o ganho?». Sem eu responder, continuou: «Bom, se fosse, com certeza já teria sido descoberto. Com tanta gente a pensar sobre isto...». E depois: «Quando eu frequentava a Biblioteca Nacional, li um dia um livro do [cita um nome que desconheço e de que não me lembro] que tinha uma teoria sobre o jogo da roleta e que era assim: apostava-se 1; se se perdesse, apostava-se 2 para recuperar o 1 perdido e ganhar outro 1; se se perdesse, apostava-se 3 com isso recuperando o perdido e ganhando, e assim por diante. Bom, alguma vez se teria de ganhar, não era?!» e solta ao mesmo tempo uma gargalhada enorme, comprometida com o entusiasmo que estava a sentir ao falar daquilo, que deu para ver a falta de alguns dentes. Só aí pude dizer a primeira coisa que já não me lembro bem o que foi, mas nada de demasiado interessante porque o sujeito interrompeu-me de novo, dizendo: «Conheci em tempos os únicos tipos capazes de inverter a regra matemática de que a casa ganha sempre (sic) e que faziam o que se chama de... [pensa concentrado com a mão na testa] "eye bet" que é apostar imediatamente antes do croupier dizer "rien na va plus" [boa pronúncia, penso]. Aí sim, vi os tipos ganharem uma data de massa.».
Quando, finalmente, lhe disse que preferia não ganhar o euromilhões, olhou para mim de soslaio, perguntando-me porquê, ao que respondi que, mesmo considerando-me uma pessoa equilibrada, acho que aquilo é tanto dinheiro que dá facilmente a volta a um tipo. Riu sem comentar. Percebi que discordava.
No fim, paguei, pedi uma factura, fechei a porta do taxi a cair aos bocados e disse-lhe adeus com vontade de ficar.