É por isso que este Papa fez muito mais pela Igreja do que
muitos cristãos pensam que fez, resultado de terem ficado órfãos em
Bento XVI da religiosidade afectiva de João Paulo II, daquela bondade de
pater que beijava a terra e peregrinava pelo mundo todo. Bento
XVI é uma outra espécie diferente de "peregrino", autoclassificação que
deu a si próprio na sua última declaração ainda Papa no seu belo
italiano de adopção: "Voi sapete che io non sono più Pontefice, sono
semplicemente un pellegrino che inizia l"ultima tappa del suo
pellegrinaggio in questa terra."
Para João Paulo II, cuja
acção é muito intimamente complementar da de Bento XVI e vice-versa, a
preocupação foi sempre reforçar a Igreja nas suas mais seguras fontes de
continuidade e influência: o cristianismo popular, mariano, orgânico,
"comunitário", como o era na sua Polónia natal, assegurando-lhe a
liberdade de culto, e a autonomia das suas instituições, em particular
as ligadas ao ensino. O seu olhar dirigia-se aos sítios onde o
cristianismo estava a crescer e a consolidar-se, em África, na América
Latina, na Ásia, a partir do povo comum, da religiosidade popular e
simples. Daí também o seu papel no combate ao comunismo onde participou
como inspirador e conspirador. O "Papa polaco", anticomunista, foi
sempre visto pelo Kremlin como um dos grandes problemas na fase final da
crise do sistema comunista, e um actor decisivo nessa queda."
JPP, in Abrupto